Estamos numa obra em Madrid, Espanha. O som de fundo é o habitual: martelos, vozes, a rádio ligada. À volta, andaimes, cabos, betão… e nenhum rosto feminino. É aqui que conhecemos Laura Baquero, arquiteta e fundadora da empresa Ella Construye, e onde se confirma o óbvio: a construção continua a ser um espaço dominado por homens. Foi precisamente esta ausência que levou a arquiteta a agir.
Laura Baquero reparou, durante anos de trabalho em obra, que não encontrava mulheres nas equipas. E começou por perguntar‑se: "E se for eu a formar?". Em entrevista ao idealista/news, a arquiteta recorda que "em todos os anos de profissão nunca tinha encontrado mulheres a trabalhar em obra". Começou então a criar cursos gratuitos só para mulheres, realizados nas suas próprias obras. Queria que ganhassem confiança e que percebessem que também podiam ocupar aquele espaço.
Desde 2017, quase 500 mulheres já passaram pelas formações. Os cursos abrangem alvenaria, revestimentos, carpintaria, eletricidade e canalização. "As formações em revestimentos costumam ter muita afluência", explica Laura Baquero. “Mas carpintaria e alvenaria também têm bastante procura", acrescenta.
Um modelo pensado para quem está a começar
Os cursos são práticos e diretos. "Temos uma parte teórica, mas passamos rapidamente à prática porque se trata de usar as mãos", sublinha. A prioridade é criar um espaço onde mulheres se sintam confortáveis para aprender, errar e fazer perguntas sem pressão. Laura afirma que, em cursos mistos, muitas acabam por sentir‑se deslocadas ou intimidadas por homens com mais experiência.
As formações são, por isso, totalmente adaptadas a principiantes, com ritmo próprio e acompanhamento próximo.
Quem são as mulheres que se inscrevem?
Existem três perfis claros: na visão da arquiteta "muitas que procuram novas oportunidades de emprego" e outras são mulheres técnicas, como arquitetas, que querem aprender mais sobre o setor da construção. Existe, ainda, um terceiro grupo: mulheres que querem ser autónomas em pequenas reparações. "Às vezes é tão difícil encontrar um eletricista para um simples trabalho que pensam: porque não faço eu?". A diversidade de perfis mostra que a construção pode responder a necessidades distintas – trabalho, conhecimento ou autonomia.
Quando perguntado se a construção continua a ser um mundo "dominado" por homens, Laura Baquero afirma que "a obra sempre foi vista como um ambiente hostil para a mulher", isso faz com que muitas nem considerem a construção como opção de carreira. A ideia de que é preciso força física também afasta potenciais candidatas. Mas a fundadora desmonta este mito: "Na maioria dos ofícios não se precisa de força física. Em outros, sim, é preciso ter certas aptidões. Tal como nem toda a gente pode ser médico, nem toda a gente pode ser pedreiro."
Ainda assim, insiste que técnica, motivação e consciência corporal são mais importantes do que força bruta. "Não se pode romantizar a construção, mas também não se deve exagerar o esforço físico."
Novos cursos com saída profissional
Os cursos são de iniciação e 90% das mulheres continua a formar‑se depois da primeira experiência. No entanto, só cerca de 20% consegue emprego direto no setor. "Ainda não há tantas oportunidades para mulheres. Falta confiança", admite, dizendo que "entre contratar alguém sem experiência, homem ou mulher, tende‑se a escolher o homem".
No entanto, nota uma maior abertura por parte de empresas e instituições para promover diversidade. E é aqui que entra a parceria mais recente.
A Ella Construye lançou, em conjunto com a Obramat, um curso de eletricidade básica para mulheres, com início em março. "É um curso com oportunidade real de emprego". As participantes que concluírem a formação podem integrar um processo de seleção para trabalhar. A procura por eletricistas está em alta. "Venho de família de eletricistas e posso dizer que se ganha muito bem. É um ofício muito valorizado", garante.
Estes cursos vão decorrer nas cidades espanholas de Madrid e Barcelona, com inscrições disponíveis no site da empresa.
A Ella Construye nasceu para responder a um vazio óbvio: a ausência de mulheres no setor construção. Hoje em dia, já formou centenas, abriu caminho a novas oportunidades e provou que este setor pode – e deve – ser mais diverso. Como diz Laura Baquero, oferecer formação exclusiva para mulheres não é excluir ninguém, é criar espaço onde, finalmente, se sintam incluídas.
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