Atualmente, a população com mais de 65 anos representa cerca de 24% dos portugueses e deverá chegar aos 33% em 2050. Há um outro indicador menos citado: segundo o Eurostat, um português na terceira idade pode esperar viver, em média, 8,4 anos sem limitações graves de saúde (a média da União Europeia é 9,4 anos). Agora outra questão fundamental neste momento vital: onde morar quando se deixa de querer ser responsável pela gestão da casa própria e não há vontade, nem disponibilidade, para entrar num lar, com tudo aquilo que a palavra carrega na cultura portuguesa?
Não é a casa de sempre mas também não é um lar. É uma nova categoria habitacional, com tipologias T0 a T2, mais de 1.200 metros quadrados (m2) de áreas comuns por edifício e uma promessa que mistura autonomia, comunidade e cidade. O nome, que vem de outros países, com mercados imobiliários e modelos sociais mais maduros, é "Senior Independent Living". Em conversa com o idealista/news, Hugo Gonçalves Pereira, CEO do Grupo ReVentures, explica como se desenha um modo de viver pensado para uma nova geração senior, urbana e que continua ativa.
Grande parte da qualidade de vida nesta fase não depende apenas de fatores clínicos, mas de contexto: isolamento, mobilidade, acesso a serviços e estímulo social. Um projeto como o Club65 atua diretamente nesses fatores. A casa deixa de ser um espaço passivo. Passa a ser parte ativa da solução.
Uma nova forma de viver depois dos 65
A premissa é simples, em vez de envelhecer sozinho dentro de uma casa pensada para uma família que entretanto se dispersou, ou de ser encaminhado para uma instituição com lógica clínica, há um terceiro caminho: viver num apartamento próprio, com a tua chave, a tua rotina e as tuas escolhas, mas dentro de um edifício pensado para suportar essa autonomia e oferecer comunidade quando a quiseres.
"Há uma geração com mais de 65 anos que continua ativa, urbana, com vida social e cultural intensa, e que quer manter esse ritmo sem o peso operacional de uma casa tradicional", explica Hugo Gonçalves Pereira ao idealista/news. É essa geração - autónoma, urbana, digitalizada, com poder de compra e com agenda própria, que está hoje sem produto habitacional adequado.
O CEO da ReVentures faz questão de trazer para o centro da conversa uma dimensão que normalmente fica nas margens dos comunicados de imprensa: a solidão. "Mesmo em contexto urbano, ela existe de forma silenciosa e tende a aumentar com o tempo. O modelo responde diretamente a isso, ao criar uma comunidade de pessoas autónomas, com estilos de vida semelhantes, que partilham o mesmo momento de vida."
O ponto subtil, e talvez o mais difícil de comunicar, é o equilíbrio entre comunidade e independência. "Cada residente mantém o seu espaço, a sua rotina e as suas escolhas, mas com a possibilidade permanente de interação, de vizinhança e de pertença. Não se trata de estar acompanhado por imposição, mas por escolha."
A solidão não se resolve com aulas de pintura
Em residências sénior maduras lá fora, a verdadeira moeda do produto não é o número de equipamentos. É o combate eficaz à solidão, que não se faz apenas com agenda cheia.
"A solidão não se resolve com atividades programadas, mas sim por vontade própria e com o sentido de escolha", defende Hugo Gonçalves Pereira. "O caminho é criar condições para que as interações aconteçam naturalmente, com espaços bem desenhados, momentos informais, vizinhança com perfis semelhantes e envolvimento dos próprios residentes na iniciativa e dinamização de diversas atividades."
A comunidade, nesta leitura, nasce da intersecção de três pontos essenciais:
- Proximidade. As pessoas estão fisicamente próximas, num edifício pensado para isso.
- Afinidade. Partilham um estilo de vida e um momento biográfico semelhante.
- Escolha. Estão ali porque quiseram estar. Não por encaminhamento familiar nem por imposição.
A isto junta-se um quarto elemento que o CEO sublinha várias vezes: a abertura à cidade. "Ao não ser um espaço fechado, a dinâmica torna-se mais orgânica entre residentes e comunidade envolvente." A porosidade entre o edifício e o bairro é, nesta leitura, parte do antídoto.
Arquitetura que tem de facilitar a vida
Para que esta forma de viver funcione, a arquitetura tem de fazer um trabalho silencioso e exigente. Cada edifício terá mais de 1.200 m2 de áreas comuns e mais de 600 metros quadrados de jardins. Estes números, longe de serem um adorno de brochura, são estruturantes para o conceito. As áreas comuns não são complemento; são o coração da operação.
O briefing aos arquitetos partiu de uma premissa quase desconfortável de tão simples: "A arquitetura tem de facilitar a vida." A partir daí, há um conjunto de princípios que Hugo Gonçalves Pereira classifica como inegociáveis:
- Luz natural abundante, presente em todas as áreas relevantes do edifício.
- Circulação intuitiva, que dispense memória espacial complicada e leitura de sinalética.
- Ausência de barreiras, num sentido funcional mas também psicológico.
- Proximidade entre espaços privados e comuns, para que a transição entre os dois aconteça com naturalidade.
- Espaços acolhedores, sem parecerem 'adaptados', têm de ter o mesmo nível de design, conforto e qualidade de um projeto residencial premium."
T0 ou T2: o que muda no perfil
Dentro deste novo modelo, as tipologias vão do T0 ao T2. À primeira vista, parece uma simples questão de tamanho. Hugo Gonçalves Pereira faz uma leitura mais subtil. "Mais do que perfis diferentes, adequam-se a prioridades distintas." Por um lado o T0 é, não só a opção mais económica como a "resposta para quem procura simplificar o seu dia a dia: espaço eficiente, menos gestão, mais leveza."
Por seu lado o T2 é "ideal para duas pessoas, ou casais, que valorizam ter mais espaço para receber família e amigos e uma divisão extra para hobbies ou escritório." A vida não termina aos 65, o escritório existe porque há projetos ou porque querem receber os netos.
Muito para além de serviços incluídos
A oferta de serviços - piscina, ginásio, restaurante, cafetaria, biblioteca, existe mas o desafio era ir mais longe. "As categorias não se declaram, constroem-se ao longo do tempo. E neste caso, o desafio é sobretudo cultural", admite Hugo Gonçalves Pereira. "Em Portugal, a casa continua a ser vista como o último reduto, enquanto os modelos existentes estão muito associados a institucionalização."
Há um risco que o setor conhece bem: começar como residência para seniores autónomos e, ao longo dos anos, escorregar para um modelo cada vez mais assistencial à medida que os residentes envelhecem. Como evitar que este modelo se transforme, com o tempo, numa versão sofisticada de um lar?
"Foi concebido para pessoas autónomas, ativas e independentes, e toda a sua oferta, programação, serviços e dinâmica de comunidade está orientada para a promoção de uma longevidade ativa", defende o gestor. "À medida que as necessidades de alguns residentes evoluam, poderão procurar soluções mais adequadas ao seu novo contexto, mantendo-se o foco naquilo que o define: um lugar para viver com liberdade, autonomia e qualidade de vida."
Quem está a trazer este modelo para Portugal
O Grupo ReVentures, promotor imobiliário especializado no segmento living, que está a operacionalizar esta proposta. O nome do projeto é Club65, e nasce com um investimento de 225 milhões de euros, cerca de 900 apartamentos distribuídos por sete edifícios entre Lisboa e Porto. A primeira abertura está prevista para abril de 2027, na Lapa, no Porto, com as restantes inaugurações a decorrerem até ao primeiro semestre de 2029. A par do Porto (Lapa, Boavista e Matosinhos), Lisboa recebe quatro empreendimentos (Benfica, Campo Grande, Portela e Carcavelos).
"A principal aprendizagem foi perceber que o valor da habitação passa cada vez mais por modelos híbridos entre imobiliário e serviços", afirma. "Está na experiência: conveniência, comunidade e simplicidade no dia a dia. Nas residências de estudantes isso já era evidente. No segmento 65+, é ainda mais relevante, com um nível de exigência significativamente maior."
O conceito foi alimentado em mercados onde a Silver Economy já tem maturidade: França, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos. Mas a tradução para o contexto português não é literal. E é interessante perceber o que ficou de fora. "Evitámos dois extremos", explica Hugo Gonçalves Pereira, por um lado o modelo de instituição que "cria um ambiente quase clínico e reforça estigmas", mas também a ideia de "resort fechado" que tende a isolar as pessoas da cidade.
"O Club65 nasce exatamente com a lógica inversa: integração urbana total. Não queremos retirar as pessoas da cidade. Queremos que continuem a viver dentro da cidade." É uma decisão estratégica que se materializa na escolha das localizações e que define toda a relação do projeto com o espaço público envolvente.
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1 Comentários:
Bravo!!! integração urbana é a base para cidades mais humanas, conectadas e inclusivas.
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