Há uns anos, o coliving era muitas vezes apresentado como uma moda importada. Em 2025, a realidade foi outra (e em 2026 também será): a crise da habitação agravou-se, a mobilidade profissional tornou-se estrutural, o trabalho híbrido normalizou-se e a solidão passou a ser reconhecida como um problema social e de saúde pública. Neste novo contexto, o coliving deixou de ser apenas um formato alternativo de morar para passar a integrar um debate muito mais amplo sobre como vivemos, com quem vivemos e que papel a casa tem na nossa qualidade de vida.
Nas grandes cidades, o mercado tradicional tem dificuldade em responder a quem precisa de soluções flexíveis, previsíveis e imediatas. Ao mesmo tempo, o desenho da habitação contemporânea tem sido criticado por reforçar o isolamento, ao privilegiar unidades cada vez mais pequenas e fechadas. É neste ponto que o coliving se cruza com conceitos como qualidade de vida e bem-estar emocional. E é aqui que passamos da casa enquanto "apenas o lugar para viver" para a neuroarquitetura, ou a forma como o espaço influencia o comportamento humano, as emoções e as relações sociais.
A questão essencial é perceber se o coliving pode ser parte da solução para os problemas que se sobrepõem nas cidades portuguesas: falta de habitação acessível, solidão urbana e inadequação das casas às formas atuais de viver e trabalhar. E perceber porque é que o coliving continua a avançar de forma lenta e fragmentada em Portugal.
Afinal, o que é o coliving?
Em teoria, o coliving é simples: vives num quarto ou estúdio privado (muitas vezes com casa de banho) e partilhas cozinhas, salas de estar, lavandarias, zonas de lazer e, em muitos casos, espaço de cowork. Costuma incluir serviços como internet, limpeza, manutenção e gestão do edifício. O ponto-chave é que não é improviso: é habitação partilhada profissionalizada, pensada para estadias de média duração, com contratos mais flexíveis do que o arrendamento clássico e mais estáveis do que o alojamento de curta duração.
As vantagens mais óbvias são:
- Previsibilidade de custos: despesas incluídas, sem surpresas;
- Flexibilidade contratual: sem amarras longas;
- Rede social pronta: útil para quem chega sozinho;
- Infraestruturas para trabalho online: cowork, internet fiável e, às vezes, salas de reunião.
Solidão: a pandemia invisível das cidades contemporâneas
A solidão é hoje um problema social e de saúde pública, associada ao aumento de doenças mentais, cardiovasculares e à redução da esperança de vida. Nas grandes cidades, os modelos habitacionais reforçam o isolamento: casas fechadas, ausência de áreas comuns, falta de estímulos à convivência, rotinas que nunca se cruzam.
A arquiteta Teresa Ribeiro, responsável pela Academia Portuguesa de Neuroarquitetura, chama-lhe mesmo uma pandemia. "Neste momento, a pandemia mundial é a solidão. A solidão está a matar muitas pessoas. E isto não é uma coisa abstrata, é real. As pessoas vivem sozinhas, trabalham sozinhas, envelhecem sozinhas, e os espaços que desenhamos muitas vezes reforçam esse isolamento".
É aqui que o coliving entra como resposta possível: ao introduzir espaços desenhados para encontros informais, rotinas partilhadas e relações de proximidade. Mas atenção: o coliving só combate solidão se criar pertença, não apenas “gente à volta”. Um edifício cheio pode ser tão solitário como um estúdio de 25 metros quadrados (m2), se o desenho e a gestão não facilitarem ligação humana.
“Falávamos da solidão e das novas soluções que põem as pessoas a viver mais em comunidade e não na solidão, nomeadamente soluções de coliving. O coliving pode ser uma das respostas a uma sociedade em que há cada vez mais pessoas sozinhas”, reforça Teresa Ribeiro, que tem mais de 20 anos de experiência em arquitetura habitacional, urbana e de reabilitação.
A ambição vai além do óbvio “jovens em mobilidade”. Teresa Ribeiro abre uma porta particularmente relevante para Portugal: o coliving como resposta social também para pessoas mais velhas e para a intergeracionalidade. “O coliving pode ser uma das respostas a uma sociedade em que as pessoas são solteiras, ou pessoas idosas, mas em que possamos estar mais perto uns dos outros, com apoio, com relação, com proximidade humana”.
“É um modelo que pode trazer a intergeracionalidade, a transmissão de conhecimento entre gerações, algo que se perdeu muito na forma como hoje organizamos a habitação”
Teresa Ribeiro, responsável pela Academia Portuguesa de Neuroarquitetura
“Nenhum espaço é neutro”
A neuroarquitetura é uma área interdisciplinar que cruza arquitetura, neurociência e psicologia ambiental, estudando de que forma os espaços físicos influenciam o cérebro, as emoções, o comportamento e o bem-estar. Assim, são analisados fatores como luz natural, acústica, circulação, contacto com o exterior, escala, materiais e presença (ou ausência) de espaços sociais. O objetivo é claro: desenhar espaços com impacto direto no bem-estar, saúde mental, relações sociais e qualidade de vida.
“Estamos sempre num espaço, ocupamos sempre um espaço. A questão é: de que forma é que ele impacta na nossa qualidade de vida? Se nos faz sentir bem, seguros, confortáveis, se promove encontros ou se, pelo contrário, nos isola”, alerta Teresa Ribeiro.
Qualidade de vida: já não se mede em metros quadrados
Durante muito tempo, uma casa com qualidade foi sinónimo de área, localização e acabamentos. Hoje, quando falamos de qualidade de vida na habitação, "falamos de luz, silêncio, possibilidade de encontro, sensação de segurança, pertença e equilíbrio entre privacidade e vida social". A arquiteta Teresa Ribeiro acrescenta: "A casa passou a ser também local de trabalho, de lazer e de recuperação emocional, o que exige novos modelos espaciais".
Aqui, o coliving surge como laboratório: aceita que as unidades privadas podem ser mais compactas, desde que sejam complementadas por espaços comuns bem desenhados e por serviços que reduzam fricção no quotidiano. Mas também um equilíbrio delicado: ter privacidade suficiente para te sentires em casa e ter vida social suficiente para não viveres numa cápsula urbana.
A arquiteta líder do estúdio internacional Broadway Malyan, Margarida Caldeira, vê na habitação um dos maiores desafios do país e acredita em “novas formas de viver”. A lógica é clara: casas mais compactas, complementadas por valências integradas que promovem bem-estar, conveniência e qualidade de vida - cowork, ginásios, lounges, áreas exteriores e infraestruturas comuns que reduzem custos individuais e fortalecem o sentido de comunidade.
Margarida Caldeira aponta a neuroarquitetura como tendência crescente e 'next step', aprofundando a relação entre espaço e comportamento humano, bem-estar emocional e cognitivo. Tal como a sustentabilidade começou por ser vista como acréscimo e hoje é incontornável, também a neuroarquitetura tenderá a ganhar relevância na forma como desenhamos habitações e cidades.
Pode aliviar a crise da habitação?
Em Portugal, falar de habitação é falar do tema mais sensível do momento. O coliving aparece como solução complementar. O CEO da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários (APPII), Manuel Maria Gonçalves, defende que o coliving pode ser uma resposta inovadora em cidades como Lisboa e Porto, onde o arrendamento tradicional é mais caro e a oferta é escassa. Sublinha a otimização do espaço, a redução de custos e a oferta de contratos flexíveis com serviços incluídos, além do potencial para reabilitação urbana e uso eficiente do stock.
Na visão da APPII, os modelos com maior potencial em Portugal passam por:
- Projetos urbanos direcionados a jovens profissionais e estudantes internacionais;
- Formatos híbridos que combinam habitação e coworking;
- Iniciativas sustentáveis em zonas periféricas ou turísticas (por exemplo, Algarve), associadas a procura por qualidade de vida e integração comunitária.
Mas o próprio setor reconhece o dilema: rendas 'all inclusive' nem sempre são acessíveis para salários portugueses. Muitos projetos procuram público internacional com maior poder de compra. Sem políticas públicas claras, o coliving tende a aparecer onde há maior rentabilidade, não onde há maior necessidade social.
A consultora imobiliária JLL Portugal, através da Co-Head of Residential Maria Empis, enquadra o coliving no segmento de 'flex living' e sublinha a sua contribuição para mitigar a crise habitacional ao aumentar a eficiência do uso do stock urbano existente: unidades privadas mais pequenas, serviços partilhados e ocupações de maior densidade. Maria Empis aponta três tendências-chave: "Crescimento da população urbana, maior mobilidade laboral e mudança de estilos de vida para soluções flexíveis e menos centradas na propriedade".
Para Maria Empis, em Lisboa e Porto, pressionadas por residentes estrangeiros, estudantes internacionais e profissionais temporários, o coliving permite oferta imediata e flexível, reduzindo pressão sobre o arrendamento tradicional, sobretudo quando envolve revitalização de edifícios subutilizados em áreas consolidadas. E identifica como modelo com maior potencial o flex living/coliving urbano, focado em profissionais entre 22 e 60 anos, com estadias de curta a média duração, em zonas centrais ou bem servidas de transportes.
Porque o coliving parece “parado” em Portugal?
Enquadramento legal confuso
A maior parte dos projetos acaba encaixada em categorias existentes, muitas vezes Alojamento Local (AL), porque não existe figura jurídica própria para coliving. Isto gera dúvidas de licenciamento, insegurança jurídica e conflitos em prédios residenciais. Manuel Maria Gonçalves, da APPII, reforça que a ausência de enquadramento legal específico leva muitos projetos a operar sob o regime AL, pensado para turismo e não para estadias médias ou longas, criando insegurança para residentes e proprietários.
E há um detalhe muito concreto que pesa: edifícios existentes e condomínios. Manuel Maria Gonçalves lembra as dificuldades de compatibilização com a estrutura dos edifícios e com regulamentos internos: muitos prédios não permitem tipologias residenciais desta natureza porque prevêem utilização para habitação própria. "Consolidar o coliving como solução sustentável exige definir direitos e deveres de residentes e operadores para evitar utilizações indevidas, integrar o modelo nos planos urbanísticos e promover incentivos fiscais e apoios à reabilitação urbana, mas garantindo respeito pelos regulamentos de condomínio e pela segurança e bem-estar de todos os residentes/proprietários", resume.
Cultura de “casa própria” e privacidade
Portugal tem uma relação histórica forte com a casa em nome próprio. A arquiteta líder da Brodway Maylan, Margarida Caldeira, e Maria Empis, da JLL Portugal, apontam este traço cultural: em mercados onde o arrendamento domina, viver temporariamente é mais naturalizado; em Portugal, a partilha profissionalizada ganha tração mais lentamente.
Distância entre rendimentos e preços
Mesmo quando há oferta, o posicionamento tende a ser médio-alto, adequado a nómadas digitais pagos em moedas fortes, trabalhadores de tech e estudantes internacionais. Para jovens portugueses, continua muitas vezes fora do alcance.
O ponto mais sensível, e talvez o mais decisivo, é o social. Teresa Ribeiro deixa o aviso e a ambição. O coliving pode ser uma resposta à solidão e até abrir caminho a modelos intergeracionais, mas “será um modelo interessante se for aplicado de uma forma bastante acessível". "Caso contrário, corremos o risco de criar apenas mais um produto imobiliário, quando o objetivo deveria ser melhorar a vida das pessoas”, reforça a arquiteta.
Falta de escala
O mercado permanece fragmentado: edifícios pequenos, operadores locais, pouca oferta em grande escala. Menos escala significa menos visibilidade, menor capacidade negocial com municípios e menos margem para preços competitivos. O fundo COVIVIR, que anunciou 150 milhões de euros para investir em coliving e residências de estudantes em Portugal e Espanha, é frequentemente citado como sinal de interesse institucional, mas ainda não tem volume suficiente para traduzir intenções em transformação do mercado.
Maria Empis é particularmente incisiva: o principal fator de risco é a morosidade, complexidade e imprevisibilidade dos processos de licenciamento urbanístico. Isso aumenta custos, torna calendários incertos e reduz apetite dos investidores. Sem reforma profunda, o setor não ganha escala.
A arquiteta Margarida Caldeira fala também na complexidade operacional: estes formatos exigem gestão contínua e infraestruturas robustas, que dependem de desenvolvimento urbano coordenado entre promotores e autarquias, articulação que ainda está a dar os primeiros passos.
Parcerias Público-Privadas e património devoluto
Existe uma falha estrutural: "Falta capacidade institucional para criar e operacionalizar parcerias que utilizem edifícios e terrenos públicos devolutos ou subutilizados", explica Maria Empis. Estes ativos poderiam ser reconvertidos para coliving, habitação acessível, habitação intermédia e soluções para jovens profissionais, mas permanecem muitas vezes sem enquadramento programático, atrasando a transformação em oferta.
Os projetos em Portugal
Apesar de não existir uma explosão de oferta, há projetos que ajudam a perceber como o coliving se está a posicionar:
- Co.Lisbon, em Lisboa: reabilitou um edifício e transformou-o num coliving com 28 quartos e estúdios, zonas de cowork e jardim, muito focado em jovens profissionais e estudantes;
- Outsite, com unidades em Lisboa e Porto: modelo híbrido de hotel, coliving e cowork, pensado para nómadas digitais e estadias de médio prazo;
- Gabba CoLiving, nascida no Porto e com expansão para Gaia e Maia: operador dedicado à habitação coliving em contexto urbano.
Sete exemplos internacionais
Quando se olha para exemplos internacionais, percebe-se que o coliving não é um conceito único. Existem modelos híbridos com hotelaria, projetos high-tech, operadores de escala focados em acessibilidade e comunidades intencionais.
WeLive (Nova Iorque e Washington DC)
Criado pela WeWork, explora a fusão 'coliving + hotel'. Destaques: apartamentos mobilados e modularizados (soluções de arrumação inteligente), eventos semanais, chef residente, sala de yoga e um detalhe que explica muito bem a filosofia do modelo: lavandaria-bar, um bar dentro da lavandaria. A ideia é transformar rotinas solitárias em momentos sociais possíveis. Inovação a reter: integração absoluta entre design e vida comunitária.
lyf by Ascott (Singapura, Tóquio, Bangkok)
Provavelmente o coliving mais high-tech da Ásia. Criado para millennials e Gen Z, com quartos minimalistas mas funcionais, cozinhas comuns gigantes com estações individuais e operação via app: check-in, reservas, manutenção, programação social.
Zoku (Amesterdão, com expansão para Paris, Viena e Copenhaga)
Híbrido entre coliving, coworking e boutique hotel, pensado para nómadas digitais. Quartos-loft multiuso, cama escondida, espaço de trabalho “a sério”, rooftop com estufa urbana e restaurante comunitário. Programa social diário que mistura hóspedes e estadias médias.
Common (várias cidades dos EUA)
Um dos maiores operadores de coliving do mundo. Porquê é referência: foco na acessibilidade, preços mais baixos que arrendamento tradicional, modelos variados (casas partilhadas, studios, edifícios inteiros), serviços 'hotel-like' e comunidades ativas com eventos semanais.
K9 Coliving (Estocolmo)
Exemplo comunitário e socialmente sólido: comunidade intencional com decisões por consenso, sustentabilidade energética, ateliês, oficinas, salas de música, biblioteca e estufas. Mistura gerações (18 aos 60+), contrariando a lógica “coliving = jovens”.
Urban Rigger (Copenhaga)
Coliving flutuante criado pelo arquiteto Bjarke Ingels, feito com contentores transformados em plataformas flutuantes. 100% sustentável (energia solar e bomba de calor da água). Cada “ilha” tem 12 a 24 quartos com cozinha, rooftop e cais para caiaques. Focado em estudantes, mas com arquitetura de topo.
The Millennials (Tóquio e Quioto)
The Millennials: minimalismo japonês mais alta tecnologia, quartos 'capsule loft' com pé-direito alto, painéis integrados e espaços sociais funcionais e silenciosos — um lembrete de que convivência não tem de ser barulho.
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