Envelhecer mudou: “Já não é sobre viver mais, é sobre viver melhor”

Especialista em saúde preventiva e longevidade fala sobre importância de passar os anos com qualidade, autonomia e bem-estar físico e mental.
Coolzoone Madeira
Coolzoone Madeira

A pandemia marcou uma viragem na forma como as pessoas olham para o processo de envelhecer. Mais do que chegar a uma longa idade, a preocupação é agora, cada vez mais de uma forma generalizada, ir somando anos a sentir-se bem e com saúde. "Já não é sobre viver mais, é sobre viver melhor. A longevidade deixou de estar associada apenas à duração da vida e passou a estar ligada à qualidade de vida, à autonomia, ao bem-estar físico e mental", conta Michelle Dittmann, diretora da Coolzoone Madeira.

A profissional alemã escolheu a ilha portuguesa para viver e acompanhar de perto o crescimento deste espaço, trazendo consigo a experiência internacional e uma paixão pelo desenvolvimento da saúde preventiva.

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"Vivemos num ritmo constante de sobrecarga física e mental, com pouco espaço para descanso real. O stress crónico e a falta de recuperação acumulam-se ao longo do tempo e manifestam-se sob a forma de dor, fadiga e doenças. A prevenção passa por criar rotinas que incluam descanso, recuperação e consciência corporal. Não se trata apenas de tratar sintomas, mas de evitar que eles surjam."

Longevidade? Maior consciência e responsabilidade individual são a melhor receita  

A Coolzoone Madeira é a terceira localização da RemediCool GmbH, depois da Alemanha e da Suíça, e abriu as suas portas ao público no arranque de 2024, prometendo trazer ao mercado um projeto inovador dedicado à recuperação, à prevenção e à procura pela longevidade e bem-estar

O stress, por exemplo, é um dos principais aceleradores do envelhecimento. Mesmo as pessoas que se alimentam bem e fazem exercício regularmente podem sofrer consequências graves se não conseguirem gerir o stress e o descanso. 

"Desde então, tem-se afirmado como um espaço de referência, não só para os madeirenses, como também para os visitantes de diferentes partes do mundo, oferecendo uma experiência única que combina ciência, tecnologia e natureza", diz a responsável, salientando que o objetivo da marca é ser o ponto de partida para uma maior consciência e responsabilidade individual em relação à saúde.

Além de oferecer áreas como o biohacking e a recuperação física - através da combinação de tecnologia de ponta com os recursos naturais da ilha - é também ali que se encontra a maior câmara de crioterapia do mundo (com uma temperatura de -110ºC), um dos elementos distintivos do projeto, e que se destina ao público em geral, e não apenas a atletas. "Mas é importante esclarecer que não somos uma unidade clínica nem fazemos promessas de cura", frisa Michelle Dittmann

Michelle Dittmann
Coolzoone Madeira

O conceito de longevidade saudável está cada vez mais presente no debate público. Na sua perspetiva, o que mudou na forma como as pessoas encaram o envelhecimento e a prevenção nos últimos anos?

Nos últimos anos, sobretudo antes e depois da pandemia, houve uma mudança muito clara na forma como as pessoas olham para o envelhecimento. Já não é sobre viver mais, é sobre viver melhor. A longevidade deixou de estar associada apenas à duração da vida e passou a estar ligada à qualidade de vida, à autonomia, ao bem-estar físico e mental. É chegar a ter cerca de 100 anos, mas com a qualidade certa. 

As redes sociais e figuras públicas ligadas ao desporto e à saúde também tiveram um papel importante nesta mudança, ao trazerem estes temas para o espaço público. Ao mesmo tempo, o avanço da tecnologia permitiu um acesso muito maior a ferramentas de avaliação, monitorização e prevenção, o que torna a longevidade mais acessível e menos elitista.

Quando se fala em viver mais e melhor, tende-se a destacar a alimentação e o exercício físico. Que outros fatores, muitas vezes menos óbvios, considera determinantes para a qualidade de vida a longo prazo?

A alimentação e o exercício físico são fundamentais, mas não são suficientes por si só. Há fatores menos visíveis que têm um impacto enorme na saúde a longo prazo, como a gestão do stress, a inflamação crónica, o metabolismo e a postura corporal. 

O stress, por exemplo, é um dos principais aceleradores do envelhecimento. Mesmo as pessoas que se alimentam bem e fazem exercício regularmente podem sofrer consequências graves se não conseguirem gerir o stress e o descanso. A postura é outro fator frequentemente ignorado, mas que influencia diretamente o sono, a energia, a dor crónica e até o desempenho físico. Corrigir estes aspetos de base permite depois potenciar verdadeiramente os benefícios da alimentação e do exercício.

A alimentação e o exercício físico são fundamentais, mas não são suficientes por si só. Há fatores menos visíveis que têm um impacto enorme na saúde a longo prazo, como a gestão do stress, a inflamação crónica, o metabolismo e a postura corporal. 

A Madeira reúne características naturais semelhantes às Blue Zones. O que ainda falta para que possa ser reconhecida como uma verdadeira Blue Zone?

Lido Madeira
Unsplash

A Madeira reúne muitas das condições naturais associadas às Blue Zones: o clima, o mar, a montanha, a qualidade do ar, a alimentação e um forte sentido de comunidade. O que distingue a Madeira é a possibilidade de combinar estes fatores naturais com tecnologia de ponta aplicada à saúde e à prevenção.

O que faltava era precisamente criar um ecossistema integrado, onde a alimentação, o exercício, a recuperação, a avaliação clínica e a tecnologia coexistem. Esse é o caminho para uma nova geração de Blue Zone. Não queremos que a Madeira seja uma réplica do passado, mas uma Blue Zone do futuro, baseada em dados, personalização.

Nos últimos anos, tem-se falado muito do papel da ciência e da tecnologia na saúde. Como podem estas ferramentas complementar os hábitos de vida saudáveis?

A tecnologia não vem substituir os hábitos saudáveis, mas sim potenciá-los. O objetivo não é fazer “mais coisas”, mas fazer as coisas certas para cada pessoa. O nosso lema é "menos é mais". Através de medições e análises precisas, é possível perceber o que realmente faz falta a cada indivíduo e evitar abordagens genéricas. A prevenção começa antes da doença surgir. A tecnologia ajuda-nos a identificar desequilíbrios precocemente e a agir de forma consciente, reduzindo a necessidade de intervenções mais invasivas no futuro.

A crioterapia e outras terapias de recuperação física ainda geram alguma resistência ao público. Porque considera importante desmistificar estas práticas junto do público em geral?

Muitas pessoas associam a crioterapia a experiências desconfortáveis ou até assustadoras, porque confundem o frio seco com o frio húmido ou os banhos de gelo. Desmistificar estas terapias ajuda a mostrar que são seguras, controladas e adaptadas a cada pessoa. 

crioterapia
Coolzoone Madeira

A curiosidade é muitas vezes o primeiro passo, e até o medo pode ser positivo, porque permite crescer e superar limites. Aqui, ninguém passa pelo processo sozinho: acompanhamos cada pessoa, entramos com eles dentro da câmara para que seja realmente um ambiente seguro e de confiança. É por isso que muitos vêm em casal, em família ou com amigos e saem não só mais confiantes, mas também mais ligados entre si.

A tecnologia não vem substituir os hábitos saudáveis, mas sim potenciá-los e a fazer as coisas certas para cada pessoa. A prevenção começa antes da doença surgir. A tecnologia ajuda-nos a identificar desequilíbrios precocemente e a agir de forma consciente, reduzindo a necessidade de intervenções mais invasivas no futuro.

Queria ainda salientar que a crioterapia não é apenas para atletas, é para pessoas de todas as idades que procuram recuperar melhor, dormir melhor e sentir-se bem. Já tivemos pessoas com claustrofobia que saíram realmente com outra energia.  

Outro exemplo de tecnologia aplicada à saúde é a câmara hiperbárica. De forma simples, como funciona este tipo de terapia e que benefícios pode trazer?

A terapia hiperbárica consiste na respiração de oxigénio altamente concentrado num ambiente de pressão controlada. Esse aumento de pressão permite que o oxigénio seja absorvido de forma muito mais eficiente pelo organismo, chegando a tecidos e zonas que normalmente recebem menos oxigénio.

É importante esclarecer que não somos uma unidade clínica nem fazemos promessas de cura. A câmara hiperbárica hospitalar trabalha com níveis de pressão mais elevados e tem indicações médicas muito específicas. No nosso caso, utilizamos uma pressão de duas atmosferas e cerca de 96% de oxigénio, o que é mais do que suficiente para efeitos preventivos, regenerativos e de recuperação, e é precisamente este protocolo que está associado a vários estudos científicos.

Entre os benefícios mais estudados estão a melhoria da função cognitiva, o apoio à regeneração celular, a recuperação muscular, a redução da inflamação e um impacto positivo na saúde da pele. Existem também estudos que indicam um efeito na extensão dos telômeros, que são as nossas estruturas celulares associadas ao envelhecimento biológico, o que sugere um potencial efeito rejuvenescedor a nível celular quando a terapia é realizada de forma consistente. Além disso, a experiência em si é confortável. A pessoa permanece cerca de 90 minutos a respirar oxigénio, num ambiente tranquilo, longe do contexto clínico tradicional. Quando combinada com outras abordagens, como a crioterapia ou a terapia de luz, os resultados tendem a ser ainda mais visíveis, sobretudo na redução da dor, da inflamação e na aceleração da recuperação física.

Vivemos numa sociedade marcada pelo stress, pela falta de descanso e por dores físicas recorrentes. Porque é que estes problemas se tornaram tão comuns e que papel pode ter a prevenção?

Vivemos num ritmo constante de sobrecarga física e mental, com pouco espaço para descanso real. O stress crónico e a falta de recuperação acumulam-se ao longo do tempo e manifestam-se sob a forma de dor, fadiga e doenças. A prevenção passa por criar rotinas que incluam descanso, recuperação e consciência corporal. Não se trata apenas de tratar sintomas, mas de evitar que eles surjam.

Para quem quer começar já a cuidar melhor da saúde, que práticas simples recomenda que possam ser feitas em casa?

Antes de mais, é fundamental reservar tempo para si próprio. Aprender a não absorver tudo o que acontece à nossa volta, seja no trabalho ou nas relações pessoais, é uma prática diária que tem um impacto enorme na saúde mental e emocional.

jovem rapariga a dormir
Pexels

O sono é outro pilar. Mais do que acordar cedo, o importante é garantir entre oito e nove horas de descanso de qualidade. Criar uma rotina noturna adequada como evitar o uso do telemóvel e de outros dispositivos eletrónicos antes de dormir. O sono é a base de todo o processo de recuperação do corpo. O movimento diário também é indispensável, mas não precisa de ser algo pesado ou rígido. Caminhar ao ar livre, fazer alguns exercícios em casa ou até dançar enquanto se fazem tarefas domésticas já é suficiente. O mais importante é que o movimento seja prazeroso e não vivido como uma obrigação. 

Antes de mais, é fundamental reservar tempo para si próprio. Aprender a não absorver tudo o que acontece à nossa volta, seja no trabalho ou nas relações pessoais, é uma prática diária que tem um impacto enorme na saúde mental e emocional. 

De que forma espaços como a Coolzoone podem ajudar a repensar a relação com a saúde?

terapia de luz infravermelha
Coolzoone Madeira

A Coolzoone funciona como um ponto de partida. Muitas pessoas chegam por curiosidade e acabam por ganhar consciência sobre o seu próprio corpo através de avaliações simples e experiências práticas. O mais importante é que as pessoas levam esse conhecimento consigo, aplicando-o no dia a dia, mesmo depois de regressarem a casa.

A Coolzoone prepara-se para lançar a Medicbite Clinic. Como pode este projeto contribuir para uma maior consciência da ligação entre saúde oral e longevidade?

A saúde oral está diretamente ligada à postura, à inflamação e à saúde sistémica, mas continua a ser subvalorizada. A Medicbite Clinic surge como um projeto complementar e inovador, pensado para aumentar a literacia sobre a ligação entre saúde oral, postura e saúde global. A ideia não é competir com clínicas dentárias, mas trabalhar em parceria com profissionais de saúde da Madeira, criando uma rede integrada de prevenção.

O sono é a base de todo o processo de recuperação do corpo. E o movimento diário também é indispensável, mas não precisa de ser algo pesado ou rígido. Caminhar ao ar livre, fazer alguns exercícios em casa ou até dançar enquanto se fazem tarefas domésticas já é suficiente. O mais importante é que o movimento seja prazeroso e não vivido como uma obrigação. 

Através de tecnologia de scan e de uma app própria, os utilizadores passam a ter acesso direto aos seus dados, o que promove uma maior consciência e responsabilidade sobre a própria saúde.  Este modelo poderá ser também uma porta de entrada para um tema que continua a ser frequentemente negligenciado. Além disso, todo o processo foi pensado para ser simples, rápido e totalmente digital, eliminando tempos de espera e tornando a experiência mais eficiente.

Olhando para o futuro, que papel gostaria que a Madeira assumisse no panorama internacional da longevidade?

santana Madeira
Unsplash

A Madeira tem tudo para se afirmar como um destino de referência na saúde preventiva e na longevidade: natureza, clima, acessibilidade e agora também tecnologia e conhecimento. No futuro, a ilha pode ser reconhecida não apenas como destino turístico, mas como um lugar onde as pessoas vêm investir na sua saúde, e acabam por regressar a casa com benefícios reais e duradouros para a saúde.

A Coolzoone conta ainda com um apoio institucional e estratégico por parte da Direção Regional para as Políticas Públicas Integradas e Longevidade do Governo da Madeira, numa colaboração assente no alinhamento de objetivos e na integração do projeto na visão da região enquanto destino de longevidade.

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