Durante vários anos, a construção modular foi vista como solução temporária ou sinónimo de mais rápido e mais barato, mas essa perceção mudou. Hoje serve múltiplos propósitos, desde habitações unifamiliares e edifícios de apartamentos até hotéis, escolas ou hospitais. No caso da habitação, o interesse foi crescendo e o mercado procurou acompanhar a tendência, nomeadamente a banca que, se antes hesitava, hoje se mostra mais aberta a esta opção, reflexo de um setor que ganhou credibilidade, escala e diversidade. Bruna Silva, fundadora da Wander Housing, confirma: "Os bancos têm-se mostrado cada vez mais disponíveis para financiar este tipo de projetos através de crédito habitação."
Apesar dos avanços, a responsável revela que “ainda existe algum trabalho de esclarecimento em alguns casos”, mas considera que faz parte do processo. De forma a promover total transparência durante a fase de produção, diz, as entidades bancárias podem visitar a fábrica e acompanhar o processo construtivo sempre que considerem necessário, permitindo-lhes verificar de perto a qualidade da construção e a evolução dos trabalhos. “O nosso objetivo é que tanto os clientes como os bancos se sintam confortáveis e confiantes em todas as etapas do projeto, tornando o processo de financiamento cada vez mais simples e natural”, refere.
Além disso, a responsável vê a recente revisão do RJUE como um “passo importante” que pode ajudar a “criar um enquadramento mais adaptado às novas formas de construir, como a construção modular”. Não tem dúvidas de que o setor ainda tem margem para evoluir e que qualquer medida que simplifique processos e dê mais confiança a famílias e investidores acaba por ter um impacto positivo no negócio e no mercado da habitação em geral.
Superar obstáculos está no ADN de Bruna Silva, tanto que o projeto da Wander Housing nasceu precisamente de uma experiência difícil. Depois de ter sido enganada na compra de um terreno que afinal era apenas agrícola, e onde não podia construir casa, decidiu transformar o problema numa oportunidade, procurando uma solução que permitisse rentabilizar o terreno de forma legal, sustentável e inovadora. A dificuldade transformou-se num negócio, e agora o foco é provar que a construção modular “pode ser sinónimo de arquitetura de excelência, conforto e exclusividade”. Em entrevista, explica como tudo se processa desde o desenho inicial até à instalação no terreno.
A Wander Housing nasceu de uma situação bastante difícil. Como é que uma experiência de fraude na compra de um terreno acabou por dar origem a um projeto inovador de casas modulares de luxo?
A falta de verificação prévia da informação junto da Câmara Municipal, aliada à confiança depositada num agente imobiliário com vasta experiência, levou-nos a passar vários meses a tentar perceber se seria possível construir no terreno que adquirimos.
Este terreno representava todas as nossas poupanças e o primeiro passo para concretizar o projeto de construção da nossa casa. Por isso, foi muito difícil lidar com a descoberta de que a construção pretendida poderia não ser viável.
Perante esta realidade, começámos a procurar formas de rentabilizar o terreno. Uma das hipóteses que considerámos foi a instalação de casas modulares para alojamento. No entanto, rapidamente percebemos que as soluções disponíveis no mercado não correspondiam à experiência que gostaríamos de proporcionar aos futuros hóspedes. Faltava-lhes identidade, conforto e a ligação à natureza que idealizávamos.
Foi então que surgiu uma ideia simples: se o mercado não tinha o produto certo para nos oferecer, teríamos de ser nós a criá-lo. Dessa necessidade nasceram os primeiros esboços, desenhos e conceitos. O que começou como uma tentativa de encontrar uma solução para o nosso próprio terreno transformou-se no início de um projeto muito maior.
Surgiu uma ideia simples: se o mercado não tinha o produto certo para nos oferecer, teríamos de ser nós a criá-lo
Paralelamente, dessa experiência nasceu também a nossa missão de ajudar outras pessoas a evitar os mesmos erros que cometemos. Atualmente, disponibilizamos um serviço de consultoria que permite a quem pretende comprar um terreno para construção avançar com maior segurança e tranquilidade, garantindo, através de uma análise prévia rigorosa, que o terreno reúne as condições necessárias para concretizar o projeto que idealiza.
Muitas pessoas ainda associam casas modulares a soluções temporárias ou económicas. O que distingue as casas da Wander Housing e como conseguem combinar sustentabilidade, luxo e design premium?
Durante muitos anos, as casas modulares foram vistas como soluções temporárias, económicas ou de compromisso. Na Wander Housing quisemos desafiar essa perceção e provar que a construção modular pode ser sinónimo de arquitetura de excelência, conforto e exclusividade.
O que nos distingue é precisamente a forma como abordamos o produto. Não começámos por querer construir casas modulares; começámos por procurar uma experiência que não encontrávamos no mercado. Queríamos criar espaços que proporcionassem uma verdadeira ligação à natureza, sem abdicar do design, do conforto e da qualidade dos materiais.
A construção modular permite-nos reduzir desperdícios, otimizar recursos e minimizar o impacto ambiental
As nossas casas são pensadas ao detalhe, desde a arquitetura e integração na paisagem até à seleção de materiais sustentáveis e de elevada durabilidade. A construção modular permite-nos reduzir desperdícios, otimizar recursos e minimizar o impacto ambiental, mas sem comprometer a qualidade ou a estética do resultado final.
Acreditamos que sustentabilidade e luxo não são conceitos opostos. Pelo contrário, o verdadeiro luxo está em criar espaços mais conscientes, mais eficientes e mais conectados com o lugar onde se inserem. É essa combinação entre design premium, responsabilidade ambiental e experiência de utilização que define a Wander Housing.
Entraram num setor tradicionalmente dominado por homens. Que desafios encontraram enquanto mulheres empreendedoras na área da construção e da habitação?
Entrar num setor tradicionalmente dominado por homens trouxe alguns desafios, sobretudo no início. Houve momentos em que sentimos que precisávamos de provar mais vezes a nossa competência, o nosso conhecimento técnico e a nossa capacidade de liderar projetos para sermos levadas tão a sério quanto outros profissionais da área.
No meu caso, tive a sorte de contar com um apoio fundamental: o meu pai. Foi ele quem sempre me transmitiu confiança, me incentivou a assumir responsabilidades e me deu espaço para liderar e tomar decisões. Ao longo deste percurso, partilhou comigo um conhecimento técnico inestimável e esteve sempre presente para apoiar, orientar e desafiar as minhas ideias. Honestamente, sem o apoio dele dificilmente teria tido a coragem de dar os primeiros passos neste setor.
Com o tempo, percebemos que a credibilidade não se impõe, constrói-se. E foi exatamente isso que fizemos, projeto após projeto, conquistando a confiança de clientes, parceiros e fornecedores através do trabalho e dos resultados.
Ao mesmo tempo, acreditamos que o facto de sermos mulheres trouxe uma perspetiva diferenciadora para o setor. Temos uma abordagem muito centrada na experiência do cliente, na atenção ao detalhe, na funcionalidade dos espaços e na componente emocional associada à habitação. Para nós, uma casa não é apenas uma construção; é o lugar onde as pessoas vivem histórias, criam memórias e concretizam sonhos.
Felizmente, vemos cada vez mais mulheres a ocupar posições de liderança na construção, na arquitetura e no imobiliário, e acreditamos que a diversidade de perspetivas só contribui para tornar o setor mais inovador, mais humano e mais preparado para responder às necessidades atuais dos clientes.
No nosso caso, nunca quisemos que o facto de sermos mulheres fosse o principal destaque da nossa história. O que queremos que fale mais alto é a qualidade do nosso trabalho, a visão que temos para o futuro da habitação e o impacto positivo que procuramos criar através da Wander Housing.
Apesar de serem jovens empresárias, cresceram ligadas ao mundo da construção civil através das vossas famílias. De que forma essa experiência prática contribuiu para o sucesso do projeto?
Sem dúvida que essa ligação ao setor da construção foi uma das bases que nos permitiu desenvolver este projeto com mais confiança e conhecimento.
Embora sejamos jovens empresárias, a verdade é que crescemos muito próximas desta realidade. No meu caso, desde os 15/16 anos que tive a oportunidade de acompanhar alguns projetos e obras através da atividade da minha família. Isso permitiu-me ter uma perspetiva muito mais realista da construção civil, para lá daquilo que se aprende em livros ou em contexto académico.
Desde cedo contactei com todas as fases do processo, desde o planeamento e licenciamento até à execução em obra, passando pela gestão de equipas, fornecedores e clientes. Essa experiência ajudou-me a compreender os desafios reais do setor, a importância do detalhe e, acima de tudo, a perceber que cada decisão tomada em projeto tem impacto direto na execução.
Quando surgiu a ideia da Wander Housing, já existia uma base sólida de conhecimento prático que nos permitiu tomar decisões mais informadas e evitar muitos dos erros comuns de quem entra pela primeira vez nesta área. Além disso, tivemos a sorte de contar com o apoio e a experiência de profissionais da família, que ao longo dos anos nos transmitiram conhecimento técnico, rigor e uma enorme paixão pela construção.
Uma das grandes curiosidades do público é perceber como funciona o processo. Como nasce uma casa modular de luxo, desde o desenho inicial até ao transporte e instalação no terreno?
Uma casa modular de luxo nasce muito antes da produção. Tudo começa com a análise do terreno, da envolvente e das necessidades do cliente. Queremos garantir que cada projeto se adapta ao local e proporciona a melhor experiência possível.
O nosso foco está em criar espaços únicos, com arquitetura diferenciadora
Depois de desenvolvido o projeto e obtidos os licenciamentos necessários, a casa é produzida em fábrica, num ambiente controlado que garante maior precisão, qualidade e sustentabilidade. Em simultâneo, o terreno é preparado para receber a estrutura.
Quando os módulos estão concluídos, são transportados e instalados no local, seguindo-se os acabamentos finais e as ligações técnicas. O resultado é uma casa construída de forma mais eficiente e sustentável, mas sem comprometer o design, o conforto ou a qualidade.
Na Wander Housing, a modularidade é apenas o método construtivo. O nosso foco está em criar espaços únicos, com arquitetura diferenciadora e uma experiência premium para quem os habita.
Qual é o vosso perfil de clientes?
Os nossos clientes são pessoas que se identificam com este estilo de vida e com esta nova forma de construir e habitar os espaços. Mais do que procurarem uma casa, procuram uma experiência diferenciadora, onde a arquitetura, a natureza e o bem-estar se complementam.
São clientes que valorizam a qualidade acima da quantidade, que apreciam um design cuidado e exclusivo, e que procuram soluções que reflitam a sua personalidade e modo de vida. Também são pessoas que compreendem as vantagens da construção modular moderna e que estão abertas à inovação, sem abdicar do conforto, da durabilidade e da sofisticação.
Acima de tudo, são clientes que confiam na nossa equipa e no nosso processo criativo. Dão-nos espaço para pensar, desafiar ideias e desenvolver projetos verdadeiramente únicos, adaptados ao local, à paisagem e à forma como pretendem viver o espaço. É essa relação de confiança que nos permite criar casas com identidade própria, em vez de soluções padronizadas.
No fundo, os nossos clientes não escolhem a Wander Housing apenas pela casa em si, mas pela visão, pela experiência e pelos valores que ela representa.
O financiamento ainda é uma dificuldade na hora de construir casa ou os bancos já estão mais disponíveis para dar crédito habitação nestes casos?
Nos últimos anos temos assistido a uma evolução muito positiva por parte das entidades bancárias. À medida que a construção modular ganha notoriedade e demonstra a sua qualidade, durabilidade e enquadramento legal, os bancos têm-se mostrado cada vez mais disponíveis para financiar este tipo de projetos através de crédito habitação.
Ainda existe algum trabalho de esclarecimento em alguns casos, mas faz parte do nosso acompanhamento apoiar os clientes durante todo esse processo. Disponibilizamos toda a informação técnica necessária, apresentamos detalhadamente o produto e esclarecemos qualquer questão que possa surgir junto das entidades bancárias.
As entidades bancárias podem visitar a fábrica e acompanhar o processo construtivo sempre que considerem necessário
Além disso, promovemos total transparência durante a fase de produção. As entidades bancárias podem visitar a fábrica e acompanhar o processo construtivo sempre que considerem necessário, permitindo-lhes verificar de perto a qualidade da construção e a evolução dos trabalhos.
O nosso objetivo é que tanto os clientes como os bancos se sintam confortáveis e confiantes em todas as etapas do projeto, tornando o processo de financiamento cada vez mais simples e natural.
Como avaliam as medidas do pacote fiscal do Governo e a revisão do RJUE que tocam no vosso negócio?
Vemos estas alterações de forma positiva, sobretudo tudo o que contribua para reduzir burocracia e tornar os processos de licenciamento mais rápidos e previsíveis. Para quem pretende construir, o tempo e a clareza dos processos são fatores fundamentais.
A revisão do RJUE é um passo importante nesse sentido e pode ajudar a criar um enquadramento mais adaptado às novas formas de construir, como a construção modular.
Acreditamos que o setor ainda tem margem para evoluir, mas qualquer medida que simplifique processos e dê mais confiança a famílias e investidores acaba por ter um impacto positivo no nosso negócio e no mercado da habitação em geral.
Olhando para o futuro, qual é a vossa visão para a Wander Housing e que impacto gostariam de ter no mercado da habitação em Portugal?
A nossa visão para a Wander Housing é muito simples: continuar a desafiar a forma como as pessoas pensam e vivem a habitação. Não vemos limites para aquilo que podemos construir e criar no futuro.
Neste momento estamos focados em consolidar a marca e desenvolver projetos cada vez mais diferenciadores, mas acreditamos que a construção modular tem potencial para ir muito além da habitação unifamiliar. Um dos próximos passos poderá passar pela construção em altura, aplicando os mesmos princípios de sustentabilidade, eficiência e design que hoje definem os nossos projetos.
A construção modular tem potencial para ir muito além da habitação unifamiliar
Mais do que crescer em dimensão, queremos ter impacto. Gostaríamos de contribuir para um mercado da habitação mais inovador, mais sustentável e mais centrado na qualidade de vida das pessoas, mostrando que é possível construir melhor, de forma mais eficiente e sem comprometer a arquitetura ou o design.
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