Casa dos anos 70: os erros de remodelação que lhe apagam o carácter

Uma rede social australiana listou os erros mais comuns nas remodelações destas casas. Quase todos e aplicam às moradias modernistas portuguesas.
casa anos 70
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Se andas à procura de casa em Lisboa, no Porto ou na linha de Cascais, é provável que já tenhas reparado nelas sem lhes saber o nome: moradias de linhas horizontais, coberturas de pouca inclinação ou de terraço, grandes panos de vidro, madeira à vista e volumes de tijolo ou pedra que se ergueram entre o final dos anos 40 e a década de 70. 

São filhas daquilo a que a historiografia chamou os "verdes anos" da arquitetura portuguesa, o período em que uma geração de arquitetos como Keil do Amaral, Fernando Távora, Viana de Lima ou Nuno Teotónio Pereira trouxe o movimento moderno para dentro da habitação corrente. Muitas concentram-se em bairros planeados, como Alvalade e Restelo, mas há-as por todo o país, muitas vezes sem qualquer proteção patrimonial.

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"Depois da euforia da arquitetura moderna internacional dos anos 50 e 60, surgiram novas propostas mais individualizadas , que se afirmaram, principalmente, durante as décadas de 70 e 80", explica o atelier MJARC Arquitetos. E deixam o alerta: "Por vários motivos, a Arquitetura Portuguesa do século XX encontra-se muito desprotegida sendo grave quanto grande parte deste património é hoje mais sujeito às pressões da especulação imobiliária e corre o sério risco de desaparecimento ou brutal descaracterização."

Foi sobre esta lógica que uma conta de Instagram dedicada às casas de meados do século, a midcentury_house_adl, sediada em Adelaide, na Austrália, publicou uma lista de dez erros.  A geografia é diferente e as espécies das árvores ao fundo também, mas os erros são os mesmo.

A tinta branca não resolve tudo

erros casas antigas
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O primeiro reflexo de quem compra uma casa antiga é pintar tudo de branco. Paredes, madeiras, pedra, tudo. A ideia é "clarear" e "atualizar" de uma assentada. O resultado costuma ser o oposto: uma casa que perde textura e profundidade e fica indistinta de qualquer outra.

Nas casas modernistas, a madeira dos tetos, dos lambris e das portas foi escolhida pela cor, pelo veio e pela forma como envelhece. Essa pátina é uma qualidade, não um defeito a corrigir. Pintar por cima de uma madeira nobre é, quase sempre, uma decisão irreversível. Voltar atrás implica decapar, e o acabamento nunca fica igual.

A mesma regra aplica-se à pedra e ao tijolo à vista, presenças frequentes nas moradias deste período, sobretudo em muros, chaminés e paredes de entrada. Uma parede de xisto ou de granito à vista faz um trabalho decorativo que nenhuma tinta consegue imitar. 

Reparar antes de arrancar

tijolo à vista
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Três dos erros da lista são, no fundo, o mesmo: deitar fora o original em vez de o recuperar. Comecemos pelas janelas. A caixilharia de madeira (ou de ferro, também comum na época) tem má fama de fria e pouco estanque, e a tentação é substituí-la por alumínio ou PVC. Mas o problema, na maioria dos casos, não é a janela em si, é o estado de conservação e a falta de vidro duplo. Muitas vezes o caixilho só precisa de ser reparado e pintado. 

Quando o objetivo é o conforto térmico, há alternativas menos agressivas do que arrancar tudo: colocar vidro duplo no caixilho existente sempre que a secção o permita, ou instalar uma segunda janela pelo interior, a chamada contra-janela, que isola quase tão bem e custa bastante menos do que uma caixilharia nova. 

As casas de banho seguem o mesmo raciocínio. Uma casa de banho original, com azulejo de cor, bancada em pedra ou loiças da época, parece "datada" a muita gente. Mas datada era o que se pretendia: é um documento do seu tempo e, cada vez mais, um argumento de valor. Há um motivo legítimo para uma remodelação a fundo, que é a impermeabilização em fim de vida, com risco de infiltrações. Isso justifica obra. O simples facto de o aspeto ser antigo, não. 

A marcenaria é talvez o caso mais claro. Armários de cozinha, roupeiros embutidos, estantes e divisórias feitas à medida por um carpinteiro, com madeiras que hoje são caras e difíceis de encontrar. O que se coloca no lugar é, quase sempre, pior: material aglomerado, folheados finos, ferragens que duram pouco. Se a marcenaria original está boa, restaura-se. 

O ar condicionado e a iluminação que denunciam a pressa

Iluminação em casa
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Há intervenções que estragam uma casa em minutos e por pouco dinheiro. O ar condicionado mal instalado é o exemplo perfeito. Tubagem à vista a subir por uma fachada de tijolo, a unidade exterior colocada no sítio mais visível do jardim, condutas que cortam a leitura da arquitetura. 

A iluminação é outro pormenor que trai o resto. Depois de investir numa casa com estes valores, comprar candeeiros baratos de grande superfície é desperdiçar o esforço. A luz tem de estar à altura da qualidade do espaço. 

Isto não significa gastar uma fortuna: o mercado em segunda mão está cheio de peças de época a bom preço, e uma boa loja de iluminação resolve o que faltar. Um único candeeiro bem escolhido faz mais por uma sala do que dez pontos de luz sem intenção.

Renovar sem projeto é o atalho mais caro

recuperar casa anos 70
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Um dos avisos mais duros da lista é contra as chamadas "renovações desenhadas pelo empreiteiro". A ideia de saltar o arquiteto para poupar honorários é tentadora, sobretudo quando o orçamento aperta. Mas uma casa com este desenho não é uma construção em série, e tratá-la como tal costuma sair caro.

O conselho é claro: envolver, desde o início, um arquiteto que perceba a linguagem da época, antes de se tomar uma única decisão. Não por capricho, mas porque estas casas foram pensadas como um todo, com uma relação precisa entre os cheios e os vazios, a luz e os materiais.

Mexer numa parede, abrir um vão ou mudar um pavimento sem essa leitura de conjunto pode desequilibrar tudo. E há um dado prático que reforça o argumento: em Portugal, obras com alteração significativa exigem projeto e licenciamento, pelo que ter técnico competente do lado do dono da obra protege-o também juridicamente. 

O tempo do desenho, como sublinham muitos arquitetos, obriga a tanta reflexão quanto o tempo da construção. É nesse tempo que se evitam os erros que só se pagam depois.

O erro que engloba todos os outros: a pressa

Obras em casa
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Se houvesse um único conselho a reter, seria este: não decidas depressa. Quem acaba de comprar quer ver a casa transformada em seis meses, e é nessa ansiedade que se cometem os disparates mais difíceis de reverter. Pinta-se, arranca-se, substitui-se, tudo antes de perceber como se vive realmente naquele espaço.

A verdade é que vais conviver com estas decisões muito mais do que meio ano. Habitar a casa antes de a alterar ensina onde entra o sol de manhã, que divisão é fria no inverno, que armário afinal era útil. Muita coisa que parece obrigatória no primeiro mês deixa de fazer sentido no sexto. E o que se destruiu à pressa, esse, não volta.

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