A falta de mão de obra e o aumento do custo dos materiais são alguns dos fatores que estão na origem da escassez de habitação um pouco por toda a Europa, de que é exemplo Espanha. A construção industrializada - baseada na produção em série, em fábrica, dos componentes de um edifício (paredes, coberturas ou módulos completos) - pode ser uma resposta para este problema. No entanto, até agora, o país não dispunha de uma regulamentação específica para este modelo. Com o objetivo de impulsionar este setor estratégico, a Associação Espanhola de Normalização (UNE) aprovou a primeira norma oficial que estabelece um quadro técnico comum para a implementação deste sistema.
O foco esteve na criação de uma definição oficial para cada um dos elementos que integram a construção industrializada, permitindo comparar diferentes projetos apresentados como "industrializados". Até agora, cada empresa, promotor ou concurso público utilizava critérios próprios, o que dificultava a cooperação entre os vários intervenientes do setor.
A elaboração desta norma contou com a colaboração de mais de 80 entidades do setor e representa "um antes e um depois", segundo o Colégio Oficial de Arquitetos Técnicos de Madrid, para uma forma de construir que, até aqui, não dispunha de uma linguagem comum, de uma classificação uniforme nem, sobretudo, de um método objetivo para medir o grau de industrialização de um projeto.
Um dos responsáveis pela elaboração desta norma inédita em Espanha foi Juan Carlos Cabrero, diretor do Curso de Técnico Especialista em Construção Industrializada do Colégio. A sua participação, sublinha a instituição, "reflete o papel central do arquiteto técnico no novo modelo de construção".
"Para aumentarmos a nossa capacidade de construir habitação é essencial definir o que significa, afinal, construção industrializada. Não posso lançar concursos públicos para edifícios em que promovo a industrialização da construção se o conceito não estiver claramente definido. Também não posso apoiar o financiamento de operações para edifícios construídos com componentes industrializados sem existir uma definição clara do que é a construção industrializada", afirma Cabrero, em declarações ao idealista/news.
Na opinião do especialista, a ausência de consenso em torno da definição de construção industrializada era precisamente o principal entrave ao crescimento do setor, dificultando os concursos públicos, gerando desconfiança entre promotores, aumentando os custos dos processos de certificação e tornando praticamente impossível comparar propostas de forma objetiva.
Linguagem comum, classificação e um índice para medir
A norma assenta em três grandes pilares:
- O primeiro consiste na criação de um vocabulário técnico unificado, que clarifica, entre outros aspetos, a diferença entre os processos realizados fora da obra — como o projeto e a produção em fábrica — e aqueles que decorrem no estaleiro, como a montagem. Embora possa parecer um aspeto básico, até agora cada interveniente interpretava estes conceitos de forma distinta.
- O segundo pilar estabelece uma classificação oficial dos elementos industrializados, quer em função da sua geometria — elementos lineares, como vigas e pilares; bidimensionais, como painéis e fachadas; ou tridimensionais, como módulos habitáveis completos — quer de acordo com a função que desempenham no edifício: estrutura, envolvente, divisórias interiores, instalações integradas ou acabamentos. Esta dupla classificação permite comparar, de forma homogénea, componentes de diferentes fabricantes e sistemas construtivos.
- O terceiro, e talvez o mais relevante, é o Índice de Industrialização (IdI). Trata-se de uma metodologia matemática que permite calcular, de forma objetiva e reproduzível, o grau de industrialização de um projeto de construção, seja ele de obra nova, reabilitação, ampliação ou remodelação. Até agora, este conceito era essencialmente subjetivo e dependia da interpretação de cada interveniente. Com o IdI, passa a existir uma métrica comparável e auditável, independentemente do tipo de edifício, do sistema construtivo ou da tecnologia utilizada.
O que muda na prática?
A norma é de aplicação voluntária, o que significa que nenhum agente é obrigado a adotá-la. Ainda assim, o seu impacto prático deverá ser "muito significativo", segundo o Colégio Oficial.
Desde logo, passa a constituir a referência para qualquer concurso público que exija ou valorize a construção industrializada, bem como para demonstrar que um projeto cumpre os requisitos das ajudas previstas no PERTE para a Industrialização da Habitação. Até agora, essa avaliação dependia da interpretação de quem analisava cada candidatura. A partir de agora, existe um índice objetivo.
A norma facilita igualmente a comunicação entre todos os intervenientes numa obra — promotores, arquitetos, engenheiros, fabricantes e construtores —, que passam a utilizar a mesma terminologia. Além disso, pode ser aplicada a edifícios de qualquer utilização, seja residencial, terciária, industrial ou de equipamentos, alargando significativamente o seu âmbito de aplicação.
Promover a colaboração
Juan Carlos Cabrero descreve a realidade atual do setor como um conjunto de sinergias entre diferentes empresas que, ao contrário da habitação pré-fabricada das décadas passadas, permite alcançar um resultado de maior qualidade.
"No final, aquilo que o cliente pretende é que o edifício funcione, que tenha uma estrutura sólida, que seja esteticamente apelativo e estável", afirma. Além de contribuir para aumentar a oferta de habitação e reduzir custos, a construção industrializada pode também responder às atuais exigências em matéria de eficiência energética.
"Permite obter um maior rendimento da mão de obra. Cada vez são exigidas prestações mais elevadas aos edifícios, ao nível do isolamento térmico, do conforto acústico e de outras características. Não posso depender do facto de a minha casa cumprir ou não esses requisitos consoante a inspiração do pedreiro nesse dia. E, enquanto promotor, tenho de garantir que o edifício cumpre efetivamente essas prestações. Não posso correr o risco de um cliente que comprou uma casa, assumindo um crédito à habitação durante 30 anos, descobrir depois que a sua habitação não corresponde aos níveis de desempenho prometidos", conclui Cabrero.
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