Erguer a estrutura de um edifício em 24 horas já é possível e tudo graças à industrialização. Esta nova forma de construir está a transformar o imobiliário e a construção um pouco por toda a Europa e Portugal não segue indiferente à tendência. Numa altura em que a falta de oferta se tornou num dos principais problemas e raízes da crise da habitação, e em que os modelos tradicionais deixaram de ser suficientes para dar resposta às necessidades do mercado, a construção industrializada pode mudar tudo: a habitação e outros segmentos. Esta é a convicção de Flávio Cardoso, diretor geral da Zethaus, braço 100% industrializado do dstgroup. Para o responsável este é mesmo “um caminho sem retorno”.
Num contexto marcado pela falta de oferta habitacional, pela pressão sobre os custos da construção e pela necessidade de acelerar prazos, o Governo lançou recentemente o novo pacote fiscal para a habitação. Paralelamente, revelou estar a trabalhar com o Parlamento numa nova lei que permita impulsionar a construção modular e industrializada, nomeadamente para dar escala a um setor que considera essencial para reduzir custos e acelerar a execução de projetos habitacionais.
Engenheiros e arquitetos apontam precisamente a falta de escala e previsibilidade de preços como os principais desafios à massificação deste modelo. No entanto, para Flávio Cardoso, a questão central prende-se mais com o contrário, isto é, com a previsibilidade da procura. Segundo o responsável, para que a indústria possa investir neste tipo de soluções e desenvolver capacidade produtiva, é fundamental uma visão de longo prazo com uma “carteira de projetos consistente”.
Ainda assim, os promotores imobiliários parecem cada vez mais atentos às vantagens destas soluções, sobretudo em segmentos como habitação coletiva, residências de estudantes, hotéis ou residências sénior. Mas estará Portugal preparado para dar o salto na industrialização da construção? O responsável da Zethaus acredita que o país “está na crista da onda” e que este modelo começa a afirmar-se como resposta para o futuro do setor imobiliário.
Comparativamente com outros países europeus, em que ponto está Portugal ao nível da construção industrializada?
Diria que Portugal está neste momento “na crista da onda”. Existe um movimento internacional muito forte para apostar em soluções industrializadas e o Grupo DST começou a trabalhar esta área há praticamente uma década. Isso permitiu-nos entrar cedo nesta transformação que está a acontecer um pouco por toda a Europa.
Acreditamos que este é um caminho sem retorno, porque os modelos tradicionais deixaram de conseguir responder às necessidades atuais, não apenas na habitação, mas também noutros segmentos.
Acreditamos que este é um caminho sem retorno, porque os modelos tradicionais deixaram de conseguir responder às necessidades atuais
Num debate recente, arquitetos e engenheiros referiam que os promotores procuram cada vez mais incorporar a construção industrializada nos projetos desde o início. Ainda assim, apontavam a falta de escala e de previsibilidade de preços como um dos principais desafios. Concorda?
Diria precisamente o contrário: os modelos industrializados permitem uma maior previsibilidade de custos. Mas para isso é fundamental que empresas como a nossa entrem logo numa fase inicial do processo.
É importante que os edifícios sejam pensados desde raiz para este tipo de solução. Quanto mais cedo entrarmos no desenvolvimento do projeto, maior é o impacto positivo ao nível do preço, da eficiência e da rapidez de execução.
Muito se fala da construção industrializada como uma possível resposta para aumentar a oferta de habitação e até ajudar na habitação acessível. O que falta para ganhar escala?
O principal desafio é garantir previsibilidade da procura. Para a indústria investir em soluções mais automatizadas e robotizadas, é necessário ter uma visão de longo prazo e uma carteira de projetos consistente. Se estivermos a trabalhar apenas com projetos isolados, sem continuidade, torna-se mais difícil alcançar o verdadeiro efeito de escala e reduzir custos de forma significativa.
O Governo anunciou recentemente medidas para impulsionar a construção modular e industrializada. Do ponto de vista de quem está no terreno, o que pode o Estado fazer para acelerar este setor?
Existem exemplos interessantes noutros países, como o Reino Unido. Aí foram lançados programas direcionados para áreas com maiores carências, como hospitais ou habitação, incentivando empresas industriais a desenvolver soluções replicáveis e escaláveis. Esse tipo de estratégia cria estabilidade e previsibilidade para a indústria investir e desenvolver capacidade produtiva.
Em que tipo de projetos estão atualmente envolvidos?
Estamos neste momento a concluir uma residência de estudantes executada em cerca de seis meses, desde a adjudicação até à conclusão, incluindo projeto e construção. Só isto demonstra a diferença face aos métodos tradicionais. Um prazo destes seria praticamente impossível numa construção convencional.
Além disso, temos vindo a trabalhar não apenas em edifícios totalmente industrializados, mas também em subsistemas, como fachadas, cozinhas e casas de banho modulares. Já produzimos mais de 16 mil unidades destes sistemas.
Seria possível aplicar este modelo à habitação?
Sem dúvida. Estamos a trabalhar numa lógica de produto, em que os edifícios continuam a ser personalizados, mas resultam da conjugação de soluções previamente estudadas e preparadas para produção. Isso permite acelerar significativamente tanto o projeto como a execução.
No caso da residência de estudantes, por exemplo, os módulos chegaram praticamente concluídos da fábrica e a montagem do edifício demorou menos de 24 horas úteis.
Os promotores imobiliários já estão sensibilizados para este tipo de construção?
Sim, sentimos atualmente uma procura muito significativa. Os promotores percebem que a construção industrializada pode representar um ponto de viragem no setor e uma resposta mais eficaz às necessidades do mercado. As maiores solicitações têm surgido sobretudo na habitação coletiva, hotéis, residências de estudantes e residências sénior.
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