A construção industrializada pode ser parte da solução para a habitação acessível, mas ainda está longe de o ser na prática, segundo especialistas ouvidos no Salão Imobiliário de Portugal (SIL 2026). Arquitetos e engenheiros admitem falta de escala na construção de casas em fábrica, algo que acaba por condicionar a previsibilidade de preços. Reconhecem que o país já está dotado de conhecimento e técnica, mas que ainda tem um longo caminho a percorrer neste setor.
“Estamos numa verdadeira mudança de paradigma ou a dar os primeiros passos? Como passar da exceção à regra?”, este foi o mote da conferência, realizada na FIL, em Lisboa, no dia 24 de abril, no âmbito da maior feira imobiliária do país, que contou com a presença de vários profissionais e especialistas para debater as vantagens e desafios deste segmento e fazer um ponto de situação sobre como é que o país se posiciona atualmente.
António Carias de Sousa, membro do conselho diretivo da Ordem dos Engenheiros, considera que “estamos a dar os primeiros passos da industrialização”. “Do ponto de vista do conhecimento e da técnica já temos capacidade, mas a aplicação prática é ainda muito limitada. Falta um caminho longo a percorrer”, defende, explicando que a construção industrializada ainda está muito focada em situações pontuais, sobretudo, na hotelaria e residências de estudantes, e pouco na habitação.
Uma das principais fragilidades apontadas prende-se com a falta de escala que, por consequência, não garante previsibilidade nem de custos, nem de prazos, de acordo com Miguel Saraiva, vice-presidente da Associação Portuguesa de Projetistas e Consultores (APPC). “O que tenho notado é uma falta de previsibilidade no preço e no prazo. E isso acontece porque ainda não existem casos suficientes para criar referências sólidas”, disse.
Para o arquiteto, o problema começa logo na forma como os projetos são concebidos. Ao contrário da construção tradicional, onde as especialidades entram de forma faseada, a construção industrializada exige uma abordagem integrada desde o início. “Engenheiros, projetistas e até o construtor industrial têm de entrar no ponto zero. Isso implica novos modelos de colaboração e vínculos mais fortes entre as partes”, indica.
Outro obstáculo identificado é a ausência de um enquadramento legal que incentive o recurso a estas soluções, nomeadamente na obra pública. “É necessário um quadro legal que torne a introdução destes sistemas mandatória. Sem isso, a indústria desenvolve-se por curiosidade, mas sem direção”, defende Miguel Saraiva. Uma opinião partilhada por António Carias de Sousa. “O Estado apadrinhar a construção modular, pré-fabricada, industrializada é meio caminho andado. O setor precisa de ajuda para vencer alguma inércia”, argumenta.
Diogo Sousa Rocha, secretário da mesa da assembleia geral da Ordem dos Arquitectos, apontou outro entrave estrutural, a fragmentação da procura. “A encomenda é fragmentada e isso dificulta a uniformização das soluções”, afirmou. Acredita que a construção industrializada pode ajudar a baixar o custo da habitação, mas a longo prazo. “É preciso volume de encomendas. No ponto em que estamos agora, não”, admite.
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