Berlim debate-se entre preservar um dos últimos vestígios materiais do poder nazi ou abrir espaço a um novo projeto imobiliário. Um promotor quer construir escritórios e apartamentos sobre o Grande Bunker da Nova Chancelaria do Reich, estrutura subterrânea situada na Vossstrasse, perto do Memorial do Holocausto e do Portão de Brandemburgo. A decisão reacende uma discussão recorrente na Alemanha: o que fazer aos lugares ligados ao regime de Adolf Hitler sem os transformar em objetos de glorificação.
O projeto aprovado prevê um edifício de escritórios com seis pisos e um bloco residencial de sete andares, com 66 apartamentos. Para avançar, seria necessária a demolição do bunker, construído no final dos anos 1930 como parte da monumental Nova Chancelaria projetada por Albert Speer, de acordo com a Executive Digest, que cita o El País. A estrutura encontra-se cerca de seis metros abaixo da superfície e conserva aproximadamente 1.200 metros quadrados, com paredes e tetos de 1,70 metros de espessura.
A associação Berliner Unterwelten, dedicada ao estudo e preservação de estruturas subterrâneas, defende a classificação do local como monumento histórico. Reiner Janick, responsável pela investigação da entidade, lembra que a Nova Chancelaria foi um dos centros onde “a II Guerra Mundial foi planeada e iniciada” e representa também “o fim catastrófico do regime nazi”. O Conselho Regional do Património Cultural recomendou a sua proteção no ano passado, mas o Senado de Berlim recusou avançar, invocando a necessidade de criar habitação numa das áreas mais valorizadas da cidade e o risco de o espaço atrair grupos neonazis.
Os defensores da preservação contestam essa leitura e sustentam que manter o bunker serviria para documentar, e não celebrar, o passado. “Quando um lugar deixa de existir, surgem mitos e lendas”, argumenta Janick. A associação considera ainda que seria tecnicamente possível construir o novo empreendimento sem destruir a estrutura, dada a robustez do complexo. Restam apenas três bunkers governamentais do antigo Reich em Berlim e este é o único pré-guerra acessível no antigo distrito de poder nazi. A polémica ganha peso porque o Führerbunker, onde Hitler e Eva Braun morreram em abril de 1945, já desapareceu: no local existe hoje um parque de estacionamento assinalado apenas por um painel informativo.
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