“Ando sempre em leilões e quando encontro peças especiais compro logo”

Tristán Domecq lidera um dos estúdios de design de interiores mais bem-sucedidos de Espanha e é uma referência internacional no segmento premium.
Tristán Domecq
Tristán Domecq

Tristán Domecq lidera um dos estúdios de design de interiores mais bem-sucedidos de Espanha, o Tristán Domecq Interiorismo Studio, em Madrid, focado sobretudo no segmento das casas de luxo. Autodidata no que toca a interiores e paisagismo, construiu o seu percurso longe das fórmulas tradicionais e com uma ideia muito clara: as casas são para viver – e para serem vividas a sério. 

Em entrevista ao idealista/news, o "estilista de casas" fala sobre os primeiros passos na profissão, os projetos que mais prazer lhe dão e aquilo de que mais gosta na própria casa. E confessa ainda um hábito curioso: está sempre atento a leilões à procura de peças especiais para casa, mesmo sem saber exatamente onde as vai colocar. “Quando vejo algo único, compro. Depois logo encontro o lugar certo, seja em minha casa ou num projeto”, conta, entre sorrisos.

Publicidade

Em miúdo, Tristán Domecq não perdia uma oportunidade para espreitar obras municipais – muitas vezes, lá ia de bicicleta, curioso e atento a tudo. Em casa, entretinha-se a fazer pequenas construções e móveis de madeira na bancada de carpintaria. O bichinho nasceu com ele e manifestou-se desde cedo.

Já em adulto, acabou por tirar Gestão (ADE), mas o destino levou-o por outro caminho: fundou na capital espanhola um estúdio de design de interiores, que é hoje uma referência internacional no segmento residencial premium, mas também na hotelaria.

Mudou-se para a casa onde vive atualmente mesmo antes do confinamento e garante que a aproveita ao máximo – sobretudo o jardim e a horta. Afinal, em criança sonhava ser carpinteiro… mas também jardineiro. Talvez seja por isso que, no meio do luxo e dos grandes projetos, continua a valorizar tanto o lado mais manual e ligado à terra.

Não tens formação em design de interiores, mas lideras um dos melhores estúdios da área em Espanha e com prestígio internacional. Como é que entraste neste setor?

No fundo, foi o que sempre me puxou desde pequeno. Chegou um momento em que decidi mudar de rumo. Foi uma decisão arrojada e um bocadinho às cegas, mas acredito que muitas vezes as coisas resultam precisamente assim: sem pensar demasiado e assumindo o risco. E olha, dez anos depois continuo aqui.

Em que projetos estás a trabalhar neste momento?

Não posso falar de casos concretos. Mas posso dizer que o nosso estúdio é especializado em residências de luxo, sobretudo edifícios de habitação. E estamos também a apostar no setor hoteleiro. Temos vários projetos em curso, aliás.

Tristán Domecq
Tristán Domecq

Há algum projeto já concluído pelo qual tenhas um carinho especial?

Carinho tenho por todos. Talvez pelas casas que fiz para mim, sobretudo aquela onde estamos agora. Mas, em relação aos projetos de clientes, todos têm algo especial. Uns por uma razão, outros por outra. Lembro-me, por exemplo, da emoção que senti quando, há uns anos, trabalhámos nas Bodegas LAN, em La Rioja.

Durante muito tempo tive o sonho de fazer edifícios completos. E em Madrid já conseguimos concretizar vários projetos desse género. Muitas vezes renovávamos um apartamento que ficava incrível, mas depois o átrio ou as zonas comuns não acompanhavam a estética do espaço que tínhamos acabado de transformar. 

A minha ambição era precisamente essa: que o fio condutor começasse logo na entrada do prédio, sempre com respeito pela história e pela identidade original do edifício.

Tristán Domecq
Tristán Domecq

De que edifícios estamos a falar?

Fizemos um projeto na rua San Lorenzo de que gostei particularmente. Em Madrid, quase todos os prédios antigos têm pátios interiores de luz. Neste caso, éramos obrigados a atravessar o pátio para chegar a casa – e muita gente vê isso como um ponto negativo.

Durante muito tempo tive o sonho de fazer edifícios completos. E a minha ambição era que o fio condutor começasse logo na entrada do prédio, sempre com respeito pela história e pela identidade original do edifício. E em Madrid já conseguimos concretizar vários projetos desse género.

O que é que fizemos? Demos a volta à narrativa. Transformámos o pátio num espaço agradável de atravessar, quase uma experiência. Criámos um jardim com duas fontes e o resultado ficou espetacular.

De repente, os apartamentos interiores deixaram de ser os “menos desejados”. Pelo contrário: passaram até a valer mais, porque tinham aquele jardim como extensão da casa.

Tristán Domecq
Tristán Domecq

Fala-nos desta casa. Sei que durante algum tempo andaste sempre a mudar de morada… até chegares aqui.

Em miúdo queria ser carpinteiro, mas também jardineiro. Vivia no centro de Madrid e tinha aquele sonho de ter um jardinzinho, ou então uma casa na serra de Segóvia, para poder mexer na terra e ter o meu espaço verde.

Por acaso encontrei esta casa – e acabou por me resolver tudo. Deu-me o jardim de que sentia falta, mas sem ter de sair da cidade. E, acima de tudo, fez com que passasse a ficar em casa ao fim de semana, que é exatamente o que mais gosto de fazer. Mudei-me 15 dias antes do confinamento. Portanto, foi mesmo a decisão perfeita no timing certo.

Tristán Domecq
idealista/news

Houve necessidade de fazer obras?

Sim, sim. A casa estava completamente abandonada. Tinha pertencido a uma família numerosa e, como se costuma dizer, casa de muitos acaba por ser casa de ninguém. O que me conquistou foi a arquitetura. É uma casa típica do norte de Madrid, com um estilo herreriano muito marcado. Mas precisava de uma reabilitação total.

A minha ideia foi preservar a essência ao máximo, fazer com que parecesse que eu não tinha mexido em nada do ponto de vista arquitetónico. Na verdade, intervim em tudo. Mas a sensação que fica é precisamente a de que está quase como sempre esteve – e era isso que eu queria.

Estou constantemente a ver quadros, peças de arte, livros e objetos de decoração. É quase inevitável. Sempre que encontro algo que me chama mesmo a atenção, acabo por comprar.

O que foi feito ao nível arquitetónico?

As janelas eram mais pequenas e decidi abri-las até ao chão para ganhar mais luz e ligação ao exterior. Também pus novas janelas onde antes não existiam.

Tristán Domecq
idealista/news

Que materiais decidiste manter?

Mantive o granito. Havia uma lareira lindíssima no centro da sala, mas estava muito mal posicionada. Custou-me imenso, mas tive de a desmontar. Aproveitei as pedras da lareira para fazer os caminhos do jardim – nada se perdeu, tudo ganhou nova vida. O granito da base da fachada também foi preservado, tal como a ardósia do telhado, típica deste estilo mais a norte de Madrid.

Lá dentro quis uma casa muito acolhedora, mas simples nos materiais. No fundo, reduzi tudo ao essencial: pedra calcária, madeira e rebocos de cal nas paredes. Pouco mais. E, às vezes, é mesmo no menos que está o segredo.

Tristán Domecq
Tristán Domecq

São esses os materiais com que gosta de trabalhar?

Sim, normalmente trabalhamos sempre com materiais naturais e quase sempre com estes três elementos. Se não é pedra calcária, é mármore. pedra calcária, madeira e rebocos de cal nas paredes. Pouco mais. E, às vezes, é mesmo no menos que está o segredo.

Fala-nos do jardim…

É o primeiro jardim que desenhei eu próprio, também não sou paisagista. Mas comprei muitos livros porque tinha imensa vontade de criar o meu próprio jardim. Tenho nas minhas notas de tarefas fazer um inventário das espécies que lá tenho, deve haver mais de 200. O terreno tem cerca de 2.700 metros quadrados (m2), com horta, canteiros de plantas adaptadas ao clima de Madrid – que é complicado –, árvores de fruto e todo o tipo de árvores de folha caduca e perene, como castanheiros-da-índia, magnólias, pinheiros… Pinheiros enormes com cerca de 75 anos, mais ou menos a idade da urbanização.

E também tens uma horta, correto?

Sim, a horta montei-a logo desde o início. Estava exausto depois da obra, do stress e da mudança, mas tinha mesmo muita vontade de começar a plantar. Mudei-me numa quinta-feira e, no dia seguinte, fui logo ao viveiro comprar todas as plantas para a horta.

Ainda bem que o fiz, porque duas semanas depois entrou o confinamento e pude dedicar-me a plantar com calma. Mas a horta é algo vivo: há coisas que crescem, outras que desaparecem, e tens de estar sempre a replantar e a cuidar.

Tenho alhos franceses praticamente todo o ano e alcachofras também. Depois há beringelas, pimentos… tenho um pouco de tudo.

Tristán Domecq
idealista/news

E tudo isso acaba por ir parar à cozinha? Também gostas de cozinhar?

Sim, gosto bastante de cozinhar. Aliás, foi por isso que dei tanta importância à cozinha desta casa. Queria que fosse um espaço bem pensado, funcional e onde me apetecesse estar.

Normalmente trabalhamos sempre com materiais naturais e quase sempre com estes três elementos. Pedra calcária, madeira e rebocos de cal nas paredes, e se não é pedra calcária, é mármore. Pouco mais. Às vezes, é mesmo no menos que está o segredo.

Qual é o teu espaço da casa favorito?

O jardim, sem dúvida. É onde me sento todos os dias. Esteja a nevar, a chover ou com 40 graus, saio sempre para lá. Faz parte da minha rotina.

Tristán Domecq
idealista/news

E tens algum objeto fetiche?

Muitos, mesmo muitos. Trabalho nesta área, por isso estou constantemente a ver quadros, peças de arte, livros e objetos de decoração. É quase inevitável. Sempre que encontro algo que me chama mesmo a atenção, acabo por comprar.

Ando frequentemente à procura de peças em leilões e, na verdade, nem penso muito se preciso delas ou onde as vou colocar. Quando vejo algo especial, compro. Depois logo encontro o lugar certo – seja em minha casa ou num projeto em que esteja a trabalhar.

Para poder comentar deves entrar na tua conta

Acompanha toda a informação imobiliária e os relatórios de dados mais atuais nas nossas newsletters diária e semanal. Também podes acompanhar o mercado imobiliário de luxo com a nossa newsletter mensal de luxo.

Segue o idealista/news no canal de Whatsapp

Whatsapp idealista/news Portugal