A protagonista desta história inédita é a GameStop, uma cadeia de lojas de videojogos norte-americana, fundada em 1984, e à beira da falência – a enfrentar muitas dificuldades agravadas pela pandemia – que não só agitou, mas abanou Wall Street (e os multimilionários). A empresa registou uma ascensão meteórica na bolsa de Nova Iorque, depois de uma ação coordenada de pequenos investidores amadores da rede social popular Reddit, que “atiraram a matar” contra os “hedge funds”, causando prejuízos de milhões às elites financeiras.O enredo vai mesmo chegar à Netflix.
Para explicar a origem deste caso polémico é preciso perceber que, por força das cirscunstâncias, o modelo de negócio da GameStop deixou de ser promissor e está a atravessar uma situação financeira difícil. Não só por causa da pandemia e do confinamento, que ditou o fim de muitas lojas físicas, mas também porque as compras online, os downloads e os jogos online têm conquistado o mercado. E foi por isso – por estar a enfrentar problemas – que as suas ações passaram a ser alvo de “traders”, “hedge funds” e investidores que começaram a fazer “short selling”, uma prática que consiste em pedir emprestadas ações de uma empresa e depois vendê-las com a expectativa de que os seus preços caiam para que, posteriormente, possam voltar a comprá-las e devolvê-las a quem inicialmente as emprestou, ficando com a diferença.
E foi exatamente isto que dois fundos de investimento norte-americanos – a Cintron Capital e a Melvin Capital - começaram a fazer: apostaram na queda do valor das ações da GameStop, mas deram “de caras” com uma reviravolta inédita e caricata.
Inesperadamente, a empresa de videojogos norte-americana começou a registar uma subida em flecha no valor da ações - valiam 3,25 dólares em abril do ano passado e, na quarta-feira feira passada, dia 27 de janeiro de 2021, chegaram aos 483 dólares. Isto depois de um pequeno grupo de investidores na rede social Reddit, através do fórum WallStreetBets, ter começado a investir na GameStop de forma concertada, para impedir que o valor caísse - contrariando assim a estratégia dos grandes fundos de investimento - , causando enormes perdas (e dores de cabeça) aos gigantes do mercado, numa espécie de revolta contra a máquina financeira. Neste caso, a Cintron Capital e a Melvin Capital foram mesmo obrigadas a fechar posições para limitar as perdas.
O mercado espera que as ações da GameStop voltem a cair no futuro, uma vez que o negócio e as bases do negócio não deverão ser capazes de sustentar este crescimento “artificial”.
Um revolta contra o sistema?
Este é, tal como é relatado na imprensa nacional e internacional, um caso clássico de manipulação de mercado. No entanto, a forma como ocorreu, tendo sido organizado em fóruns na internet, é inédita, sendo apontada como uma espécie de revolta contra o sistema, não se sabendo ao certo quais são as reais motivações destas pessoas.
A manobra causou um grande alvoroço e o medo de muitos investidores é que esta prática se espalhe para lá de Wall Street. Já há grandes “figuras” de mercado a pedir às autoridades que parem estes pequenos investidores coordenados a partir de um fórum na Internet. O regulador norte-americano, Securities and Exchange Commission (SEC), já garantiu que está a monitorizar ativamente a atual volatilidade dos mercados e está a trabalhar com as autoridades reguladoras para avaliar a situação.
"Estamos cientes e a monitorizar ativamente a atual volatilidade do mercado nas praças e, de acordo com a nossa missão de proteger os investidores e manter mercados justos, ordenados e eficientes, estamos a trabalhar com nossos colegas reguladores para avaliar a situação e rever as atividades das entidades, intermediários financeiros e outros participantes do mercado", indicou a SEC, citada por vários meios nacionais e internacionais.
GameStop chega à Netflix
O enredo desta situação caricata já chegou ao meio cinéfilo, com a Netflix e os estúdios Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) a anunciarem produções sobre o caso GameStop, escreve a Lusa.
Para Biden, presidente dos EUA, a situação nos mercados é mais um problema para resolver na Casa Branca. Os reguladores financeiros, em especial o bolsista (SEc), vão ter de enfrentar questões sobre várias práticas de Wall Street, como as vendas a descoberto (“short-selling”) e se o modelo de negócios das plataformas de transação de negócios é tão amigo dos investidores como dizem que é.
Estas questões complexas acrescem aos esforços que se antecipam dos reguladores, como a SEC, o Gabinete de Proteção Financeira dos Consumidores e outros, para anular as regras do tempo de Donald Trump, mais favoráveis à indústria financeira do que aos consumidores ou pequenos investidores. Tanto a comissão senatorial da Banca, como a comissão dos Serviços Financeiros da Câmara dos Representantes querem promover audições sobre esta controvérsia.



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