O Banco Central Europeu (BCE) continua numa “boa posição”, motivo pelo qual decidiu manter as suas taxas de juro diretoras inalteradas pela quinta vez consecutiva na reunião desta quinta-feira, dia 5 de fevereiro. Afinal, a inflação na zona euro parece controlada e a economia europeia tem crescido, embora pouco. Mas o agravamento da incerteza geopolítica, espelhada pela maior valorização do euro face ao dólar, pode mudar o rumo da política monetária do BCE em breve. Novos cortes dos juros estão em cima da mesa dos analistas.
Tal como já era amplamente esperado pelos analistas de mercado, o BCE voltou a manter as suas taxas de juro diretoras inalteradas na reunião de política monetária que decorreu esta quinta-feira, dia 5 de fevereiro, a primeira de 2026. Assim vão ficar os juros, pelo menos, até à próxima reunião que se realiza a 19 de março:
- Taxa aplicada à facilidade permanente de depósitos fica em 2,00%;
- Taxa de juro das principais operações de refinanciamento continua em 2,15%;
- Taxa aplicável à facilidade permanente de cedência de liquidez situa-se em 2,40%.
Assim, os juros do BCE permanecem num intervalo neutro, numa “boa posição” para enfrentar choques futuros, tal como considerou Christine Lagarde, a presidente do regulador europeu. A decisão foi unânime e foi tomada porque as autoridades acreditam que a inflação na zona euro está a estabilizar em torno de 2%, a meta do BCE.
E a economia europeia "permanece resiliente numa conjuntura mundial difícil", embora tenha crescido apenas 0,3% no final de 2025. "O baixo desemprego, a solidez dos balanços do setor privado, a execução gradual da despesa pública em defesa e infraestruturas e o apoio proporcionado pelas anteriores reduções das taxas de juro sustentam o crescimento", lê-se no comunicado do BCE.
“O BCE mantém-se fiel à sua rota de estabilização dos juros, dado que a situação geral praticamente não se alterou desde a última reunião. A inflação permanece razoavelmente controlada, o crescimento da economia europeia continua, embora travado pela Alemanha e pela França, e a incerteza global está para ficar devido às flutuações das tarifas e às tensões geopolíticas existentes”, comenta Miguel Cabrita, responsável pelo idealista/créditohabitação em Portugal.
"Considerando os dados atuais do crescimento e da inflação e a redução das tensões entre os EUA e a Europa no que respeita às tarifas, não há urgência para o BCE abandonar a sua 'boa posição'”, salienta numa nota de análise Michael Krautzberger, diretor de Investimento Global de Mercados Públicos da Allianz GI.
Valorização do euro na mira do BCE – pode baixar inflação
Este é o atual contexto. Mas a verdade é que o BCE tem estado bem atento à valorização do euro face ao dólar e à sua influência em baixa na inflação na zona euro. A mais recente estimativa do Eurostat aponta que a taxa de inflação na zona euro terá caído para 1,7% em janeiro de 2026, abaixo da meta de 2% do BCE que foi atingida em dezembro do ano passado.
Na semana passada, a valorização da moeda única acelerou, com o euro a atingir máximos de quatro anos e meio, acima de 1,20 dólares. Isto significa por cá que a procura por compradores norte-americanos tende a diminuir, porque terão de pagar mais pelos bens em dólares. Além disso, a procura interna de bens europeus também pode cair e voltar-se para os EUA, onde os produtos são mais baratos.
O dólar está a desvalorizar-se devido às preocupações com a imprevisibilidade percebida de Donald Trump em relação à maior economia do mundo, a par da manutenção dos juros da Reserva Federal (Fed) dos EUA na reunião de janeiro entre 3,50% e 3,75%. Mas o Presidente dos EUA já descreveu a desvalorização do dólar como "fantástica", uma vez que as empresas norte-americanas - sobretudo as exportadoras - tornam-se mais competitivas no comércio internacional. Além disso, justifica a pressão que tem feito sobre a Fed para cortar os juros.
Toda esta dinâmica de valorização do euro face ao dólar traz riscos para a inflação na zona euro. “A força do euro face ao dólar norte-americano aumenta ligeiramente o risco de a inflação descer abaixo do objetivo de 2% durante o ano”, admite Felix Schmidt, economista sénior da Berenberg, citado pelo Jornal de Negócios.
"O intervalo atual em que o euro está a evoluir, face ao dólar, está em linha com a média geral da taxa de câmbio desde que o euro surgiu", Christine Lagarde, presidente do BCE
Mas há outros fatores que podem reduzir a inflação na zona euro, como as importações mais baratas da China e a queda dos preços da energia, por exemplo. Isto porque a depreciação do dólar acaba também por “reduzir significativamente o custo em euros dos bens importados cujo preço é inicialmente determinado em dólares, como o petróleo, o gás natural liquefeito, muitas matérias-primas, etc”, analisa Eric Dor, diretor de estudos económicos do IESEG, citado pelo mesmo jornal.
No que diz respeito à taxa de câmbio, Lagarde lembrou que o BCE "não tem uma meta" para este indicador, mas reconhece que "é importante para a previsão de crescimento e inflação", pelo que se mantêm "atentos nos desenvolvimentos e o conselho discutiu esta questão hoje".
"O que observámos é que o dólar se desvalorizou razoavelmente contra o euro, mas não nos últimos dias, desde março de 2025, é aí que se vê a mudança significativa", apontou, sendo que nas últimas semanas, mesmo desde o verão, "flutuou dentro de um intervalo" e como resultado dessa observação, concluíram que "o impacto da valorização da taxa desde o ano passado está incorporado no cenário base".
Assim, na análise dos governadores do BCE, "o intervalo atual em que o euro está a evoluir, face ao dólar, está em linha com a média geral da taxa de câmbio desde que o euro surgiu".
BCE pode ter de agir se euro continuar a valorizar
Se a tendência de valorização da moeda única face ao dólar se mantiver e mexer com as projeções para a inflação na zona euro, o BCE liderado por Christine Lagarde poderá ter de agir e voltar a cortar os juros diretores, algo que não faz desde junho de 2025.
Para já, o regulador europeu sublinha apenas que "seguirá uma abordagem dependente dos dados e reunião a reunião para decidir a orientação apropriada da política monetária", não de comprometendo previamente com uma trajetória de taxas específica. Mas reconhece que "as perspetivas ainda são incertas, devido, em particular, à atual incerteza em termos de política de comércio mundial e às tensões geopolíticas".
O presidente do Banco de França, François Villeroy de Galhau, sublinhou que o BCE está a "monitorizar de perto a valorização do euro e as suas potenciais consequências em termos de inflação". E admite mesmo que “este é um dos elementos que vai guiar a nossa política monetária e as nossas decisões sobre as taxas de juros nos próximos meses".
O governador do banco central austríaco, Martin Kocher, afirmou recentemente em entrevista ao Financial Times que se o euro continuar a valorizar-se e reduzir as projeções da inflação, o BCE poderá ter de agir com a sua política monetária.
Em causa estaria um corte dos juros. O economista sénior da Generali AM, Martin Wolburg, acredita que uma valorização persistente do euro poderia justificar taxas de juros abaixo do nível de 2%, atualmente considerado um "bom patamar".
O Bank of America disse há semanas que o BCE poderá avançar com um corte dos juros na próxima reunião de 19 de março, tendo por base os preços da energia e a força do euro se combinam para reduzir a inflação no médio prazo, enquanto a incerteza não favorece o crescimento na zona do euro.
Por seu turno, o analista da Allianz diz que os risco de a inflação na zona euro descer no médio prazo pode “não obrigar o BCE a reduzir as taxas de juro”. Mas há outros fatores a somar: “Dada a incerteza das políticas dos EUA no que diz respeito às eleições intercalares e ao seu impacto na Europa, um corte preventivo por parte do BCE é possível e justifica-se”, diz Michael Krautzberger, citado pelo ECO.
Já o diretor de estudos económicos do IESEG considera que seria “lógico” que o BCE corrigisse o efeito de valorização do euro face ao dólar através da redução das taxas de juro diretoras.
A observação de Lagarde "de que uma maior valorização do euro poderá empurrar a inflação para um nível inferior às expectativas atuais, justifica as expectativas do mercado de que é mais provável que o próximo movimento seja de corte nas taxas e não um aumento", analisa a Ebury Portugal, apesar de continuar a acreditar que "as taxas vão permanecer inalteradas ao longo de 2026".
As próximas reuniões do BCE
O Conselho do BCE reúne-se aproximadamente de seis em seis semanas. Este é o calendário das próximas reuniões de política monetária do guardião do euro, nas quais vai anunciar as suas decisões sobre as taxas de juro diretoras:
- 19 de março de 2026
- 30 de abril de 2026
- 11 de junho de 2026
- 23 de julho de 2026
- 10 de setembro de 2026
- 29 de outubro de 2026
- 17 de dezembro de 2026
*Com Lusa
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