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Saída de capital estrangeiro pode colocar imobiliário e economia “em risco”, avisa diretora do BdP

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Autor: Leonor Santos

O imobiliário português recuperou à boleia do crescimento global da economia e das baixas taxas de juro. Mas não só. Ana Cristina Leal, diretora da Direção de Estabilidade Financeira do Banco de Portugal (BdP), aponta ainda o turismo e o alto nível de investimento estrangeiro como agentes da força atual do mercado. E a saída deste capital, provocada por “fatores exógenos”, que “não controlamos”, pode colocar o imobiliário - e consequentemente o sistema financeiro e a economia - em risco, devido à sobreexposição.

O aviso é da diretora da Direção de Estabilidade Financeira do Banco de Portugal (BdP). Ana Cristina Leal aproveitou a participação no Workshop da Associação Portuguesa dos Promotores e Investidores Imobiliários (APPII) – decorreu esta terça-feira no Altis Grand Hotel, em Lisboa, tendo o idealista/news como media partner – para falar, perante uma plateia especializada, sobre a "Avaliação do Risco e Financiamento Bancário na Promoção Imobiliária".

Bancos limpam carteiras de imóveis graças aos Não Residentes

A responsável começou por frisar a importância do imobiliário para a economia no contexto atual – um setor “muito afetado” pela crise – destacando, ainda assim , a necessidade de se evitarem excessos. “Valorizamos a estabilidade, a sustentabilidade, e não situações de boom e depois de bust (quebra)”, afirmou no arranque da intervenção.

A diretora da Direção de Estabilidade Financeira do BdP relembrou os anos negros que atravessaram a construção, por exemplo, que esteve “bastante vulnerável” e, por isso, à mercê de “maiores situações de incumprimento” no que ao crédito diz respeito.  A conjuntura mudou, segundo a mesma, permitindo ao setor recuperar novo fôlego e dinamismo, muito alimentado pela promoção imobiliária - que representa 40% dentro da construção.

Ana Cristina Leal sublinhou ainda o facto do bom momento do imobiliário, aliado à crescente procura de não-residentes, ter permitido aos bancos libertarem-se das suas carteiras de imóveis e assim limpar os seus balanços. Algo que será “bom para o financiamento futuro” e muito “importante para os bancos e para a economia”, disse.

“Estes anos verificaram-se reduções bastante significativas no portfólio imobiliário dos bancos e e é importante que assim continue”, acrescentou, explicando que este cenário é importante para a concessão de crédito futuro.

Que riscos ameaçam o imobiliário?

A responsável do BdP falou de uma recuperação global da economia, mas também da possibilidade de “fatores exógenos” poderem comprometer a trajetória positiva da atividade imobiliária, que permitiu aos segmentos residencial e comercial recuperarem.

Ana Cristina Leal referiu que o imobiliário português vive atualmente de uma forte presença do investimento estrangeiro, pelo que uma “mudança radical de cenário”, provocado, por exemplo, por “medidas protecionistas”, a crise de Itália ou subida das taxas de juros, podem trazer riscos ao país. A saída de capital estrangeiro é, por isso, um fator que pode trazer instabilidade.

A situação de desequilíbrio verificada entre a oferta e procura de produto imobiliário é outro fator de risco. A diretora de Estabilidade do BdP reconheceu que “a oferta de imóveis não é instantânea e que leva tempo a ajustar-se a situações de procura”. E este desajuste pode alterar-se rapidamente, se por causa de “fatores exógenos”, por exemplo, este cenário se inverter, e se voltar a verificar um excesso de oferta, dados todos os projetos de investimento que agora estão em curso.

“Não estamos livres de ser impactados por estes fatores, sobretudo quando temos uma participação tão grande de não residentes", alertou, reconhecendo que estes investidores têm sido fundamentais para Portugal.

Restrição ao crédito, uma medida necessária

Ana Cristina Leal aproveitou o momento para se referir à “medida macro prudencial” adotada entretanto pelo regulador na área do crédito em vigor desde julho passado. Medidas que pretendem “precaver situações de excessos” e também evitar que o financiamento bancário “alimente a subida dos preços” dos imóveis, nas palavras da responsável, que destacou várias vezes a “estabilidade” como o fio condutor do BdP.

O objetivo do supervisor liderado por Carlos Costa com estas medidas anunciadas em fevereiro é simples: impedir que os bancos assumam riscos excessivos na concessão de novos créditos e fazer com que os clientes tenham capacidade para pagar as suas dívidas, de forma a proteger as famílias e também os bancos.