Notícias sobre o mercado imobiliário e economia

"Há muitos imóveis a serem construídos. Isso fará com que os preços dos usados baixem"

CEO da Habita Mais, José Carlos Rodrigues dos Santos, em entrevista ao idealista/news revela que 2020 foi o melhor ano de sempre da empresa e perspetiva futuro risonho.

Autores: Leonor Santos, Luis Manzano

A pandemia contaminou vários setores de atividade, mas a construção mostrou-se resiliente, ao contrário da última crise, destacando-se ao longo de 2020 por um desempenho positivo, dando provas de resistência aos efeitos da Covid-19, segundo o Banco de Portugal (BdP). A Habita Mais, dedicada ao mercado da construção e reabilitação no país, é um exemplo disto mesmo. O CEO da empresa, José Carlos Rodrigues dos Santos, revela em entrevista ao idealista/news que, apesar de “atípico”, o ano que acaba de fechar será o melhor desde o início da sua atividade, contando já com “muitas obras adjudicadas e trabalho provavelmente até finais de 2022”.

Dedicada à construção, mas também à mediação, consultoria e energia, a Habita Mais manteve o ritmo ao longo de 2020, e revela ter aproveitado o tempo de confinamento para melhorar os processos internos, tornando-os “mais eficientes e mais eficazes, desde a fase de orçamentação até à entrega de obra”. O responsável garante que as perspetivas para 2021 são boas e mantém um espírito otimista para os próximos tempos.  

“Houve projetos que foram adiados, mas que têm que ser feitos, e portanto se não foram feitos agora, têm que ser feitos no futuro. O que houve foi apenas um adiamento, mas vão ter que ser feitos e é isso que vai acontecer. A juntar à concentração de obras públicas que vão existir e particulares, acredito que o futuro seja bom”, diz José Carlos Rodrigues dos Santos.

Que balanço faz deste período? Como é que a Habita Mais pretende posicionar-se no setor? Porquê diversificar o negócio e dedicar-se também à mediação? O responsável responde a estas e outras questões numa entrevista, realizada na reta final de 2020, que agora reproduzimos na íntegra e em que a questão da evolução dos preços das casas não poderia deixar de ser abordada: 

"Há imensos prédios a serem construídos em Lisboa e esses imóveis vão ficar disponíveis. Portanto quem estiver à procura de imóvel, quem quiser comprar um imóvel vai ter a opção de ter novo, que era algo que não acontecia há uns tempos. Não havia simplesmente edifícios novos em Lisboa, as pessoas se queriam comprar tinha de ser usado. E agora não, o paradigma vai mudar porque há muitos imóveis a serem construídos e vão ficar disponíveis brevemente. Isso vai fazer com que os preços dos usados baixem, claramente", analisa.

A Habita Mais está no mercado da construção e reabilitação em Portugal há cerca de quase 8 anos. Que balanço faz deste período?

O balanço é, claramente, positivo. E, por incrível que pareça, este ano atípico de 2020 será o nosso melhor ano desde o início. Isso demonstra que temos feito um bom trabalho ao longo destes últimos oito anos. Claramente a construção está no ADN da Habita Mais, apesar de ter outras áreas de negócio, mas grande parte, cerca de 80% da faturação, diz respeito à área da construção, que é uma área forte e importante na nossa organização.

A que tipo de projetos se dedicam? Consegue destacar algumas obras/projetos? Pela sua relevância, dimensão, por exemplo...

Estamos muito vocacionados para o comércio, serviços e escritórios, e além dessas três áreas, estamos a fazer muitas obras ligadas ao âmbito social. A maioria dos projetos estão localizados na zona da Grande Lisboa.

Este foi um ano marcado por mudanças a vários níveis. Como é que a Habita Mais pretende diferenciar-se e posicionar-se no setor?

Em primeiro lugar, acho que a competência é muito importante numa fase como a que estamos a passar, e não só a competência, mas a experiência. Apesar da empresa ter estes 8/9 anos, os colaboradores e a equipa técnica já têm muito mais tempo nesta atividade, principalmente ligada à área da construção. Temos que aproveitar quer os conhecimentos técnicos que temos, quer a carteira de clientes que já é alguma, nestes últimos anos. Há que fazer um bom trabalho, e obviamente que os preços cada vez mais são competitivos e é nisso que também apostamos, ter um bom serviço, a um bom preço.

Acredito que não somos a empresa mais barata do mercado, mas tendo em conta a qualidade do que fazemos, o trabalho que desempenhamos, e a equipa técnica e de apoio que acompanha desde o início do projeto até ao fim e o pós-obra. É isso que garante e assegura qualidade e segurança ao cliente final, seja particular ou empresa.

Durante a pandemia houve necessidade de readaptar alguns projetos que estavam em curso em termos de arquitetura e distribuição dos espaços? Sentiram algumas mudanças quer nos projetos ou até no tipo de procura que chegou?

Relativamente aos projetos em curso, o que parou mais foram os projetos particulares, por exemplo condomínios. Acabaram por fazer apenas as coisas mais urgentes que tinham para fazer. Relativamente aos investidores com quem trabalhamos muito, e o Estado também, e como eu disse há pouco no âmbito social, as casas na área social não podem parar, são projetos que já têm algum tempo, não podem parar, são idealizados e têm que seguir em frente dê por onde der. Portanto eu dividia as empresas e investimentos de Estado, obras que não podem parar, e as obras de particulares, nessas sim houve uma quebra no sentido de adiar. Não desistir, mas adiar a sua execução.

O que parou mais foram os projetos particulares, por exemplo condomínios, porque os condomínios são geridos grande parte deles por particulares e isso obrigou a adiar os projetos

Recentemente a Habita Mas anunciou que vai construir a primeira casa de acolhimento para doentes com leucemia. Como é que surgiu e qual a importância deste projeto?

Fomos escolhidos pelo melhor preço e por aquilo que conseguimos oferecer em termos de garantia e execução, e acima de tudo pelo que podemos oferecer a nível de mão de obra e materiais, para que fosse possível construir a casa Porto Seguro. Todos os projetos que tenham a ver com causas são do nosso interesse, porque como já referi, se conseguirmos melhorar o mundo em que vivemos, assim o faremos. Esse é nosso caminho e a nossa forma de estar, e aquilo que pretendemos para a nossa organização.

“Porto Seguro”, a primeira casa de acolhimento para doentes com leucemia: / Habita Mais
“Porto Seguro”, a primeira casa de acolhimento para doentes com leucemia: / Habita Mais

A verdade é que o setor da construção não parou, mesmo em tempos de pandemia. Como é que enfrentaram este período? Que impacto teve no negócio?

Nós aproveitámos precisamente este tempo para melhorar os processos internos, para que fôssemos mais eficientes e mais eficazes durante todo o processo, desde a fase de orçamentação até à entrega de obra. Foi isso que fizemos e agora estamos a ter os resultados. Felizmente já temos muitas obras adjudicadas e temos trabalho provavelmente até finais de 2022.

Aproveitámos precisamente este tempo para melhorar os processos internos, para que fôssemos mais eficientes e mais eficazes durante todo o processo, desde a fase de orçamentação até à entrega de obra

Relativamente às perspetivas, eu considero obviamente que são boas, e pegando um pouco naquilo que disse há pouco, houve projetos que foram adiados mas que têm que ser feitos, e portanto se não foram feitos agora, têm que ser feitos no futuro. O que houve foi apenas um adiamento, mas vão ter que ser feitos e é isso que vai acontecer. A juntar à concentração de obras públicas que vão existir e particulares, acredito que o futuro seja bom.

A Habita Mais diversificou o seu negócio, atuando também no segmento da mediação imobiliária. Quando é que a empresa decidiu dar este passo? Sempre esteve nos planos apostar nesta atividade?

Como referi, trabalhamos com investidores, que são nada mais nada menos que 'players' de mercado que estão diariamente a comprar e a vender. Quando começámos tínhamos muito contacto com investidores que realmente necessitavam, por um lado, de comprar mais imóveis para reabilitarmos, e por outro, quando terminássemos as reabilitações, vender esses imóveis. Foi mesmo uma necessidade que surgiu dos nossos clientes e abrimos essa área de mediação, como complemento ao que já tínhamos. Não só a área da mediação, mas também a área da consultoria e de energia.

A Habita Mais atua em quatro áreas de negócio, construção, imobiliário, consultoria e energia. Digamos que na energia, por exemplo, tem certificação energética – não é um serviço que se venda ao público, mas os nossos clientes precisam disso, porque para arrendar ou vender um imóvel precisam da certificação energética. Na consultoria a mesma coisa. Digamos que são áreas que funcionam muito de forma complementar.

Qual o posicionamento da Habita Mais no universo da mediação?

Grande parte dos imóveis que temos são dos nossos clientes e grande parte deles ligados à área da construção. Aceitamos e comercializamos aquilo que nos pedem. Temos casas de 300 mil/340 mil, como temos casas de três, quatro ou seis milhões. É muito amplo, porque uma vez que somos uma empresa que não está ligada a nenhuma rede, somos muito mais flexíveis. Não temos propriamente a exigência de uma comissão fixa como muitas redes funcionam, não temos exigência de zonas, ou exclusividade. Queremos apenas ajudar o nosso cliente a comercializar ou arrendar o seu imóvel, esse é o nosso principal objetivo.

Em plena pandemia e com um ajustamento de preços em curso, é um bom momento para vender? Porquê? Qual a melhor estratégia para garantir a venda de uma casa neste contexto?

Essa pergunta não é fácil, é aquela pergunta que todos gostariam de saber, isto é, saber quando é que é o bom momento para vender ou para comprar. Eu tenho uma opinião própria acerca do imobiliário e já há algum que ando a referir isso. Quem quiser vender acho que é um bom momento para vender. Porquê? Porque a médio e longo prazo estarão disponíveis muitos novos imóveis no mercado. Há imensos prédios a serem construídos em Lisboa e esses imóveis vão ficar disponíveis.

Portanto quem estiver à procura de imóvel, quem quiser comprar um imóvel vai ter a opção de ter novo, que era algo que não acontecia há uns tempos. Não havia simplesmente edifícios novos em Lisboa, as pessoas se queriam comprar tinha de ser usado. E agora não, o paradigma vai mudar porque há muitos imóveis a serem construídos e vão ficar disponíveis brevemente. Isso vai fazer com que os preços dos usados baixem, claramente. Não vale a pena esconder, podemos florear isto de mil e uma maneiras, mas a minha visão é esta. É uma regra básica de economia, de oferta e procura. Portanto a oferta vai aumentar claramente, a procura vai diminuir e obrigar os preços a corrigirem.

Quem quiser vender acho que é um bom momento para vender. Porquê? Porque a médio e longo prazo estarão disponíveis muitos novos imóveis no mercado. 

Depois claro que isto é uma visão macro. Claro que há zonas que raramente desvalorizam, antes pelo contrário, depois depende do tipo de projeto, do tipo de prédio, a zona, e se entrarmos em detalhe não é tão linear assim. Acredito que há imóveis que têm sempre o mesmo valor e tendem a valorizar, mas no âmbito geral essa é a minha perspetiva. Quem quiser vender acho que deve vender agora, porque se tentar fazê-lo mais para a frente é provável que determinados imóveis não tenham o valor que têm agora