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As lições que 8 homens relevantes do imobiliário aprenderam com as mulheres

O idealista/news desafiou algumas personalidades masculinas do setor a refletirem sobre o papel das mulheres nas empresas.

Autores: Leonor Santos, @Frederico Gonçalves, Tânia Ferreira

O dia 8 de março foi instituído pelas Nações Unidas, em 1975, como o Dia Internacional da Mulher. A data celebra as lutas feministas por melhores condições de vida e trabalho, a eliminação de todas as formas de discriminação e a conquista do direito ao voto. E, de ano para ano, o "8M" tem vindo a ganhar força em todo o mundo, servindo de estímulo a reivindicações pela igualdade de género e de direitos. O imobiliário continua a ser um setor demarcadamente masculino e, sobretudo, liderado por homens, mas há cada vez mais vozes femininas a destacar-se com sucesso. O idealista/news decidiu desafiar oito personalidades masculinas do imobiliário português a refletirem sobre o papel das mulheres nas suas carreiras e empresas, e o que estão a fazer para promover a sua presença em cargos de direção.

Mas antes, e para compreender as motivações históricas das celebrações do Dia da Mulher– que este ano se comemora no próximo domingo – é preciso recuar a finais do século XIX e inícios do século XX. A 8 de março de 1857, um grupo de operárias de uma fábrica de têxteis, em Nova Iorque (EUA), organizou uma marcha contra os salários baixos, o excesso de horas de trabalho e as más condições da fábrica. Cinquenta e um anos depois, a 8 de março de 1908, um outro grupo de trabalhadoras na mesma cidade norte-americana escolheu a data para avançar com uma greve e reinvindicar, também, o direito ao voto.

Já lá vão mais de 100 anos, e o mais recente Relatório Mundial sobre a Desigualdade de Género 2020, do Fórum Económico Mundial, revela que serão precisos, pelo menos, outros 100 para alcançar a paridade em todo o mundo. Quer isto dizer que a igualdade de género na saúde, educação, no trabalho e na política demorará mais do que as nossas vidas.

Os países nórdicos lideram os rankings internacionais da paridade. A Islândia (87,7%) é o país com maior igualdade de género no mundo (pela 11ª vez consecutiva) e Portugal aparece no 35º lugar da lista composta por 153 países, com 74,7%. Mas, de acordo com o relatório, ainda nenhum país (incluindo os mais bem classificados) alcançou a paridade de género nos salários - as mulheres continuam a ser menos recompensadas do que os homens. Chegar aos cargos de chefia também não é tarefa fácil. Em Portugal, por exemplo, apenas 16,2% de mulheres ocupam cargos de direção nas empresas, menos na vizinha Espanha (22%) ou em França (43,4%) e Itália (34%).

Entretanto, neste caminho pela igualdade de género, também no imobiliário há ainda muito por fazer, mas há passos que se estão a dar. O idealista/news decidiu, por isso, ouvir os homens relevantes do setor em Portugal e perguntámos: o que têm aprendido com as mulheres nas suas carreiras? Como olham para as questões de género? Qual é a realidade das suas empresas? A propósito do 8 de março, damos a agora a conhecer 8 testemunhos de rostos bem conhecidos do imobiliário português, reproduzidos na íntegra.

Confesso que sempre tive dificuldade em distinguir a capacidade profissional por géneros, ou por outros critérios discriminatórios… Aprendo com pessoas: mulheres e homens; jovens e mais velhos; héteros e homos; brancos e negros! Limitando-me à questão do género, sinceramente é-me difícil caracterizar os dois sexos (e cingindo-me a estes dois…) de forma taxativa. Estereotipando: em oposição aos homens, as mulheres serão mais sensíveis, mais organizadas, menos duras? Conheço homens com grande sensibilidade e mulheres super-desorganizadas! No entanto, devo dizer que os dois grandes mentores a nível profissional que tive, por acaso, foram homens. Mas as lições de vida mais importantes recebi-as de uma mulher – a minha mãe: tentar sempre entender o ponto de vista e o quadro de valores do outro, e respeitar todos os seres humanos, em toda a sua diversidade.

Sempre achei natural as empresas, em todas as suas “camadas hierárquicas”, serem formadas por homens e mulheres em proporções mais ou menos iguais. E estranho que assim não seja. Mas não obstante isto, e o que disse acima, reconheço que, ao longo do tempo, as mulheres tiveram menos oportunidades de se desenvolver profissionalmente. E constato com alguma consternação que na minha empresa, em que as colaboradoras femininas constituem uma ligeira maioria com 52%, essa proporção vá diminuindo à medida que se sobe na hierarquia: entre os Associate Directors ainda são 47%, mas entre os Partners já só são 25%. 

Como não deixo de acreditar na meritocracia, mantemo-nos atentos à forma como iremos equilibrar estes números, através de planos de desenvolvimento de carreira focados na nossa população feminina (programas de mentoring), bem como programas de sensibilização das chefias para a aplicação de critérios de avaliação consistentes, baseados em evidências e livres de preconceito. 

Além disso, cientes de que na nossa sociedade as mulheres continuam a ter um peso desproporcional em assegurar a logística familiar, instituímos políticas de trabalho em horário flexível e/ou a partir de casa, que são igualmente benéficas para ambos os géneros. 

A nível internacional existe a iniciativa WIN (Women’s Integrated Network), criada para desenvolver e apoiar o talento dos membros femininos das nossas equipas, através de uma plataforma que valoriza a diversidade de perspetivas e estimula as profissionais do imobiliário da C&W a posicionar-se em cargos de liderança, com benefício para a sua carreira, para a empresa, para os nossos clientes e para a sociedade.

É de facto fantástico trabalhar com mulheres! Na administração da CBRE trabalho com a Ana Gentil Martins e somos perfis muito diferentes, mas penso que isso traz pluralidade e discussão à maioria dos temas que tratamos em conjunto. Completamo-nos bastante. 

Ao longo dos últimos anos tenho aprendido várias coisas, por vezes uma maior sensibilidade no trato de alguns assuntos, a atenção ao detalhe e a capacidade de multi-tasking - que não é um mito! Sem querer generalizar, acho que as mulheres são por vezes mais impulsivas e não sendo sempre uma característica favorável ao negócio, muitas vezes é este rasgo de impulsividade, este salto de fé e esta vontade de arriscar que faz a diferença nas empresas. 

A nível global, sabemos que a CBRE tem implementado diversas políticas de equilíbrio, contudo, devo confessar que na realidade da CBRE Portugal não sentimos que seja um tema urgente, pois foi algo que, com naturalidade, sempre soubemos gerir. Temos diversas mulheres em cargos de direção, pois de facto foram os perfis mais fortes que encontrámos para os ocupar e uma equipa muito equilibrada, quer no que ao género diz respeito mas também à faixa etária.

Aprende-se muito com a interação diária entre colegas, independentemente do género, mas olhando para a experiência com o universo feminino da JLL tenho de realçar algumas qualidades que têm sido mais marcantes, como a perseverança e a capacidade de organização, além da capacidade de multitasking e de simplificar o complexo. Destacaria ainda a orientação para os resultados e a capacidade de negociação. 

Na JLL, as oportunidades são dadas às pessoas que apresentam as caraterísticas certas e o potencial para as assumir. Ou seja, não olhamos para o género como um fator de diferenciação ou um critério de escolha. Olhamos sim para a competência e para o denvolvimento para com o projeto e os valores da empresa. E podemos ver que esta visão da empresa é a mais correta, pois temos, sem ser por quaisquer imposições externas, uma equipa de liderança onde 50% são mulheres e 50% são homens. Em termos gerais, 57% dos colaboradores são mulheres.

Uma das principais vantagens, e aprendizagens, resultantes do trabalho com mulheres é uma amplitude de perspetiva. Sem qualquer juízo de valor, acredito que homens e mulheres são diferentes e essas diferenças acabam por se refletir na forma como abordam as questões e os desafios que lhes são colocados no dia a dia, sendo extremamente benéfica a complementaridade entre ambos. Aprendi em particular a gerir as emoções com mais inteligência e a não me queixar de um eventual excesso de trabalho quando vejo a quantidade de temas laborais e não laborais que são geridos quotidianamente pelas mulheres, a quem designo, carinhosa e graciosamente, por seres multifunções.

O mercado imobiliário é muito masculino e cinzento. Para confirmá-lo basta olharmos para a participação dos homens e mulheres a nível dos cargos de direção. A Savills Portugal tem um modelo de coliderança, que considero muito benéfico pela amplitude que é conferida à gestão. Patrícia Liz é a primeira CEO de uma empresa multinacional de consultoria imobiliária em Portugal. Tanto a direção da Savills Portugal, como a sua estrutura de Talento Humano, são compostos por mais de 50% mulheres. Para atingir estes números, não fomos guiados por quotas ou qualquer preocupação que não passasse pelo reconhecimento do mérito a quem o tem, sem preconceitos e/ou reservas mentais.

Tenho uma certa dificuldade em compreender a falta de expressão nas direções das empresas quando o grau de representatividade das mulheres nas licenciaturas é elevado e onde normalmente alguns dos estudantes com melhor desempenho são do sexo feminino. É a evidência de um contexto laboral machista e ultrapassado, onde em lugar da diversidade se procura o conforto de termos ao nosso lado alguém que pensa como nós em alternativa a alguém que em reciprocidade nos pode complementar, alargando as nossas vistas.

Termino, deixando um agradecimento na pessoa das nossas diretoras: Cristina, Joana, Patrícia, Paula, Raquel e Sofia, a todas as mulheres, e em particular aquelas que contribuem, com os nossos homens, para fazerem da Savills Portugal a empresa de excelência que é.

Valorizo sobretudo a capacidade de resiliência e de aprendizagem das mulheres. Demonstram grande aptidão para lidar perseverantemente com as adversidades, o que é indispensável no mercado atual. Destacam-se também pelo foco no desenvolvimento, estando sempre interessadas em aperfeiçoar os seus pontos fortes. É também importante referir o sexto sentido das mulheres que ao integrar a razão com a emoção pode oferecer ‘insights’ valiosos que passam despercebidos aos homens. 

Na Worx, 50% da equipa é constituída por mulheres e 50% dos cargos de chefia são ocupados por mulheres. As mulheres apresentam perfis de liderança distintos dos homens, tendo perceções e comportamentos diferentes. Assim, é vantajoso podermos contar com estes diferentes modos de atuação e pontos de vista, tentando aproveitar o melhor de cada um deles. 

Na Vanguard Properties, promotor imobiliário de referência, por ora atuando no segmento residencial de luxo e super premium, a maior aprendizagem ao nível do processo criativo e de desenvolvimento conceptual tem sido essencialmente a atenção ao detalhe, qualidade, funcionalidade e facilidade de manutenção. Ao nível da gestão, boa organização, conhecimento dos dossiers e vontade de superar as expetativas e ainda, maior arrojo e capacidade de ver mais longe, além do óbvio. 

Na verdade, a Vanguard Properties não está a fazer nada em concreto para fomentar que as mulheres ocupem, cada vez mais, cargos de direção. Desde o primeiro dia, contratamos quadros e executivos, de ambos os sexos, que mais se adequam às funções em aberto apenas em função do seu perfil, nomeadamente experiência, formação e referências. Não damos preferência a nenhum género e oferecemos exatamente o mesmo pacote remunerativo. Atualmente, cerca de 63% dos quadros da Vanguard Properties são do sexo feminino e estamos muito satisfeitos com o resultado, tanto do ponto de vista da performance a vários níveis como do ambiente de trabalho. 

Ao longo dos anos fui-me apercebendo do impacto notável das mulheres na produtividade de uma empresa. Foi-se espelhando através da sua proficiência organizacional e no planeamento do quadro de trabalhos, bem como na expressa tendência a boas habilidades de negociação e mediação - excelentes ‘team players’, resultando numa mais valia. Além disso, e como toda a gente sabe, ‘patience is a feminine virtue’.

Perseguindo a Bondstone uma filosofia de ‘equal opportunity employer’, constata-se que metade dos nossos colaboradores são mulheres. A atitude perante este tema, que toma contornos mediáticos, certamente não se resume somente a uma intenção nossa, mas justamente pelo crescimento das mulheres no mercado de trabalho e a sua determinação no insurgimento para o encontro da paridade de oportunidades, levá-las-á a conquistar o Direito de Igualdade.

As mulheres têm uma maneira diferente de pensar e ver as coisas. São reflexivas, menos impulsivas e analíticas. “Agem” com menos “testosterona” e empenham-se muito no seu trabalho. As mulheres com quem trabalho no idealista são extraordinariamente inteligentes, críticas, sinceras, profundamente éticas, trabalhadores incansáveis e super leais. O seu nível de comprometimento é enorme e, como creio que se sentem valorizadas e reconhecidas, sentem que o seu projeto é o do idealista. Sei que posso contar todas e cada uma delas, e que sempre darão o melhor de si mesmas.

Há que ser consciente da importância de ter mulheres em cargos de direção e que construam equipas equilibradas. Os homens, por exemplo, têm sempre o seu perfil atualizado no Linkedin, mesmo que se sintam cómodos/confortáveis no seu trabalho. Mas uma mulher que se sinta à vontade e comprometida com a sua empresa estará menos atenta (ou nada) ao mercado. E, portanto, é preciso fazer um trabalho de pesquisa rigoroso para atrair talentos em cargos seniores. 

No departamento de tecnologia tentamos ao máximo incorporar mulheres e participamos em várias iniciativas para potencializar a presença da mulher nessa área. Ainda há muito a fazer, mas sentimos a responsabilidade de aumentar a presença de mulheres no campo tecnológico.

A paridade de género no idealista é 52% de mulheres e 48% de homens, e não é por acaso. Queremos conscientemente que as equipas sejam equilibradas e há um compromisso ativo de incorporar as mulheres em todos os ambientes da empresa.

Para o mesmo cargo, queremos paridade salarial e, em todos os processos abertos de novas incorporações, é essencial que haja candidatas – embora às vezes, em certas posições técnicas, é impossível.

Temos mulheres em todos os níveis diretivos: a CFO do idealista é uma mulher. A diretora de produção, a diretora de experiência do utilizador e a diretora de recursos humanos são mulheres. Há mulheres em todos os estratos de responsabilidade, e 75% dos chefes de equipa são mulheres. Sabemos o quão importante é a conciliação, não apenas para as mulheres, e damos enorme importância aos horários laborais, para que os trabalhadores possam estar com as suas famílias. Complementamos os subsídios de maternidade e paternidade, de forma a que ser pai não suponha uma eventual perda económica.