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Jovens adultos saem de casa dos pais cada vez mais tarde – e poucos compram com menos de 30 anos

As conclusões constam no estudo “Habitação própria em Portugal numa perspetiva intergeracional”, encomendado pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Chris Barbalis on Unsplash
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Autor: Redação

Os jovens adultos saem cada vez mais tarde de casa dos pais e são poucos os que têm habitação própria quando o Cartão do Cidadão marca menos de 30 anos. Estas são algumas das conclusões do estudo “Habitação própria em Portugal numa perspetiva intergeracional”, encomendado pela Fundação Calouste Gulbenkian e que tem como autores Romana Xerez, Elvira Pereira e Francielli Dalprá Cardoso, do Centro de Administração e Políticas Públicas do ISCSP.

Os números são esclarecedores. Em Portugal, apenas 25% dos proprietários de habitação própria tem menos de 30 anos, um valor bem mais baixo face ao verificado no início do século (64%). E mais: a percentagem de jovens adultos (18-34 anos) a viver em casa dos pais disparou, atingindo os 64% em 2018 – mais que os 55,2% verificados em 2004. 

Tudo isto num país em que o peso da habitação na despesa anual média das famílias mais que duplicou em 26 anos e em que, em pouco mais de duas décadas, a despesa pública com habitação diminuiu 42%, escreve o Jornal de Negócios, apoiando-se no estudo.

Segundo Luís Lobo Xavier, coordenador do projeto Justiça Intergeracional, verifica-se “um peso crescente da despesa com habitação”, sendo que os jovens não compram casa “por falta de interesse”. “É importante pensar em políticas que sejam justas para as atuais gerações, mas também para as futuras”, alerta, citado pela publicação.

Millennials em desvantagem face às gerações anteriores

Para Romana Xerez, uma das autoras do estudo, os resultados da investigação “sugerem que o acesso à habitação constitui um novo risco social pelo facto de os jovens millennials estarem numa posição de desvantagem em relação às gerações anteriores”. Uma desvantagem, acrescenta, que “a pandemia e a crise que dela irá resultar deverão ainda reforçar”.

De acordo com o estudo, “o acesso à habitação agravou-se”, sendo que os mais jovens estão, atualmente, “mais dependentes do arrendamento a preços de mercado, têm menos respostas de habitação pública” e “permanecem mais tempo em casa dos pais”.

O ECO escreve ainda, citando também o referido estudo, que “a crise económica agravou a instabilidade no emprego, reduziu os rendimentos e contribuiu para prolongar a permanência dos jovens em casa dos pais”. 

O que fazer para “dar a volta” à situação? Sublinhando que o estudo visa não visa tecer recomendações, mas sim dar pistas e fornecer elementos para debate e para a formulação de políticas públicas, Luís Lobo Xavier considera que há um longo caminho a percorrer, apesar de já terem sido dados alguns passos nesse sentido.

“A partir de 2018 começamos a ver um foco da dimensão pública na área da habitação”, diz Romana Xerez, dando como exemplo a Lei de Bases da Habitação ou a Nova Geração de Políticas de Habitação. “Precisamos é de perceber o impacto dessas medidas” que, nomeadamente para os jovens, é ainda “muito residual”, acrescenta, dando como exemplo o programa Porta 65: “[É] de apenas três anos de apoio, um período muito curto na vida das famílias”, que depois também não cumprem em regra os requisitos para aceder a uma habitação social, refere, citada pelo Jornal de Negócios.

“Os dados sugerem que, a este nível, a intervenção pública deve ser maior. [Afinal], o Estado social serve também para uma questão de bem-estar”, afirmou, acrescentando que é necessário definir que Estado é que se quer “para as gerações futuras”.