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Proprietários em Lisboa: 40% têm rendas em atraso e metade acredita num agravamento do incumprimento

Maioria (77,3%) dos senhorios pretende manter os preços das rendas em 2021, conclui o Barómetro “Confiança dos Proprietários”, realizado pela ALP.

Imagem de Pierre-Alain DEGARDIN por Pixabay
Imagem de Pierre-Alain DEGARDIN por Pixabay
Autor: Redação

A maioria (77,3%) dos proprietários de Lisboa pretende manter os preços das rendas em 2021, sendo que apenas 10% pondera reduzir a mensalidade pedida aos inquilinos. Há ainda cerca de 12% de senhorios que pondera aumentar a renda. Consequência ou não dos elevados preços praticados, nomeadamente em tempos de pandemia, quase 40% dos senhorios têm rendas em atraso, um cenário que pode aumentar nos próximos tempos. Estas são algumas das conclusões a retirar da segunda edição do Barómetro “Confiança dos Proprietários”, realizado pela Associação Lisbonense de Proprietários (ALP) e divulgado esta quarta-feira (17 de fevereiro de 2021).

Mais de metade dos inquiridos (51,4%) considera que os incumprimentos contratuais no pagamento das rendas por parte dos arrendatários vão aumentar, conclui o barómetro, que foi realizado durante o mês de janeiro, através de uma plataforma online, que recolheu contributos de uma amostra com três centenas de proprietários.

“A confiança dos proprietários na evolução do mercado imobiliário em 2021 está a ser minada pela ameaça de um aumento nos incumprimentos do pagamento de renda pelos arrendatários”, refere a ALP, em comunicado.  

“Apesar da resiliência ímpar do setor imobiliário durante o ano de 2020, já em contexto de pandemia, as consequências das moratórias que suspenderam o pagamento das rendas habitacionais e não habitacionais durante o primeiro confinamento nacional não permitem aos proprietários de imóveis encarar 2021 com alguma confiança. Nesse sentido, mais de metade (51,4%) dos proprietários inquiridos dizem não ter confiança no mercado em 2021, imputando esse sentimento à convição de que os incumprimentos contratuais no pagamento das rendas pelos inquilinos vão aumentar. Para um quarto da amostra a confiança no mercado é afetada pelo receio de uma quebra nos preços (do arrendamento e compra/venda) dos imóveis”, lê-se no documento.

Mais de um terço dos inquiridos com rendas em atraso

Quase 40% dos inquiridos (38,7%) afirma ter rendas em atraso (habitacionais e não habitacionais), sendo que destes, mais de um terço (36,5%) acumula perdas de três a seis meses de rendas, e outro terço (33,9%) entre duas e três rendas em falta. De referir ainda que 18,3% dos inquiridos tem mais de meio ano (seis meses) de rendas em atraso.

“Ainda assim, 65% dos proprietários inquiridos não têm intenção de instruir um processo de despejo, e entre estes uma fatia de 40% afirmam que não o farão por compreensão e solidariedade para com a situação de fragilidade social e económica dos seus inquilinos, com 38,9% dos respondentes a apontar a morosidade da justiça para não fazer valer os seus direitos consagrados contratualmente nos tribunais competentes”, conclui a ALP.

Desagrado com Governo e programas de arrendamento

A grande maioria (74,4%) dos proprietários dizem estar desagradados com a atuação do Governo e com as alterações realizadas ao arrendamento no âmbito da pandemia. “Neste ponto, mais de um terço (37,2%) dos proprietários assumem que se sentem mal informados, tendo dificuldade em manterem-se atualizados sobre as alterações introduzidas, e 50,9% referem que têm algumas dúvidas, mas sabem genericamente o suficiente sobre a matéria”, lê-se na nota enviada às redações.

Para 89,5% dos inquiridos, os programas de arrendamento acessível do Governo e das autarquias não são convincentes, com os proprietários a referirem que não confiam nos mesmos e que não estão disponíveis para colocar os seus imóveis, apesar dos atraentes incentivos fiscais. De acordo com o barómetro, apenas 4,8% dos respondentes têm imóveis colocados no arrendamento acessível, sendo que a desconfiança no Estado, Governo e autarquias, a volatilidade das leis e o receio de que as regras se alterem ao longo dos contratos, a burocracia, e o prazo muito alargado dos contratos de arrendamento encabeçam os motivos pelos quais não estão a pensar aderir a estes programas este ano.

"Inverter políticas realizadas nos últimos anos"

Luís Menezes Leitão, presidente da ALP, considera que os dados do estudo “demonstram claramente o enorme impacto que as sucessivas alterações à legislação do arrendamento e as medidas aprovadas em virtude da pandemia da Covid-19 tiveram no funcionamento do mercado de arrendamento e na confiança dos proprietários nesse mercado”. “É preciso por isso inverter rapidamente as políticas realizadas nos últimos anos, única forma de se conseguir um aumento da oferta de arrendamento, por forma a permitir que através do mesmo possa ser realizado o direito à habitação dos portugueses”, comenta, salientando que a procura no mercado de arrendamento “continua a exceder largamente a oferta existente”.