Só entre janeiro e o final de junho deste ano, o IPMA estimou 59 dias em onda de calor em Portugal continental. O episódio mais longo aconteceu em março, com 14 dias, e abril, maio e junho tiveram ondas de 13 dias cada. No início de julho, 12 dos 18 distritos chegaram a estar sob aviso vermelho, com previsão de máximas até 44 graus e mínimas que não desciam dos 24 graus em várias regiões. Este agosto continuou a somar avisos por temperatura máxima elevada.
A casa é onde este calor se sente durante mais horas. Em 2025, 28,2% da população portuguesa vivia em habitações que não eram confortavelmente frescas durante o verão, segundo o INE, um valor ainda longe da meta de 20% fixada para 2030. E a resposta mais rápida continua a ser escassa: só 34% das casas anunciadas para vender ou arrendar em Portugal tinham ar condicionado no segundo trimestre de 2026, mostram os dados do idealista. E o recurso ao ar condicionado vai tocar nos custos energéticos associados.
Quando o calor deixa de ser um incómodo de duas semanas e passa a ocupar meses do calendário, quem tem dinheiro para escolher onde vive escolhe também pelo conforto térmico. E essa escolha impacta nos preços.
O estudo que virou o mapa da gentrificação ao contrário
O trabalho vem do Barcelona Lab for Urban Environmental Justice and Sustainability, sediado no Institut de Ciència i Tecnologia Ambientals da Universitat Autònoma de Barcelona. No âmbito do projeto ClimateJusticeReady, a equipa construiu um índice de vulnerabilidade à gentrificação climática para os 36 municípios da área metropolitana de Barcelona, ao nível da secção estatística, disponível numa plataforma de acesso aberto. Os resultados foram publicados no Journal of City Climate Policy and Economy.
O índice cruza três dimensões.
A exposição, que junta calor, stress térmico dentro das habitações e acesso a espaços verdes.
A sensibilidade, que inclui processos de gentrificação anteriores e indicadores socioeconómicos.
A capacidade de adaptação, que mede recursos como habitação pública, refúgios climáticos e serviços comunitários capazes de travar a deslocação de residentes.
A conclusão contraria a intuição de quem estuda gentrificação há décadas. As áreas mais vulneráveis são as periferias metropolitanas, e não os centros históricos. Os centros consolidados são caros, mas também densos, impermeabilizados e quentes.
As coroas periféricas tendem a ser mais verdes, menos densas, mais frescas, com edificado mais recente e, até aqui, mais baratas. Escaparam à pressão do turismo e da especulação que atingiu o centro, e são essas características que as tornam atrativas para quem quer fugir ao calor. Estas áreas, onde a gentrificação nunca tinha feito parte do debate, são agora valorizadas pelo conforto térmico que oferecem. O problema é que muitos municípios não estão preparados para gerir as desigualdades e a deslocação de residentes que isso pode gerar.
Os investigadores descrevem quatro caminhos pelos quais o calor se transforma em pressão imobiliária:
a resiliência privatizada, quando o arrefecimento passa a ser um bem que se compra;
a reabilitação do edificado, que melhora as casas e empurra as rendas;
o investimento verde, com parques e corredores arborizados a valorizar a envolvente;
e a gentrificação rural, com a procura a saltar para fora da cidade.
A periferia portuguesa já estava a valorizar
A coroa metropolitana portuguesa já era disputada por motivos que nada têm que ver com temperatura: preço relativo, oferta de casa maior, proximidade a emprego e escolas. Segundo o Banco de Portugal, o preço das casas mais do que duplicou em 157 municípios entre 2017 e 2025, e em Sintra, Seixal, Barreiro, Moita e Setúbal a variação do valor mediano por metro quadrado ultrapassou os 200%.
Os dados de procura vão no mesmo sentido. Em fevereiro de 2026, o top 10 dos municípios mais procurados para comprar casa era ocupado inteiramente por concelhos em torno da capital, com a Amadora em primeiro lugar e Lisboa apenas em 11.º. Os preços medianos nesses concelhos já são altos: 324 mil euros na Amadora, 471 mil em Odivelas, 511 mil em Loures, 522 mil em Sintra e 738 mil em Oeiras. Na cidade de Lisboa, o preço mediano das casas à venda estava em 6.109 euros por metro quadrado em abril de 2026.
Do lado da procura, o sinal também já é visível. 87% dos portugueses consideram que a exposição a riscos climáticos extremos é um critério importante ou muito importante na compra de uma nova casa, segundo dados divulgados em julho.
Os bairros onde não há para onde fugir
A geografia do calor dentro de uma cidade portuguesa é conhecida e desigual. António Lopes, professor no IGOT-ULisboa e investigador do Centro de Estudos Geográficos, explicou ao idealista/news que as ilhas de calor urbano se formam quando os solos naturais e a vegetação dão lugar a edifícios, asfalto e outras superfícies impermeáveis, que armazenam energia durante o dia e a libertam lentamente à tarde e à noite. As áreas mais compactas aquecem mais; parques, jardins e ruas arborizadas formam ilhas de frescura. Estudos recentes indicam que as árvores de rua podem reduzir o stress térmico sentido pelo corpo humano, medido pelo índice UTCI, em cerca de 3 a 6 graus, sobretudo por sombreamento.
O mesmo investigador chama a atenção para as noites tropicais, aquelas em que a temperatura mínima não desce abaixo dos 20 graus. São elas que impedem a casa de arrefecer e o organismo de recuperar, e foram frequentes nas ondas de calor deste verão.
Em Lisboa, um mapeamento feito pelo cientista Manuel Banza, identificou as zonas onde é mais difícil encontrar um refúgio para o calor: a Baixa, o Alto de São João e a Rua Morais Soares, Chelas, o Bairro do Rego, o Parque das Nações e a Ajuda. O caso da Rua Morais Soares, na fronteira entre Arroios e Penha de França, é o mais expressivo: trata-se do quilómetro quadrado com mais população do país, com poucas árvores e sem qualquer jardim ou parque de média dimensão que ajude a mitigar as ondas de calor.
A este mapa soma-se a qualidade do edificado. Entre janeiro e agosto de 2026, 48,2% dos imóveis residenciais com certificado energético emitido continuavam nas classes mais baixas, de C a F, segundo a ADENE. E mais de 600 mil pessoas vivem em pobreza energética severa em Portugal, sem margem para pagar o arrefecimento que precisariam de ter. Luís Mendes, geógrafo e professor no IGOT-ULisboa, considera que as ondas de calor "são um dos desafios mais prementes para a vida nas grandes cidades" deste século, com efeitos no sono, na saúde cardiovascular e respiratória e na produtividade.
O problema térmico transforma-se assim num problema de habitação: a mesma onda de calor produz consequências muito diferentes consoante a casa e o rendimento de quem a habita.
Quando a adaptação empurra os preços para cima
As medidas certas também têm efeitos de mercado. Plantar árvores, criar parques, recuperar linhas de água, reabilitar edifícios e abrir refúgios climáticos melhora a vida de quem lá está e, ao mesmo tempo, torna aquelas ruas mais desejáveis para quem tem mais dinheiro. Os investigadores de Barcelona são explícitos: sem políticas que antecipem essa mudança, as desigualdades dos centros reproduzem-se nas periferias.
Em Portugal, o investimento em adaptação está a acelerar. O Turismo de Portugal lançou este mês um concurso de um milhão de euros para refúgios climáticos dirigido a câmaras municipais e juntas de freguesia, com apoio não reembolsável de 80% das despesas elegíveis até 75 mil euros por candidatura. O apoio financia bebedouros, nebulizadores, plantação de árvores de sombra, pérgulas e mobiliário de descanso. "A adaptação às alterações climáticas é hoje uma prioridade para o turismo", afirmou o presidente do Turismo de Portugal, Carlos Abade, referindo que existem já mais de 100 refúgios climáticos em 47 municípios. Em Lisboa, o executivo municipal aprovou em julho a submissão do Contrato Climático da Cidade 2030 à Assembleia Municipal.
Quem pode pagar a sua própria sombra
Uma parte desta adaptação faz-se porta a porta, sem passar por nenhuma política pública, e é a que os investigadores chamam resiliência privatizada. Comprar um aparelho de ar condicionado, instalar toldos, fechar uma marquise ou trocar as janelas alivia o calor de quem consegue pagar essas obras, e deixa exposto quem não consegue. Os 34% de casas anunciadas com ar condicionado medem, na prática, essa divisão.
O aviso mais importante do estudo é sobre a sequência das decisões: se a sombra, a água e a reabilitação chegarem sem habitação acessível, sem proteção do arrendamento e sem oferta pública, quem vive hoje nos bairros mais quentes pode não estar lá para usufruir delas. As recomendações do projeto vão nesse sentido: mapear cedo as zonas em risco, dimensionar recursos para as áreas periféricas, que acumulam alta exposição e poucos meios, e coordenar as políticas de clima, habitação e espaço verde em vez de as tratar em compartimentos separados. É a mesma preocupação que a WWF já tinha sinalizado ao alertar que as alterações climáticas limitam o acesso à habitação em zonas de alto risco.
O que verificar?
O conforto térmico está a tornar-se um ativo imobiliário, e vale a pena avaliá-lo com o mesmo cuidado com que avalias a área ou o andar.
Lê o certificado energético até ao fim, incluindo a lista de medidas de melhoria e o retorno estimado de cada uma. Confirma a orientação solar, o sombreamento das fachadas viradas a poente e a existência de proteção exterior, porque estores exteriores e portadas travam o calor antes de ele entrar no vidro. Verifica as caixas de estore, que são dos pontos por onde entra mais calor e mais ruído. Pergunta se a casa permite ventilação cruzada durante a noite, quando o ar exterior arrefece.
Olha depois para fora. Conta as árvores que vês da janela, mede a distância a um jardim ou a um espaço público com sombra e procura saber se a autarquia tem plano de arborização ou refúgios climáticos identificados na zona. Uma rua sem copa arbórea pode significar vários graus de diferença em plena tarde de agosto.
Leva em conta o custo de funcionamento. Instalar ar condicionado resolve o desconforto imediato, mas transfere o problema para a fatura da eletricidade e, à escala da cidade, agrava o aquecimento que se pretende combater. Numa casa mal isolada, o dinheiro aplicado em vedar, sombrear e isolar rende mais do que o gasto em equipamento.
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