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Arte urbana: estas avós têm mesmo muita lata

Autores: @Frederico Gonçalves, Luis Manzano, Tânia Ferreira

Chegam de bengala, mas cedo a largam. E trocam-nas por latas de spray. Os formandos que participam nos Workshops do projeto Lata 65 são tudo menos idosos conformados com a sua vida e reforma. A dedicação e atrevimento que demonstram ter durante os dois dias de curso mostram que a arte urbana não escolhe idades. Que o digam as paredes pintadas por estas formandas...

Juncal do Campo, Castelo Branco, 21 de junho. Nem os quase 40 graus que se fazem sentir no interior de Portugal afastam estas avós grafiteiras da parede. De lata na mão e com máscaras no rosto, atiram-se à parede como verdadeiras artistas. “Temos umas coisinhas para contar”, diz ao idealista/news Beatriz Nunes, de 87 anos.

Mas, afinal, o que é e como surgiu o projeto Lata 65? “A ideia surgiu muito por observação. Começou com o trabalho que temos desenvolvido com o Wool, Festival de Arte Urbana da Covilhã, em 2011. Pelas várias cidades onde fui passando a trabalhar percebi que os idosos eram aqueles que acompanhavam mais os trabalhos. Não por questões de tempo, mas pela curiosidade que tinham, das mil perguntas que faziam. Queriam saber tudo sobre os projetos, as técnicas, os artistas”, conta Lara Seixo Rodrigues, mentora do projeto.

“Criei quase a minha própria profissão”

Lara foi arquiteta durante mais de uma década, mas em 2011, com o Wool, decidiu mudar de vida: “Criei quase a minha própria profissão”, revela, salientando que o primiero workshop Lata 65 que orientou realizou-se em Lisboa, em novembro de 2012: “Os primeiros workshops foram muito uma aventura, foram totalmente pro bono. Quando percebi que queria continuar a fazer o projeto tentei buscar formas de o financiar. A primeira que encontrei foi o Orçamento Participativo de Lisboa, já em 2013. Infelizmente houve problemas burocráticos e tivemos só de começar em janeiro deste ano”.

Em junho, o projeto saiu da cidade e foi para o campo. Depois da aventura e do sucesso que foi o workshop do Juncal do Campo (ver vídeo), o evento realiza-se este mês em três aldeias perto de Montemor-o-Velho (Coimbra), na União de freguesias de Abrunheira, Verride e Vila Nova da Barca. “Em setembro retomamos os workshops que temos no Orçamento Participativo de Lisboa. Temos 12 ações e até à data fizemos três [Olivais, Benfica e Carnide], por isso ainda temos muito pela frente”, adianta Lara Rodrigues.

“Uma fusão perfeita”

Para Adrião Resende, formador do projeto Lata 65, a experiência de partilhar ideias e conhecimento com um público mais velho é também muito enriquecedora: “Mais que orgulho, é um prazer muito grande participar neste projeto, onde se trabalha diretamente com as pessoas. Não há rodeios, burocracia, nada do género”.

O especialista em grafiti considera que o choque de gerações que é por idosos a fazer arte urbana é “uma fusão perfeita” e conta que eles até podem ter, por vezes, “pouca abertura para começar a trabalhar”, mas que depois o difícil é “puxá-los para fora deste contexto”. “Acabam por ficar muito apaixonados pela coisa”, conta.