A freguesia de São Silvestre, em Coimbra, ganhou um novo encanto há cerca de sete anos. Foi em 2019, que o palácio senhorial do século XVIII abriu portas enquanto boutique hotel procurando entrelaçar história e património, com conforto e elegância. “Na decoração, quisemos puxar por algum requinte e adotar um estilo mais contemporâneo para criar este ambiente de realeza no palácio”, explica em entrevista ao idealista/news Marta Mendes, diretora do Palácio São Silvestre Boutique Hotel, admitindo que os hóspedes procuram este hotel para se “sentirem reis e rainhas por um dia”.
O caminho até aí chegar não foi fácil. O palácio esteve fechado durante 18 anos até ter sido comprado pelo grupo Louro Internacional em 2018. Apesar de terem adquirido o imóvel já ampliado e preparado para receber uma unidade hoteleira, tiverem de "fazer grandes reparos” para resolver problemas de humidade e infiltrações, refere Marta Mendes. Mas também conseguiram manter vários elementos arquitetónicos do antigo palácio, como a fachada principal, os brasões, tetos trabalhados, chaminés e paredes de pedra. “A suíte João de Ruão tem um jacuzzi enorme, um teto de pedra original muito bonito e uma decoração inspirada no famoso arquiteto-escultor, que quisemos homenagear”, descreve.
“Sentimos que este turismo de luxo regressa, está em grande força”
Esta decoração inspirada na história alia-se aos espaços de lazer e bem-estar deste boutique hotel, que possui ainda uma piscina exterior, campos de ténis e padel, um parque infantil, um ginásio e vinhas. “Felizmente temos tido uma grande procura”, não só por casais e empresas, mas também por famílias com filhos, refere Marta Mendes, admitindo que o palácio pode ser mesmo um refúgio ao turismo de massas. “Sentimos que este turismo de luxo regressa, está em grande força. É um nicho que nos procura e que nos satisfaz, que reconhece o valor que agregamos a cada experiência”, sublinha.
Ao nível da economia local, também se sente um antes e depois da abertura do palácio. “Quando esta quinta estava aqui ao abandono, as pessoas não vinham até São Silvestre, porque era um espaço triste, feio, abandonado. E, neste momento, consideramos que nos tornamos uma mais-valia, que agregámos valor aqui à própria vila de São Silvestre e todos ganhamos com isto”, refere a diretora do Palácio São Silvestre nesta entrevista ao idealista/news.
O Palácio São Silvestre foi residência de famílias nobres no século XVIII. Qual foi a sua importância na história local?
Houve um conjunto de famílias que habitaram aqui, nesta casa da nobreza, como a família Cabral de Moura e Horta, os Vilhenas e os Cabrais. Antigamente, no século XVIII, não havia aqui mais nada nas redondezas, ou seja, eram só terrenos agrícolas. E os proprietários da maior parte dos terrenos agrícolas eram as famílias que habitavam nesta casa. Podemos considerar que efetivamente havia este monopólio de economia aqui centrada em São Silvestre.
Até quando é que o palácio pertenceu a essas famílias nobres? Como e quando é que o palácio foi parar às mãos do Grupo Louro Internacional?
A última habitante foi efetivamente a Dona Antónia, a famosa condessa. E quando deixou de habitar, este espaço entrou em decadência. No ano de 2000, o palácio foi adquirido - não por nós – e reconvertido nessa altura para a unidade hoteleira. Este espaço era para ter reaberto em 2004, mas não conseguiu. Então, a empresa Louro & Fajardo, que pertence ao grupo Louro Internacional - do qual nós fazemos parte - adquiriu este espaço em 2018 e conseguimos reabrir o hotel pelas nossas mãos em 2019, o que correu muito bem.
"O hotel esteve fechado 18 anos, sem qualquer habitante, sem qualquer manutenção"
Em que estado estava o palácio na altura em que passou para as mãos do grupo?
O espaço estava com muitas ruínas. Já existia esta ampliação para unidade hoteleira e já havia a segmentação entre quartos e suítes. Mas não havia mobiliário, nem recheio. Além de toda a parte de mobiliário, fizemos também muitas reparações ao nível de pinturas, porque o hotel esteve fechado 18 anos, sem qualquer habitante, sem qualquer manutenção. Também nos deparámos com alguma humidade, infiltrações, ou seja, tivemos de fazer grandes reparos. E também ao nível de jardinagem.
Como correu a requalificação do hotel quando o adquiriram? Que elementos arquitetónicos perduram no tempo?
Neste caso, o hotel conseguiu manter a fachada principal. Temos ainda dois brasões que conseguimos manter, o que faz parte de toda a arquitetura. Temos um teto maravilhoso e trabalhado que também faz parte. Temos ainda na nossa suíte João de Ruão, onde está o jacuzzi, a parede com pedras que antigamente estavam a segurar um ferro que fechava um portão. Portanto, essas pedras mantêm-se e foram enquadradas naquela suíte, o que resultou muito bem.
Temos também a parede de pedra, que faz a ligação entre a parte nobre que já existia e a ampliação, onde estão os novos quartos. Além disso, mantivemos ainda uma cozinha antiga, que na altura era a cozinha da condessa, que está mesmo junto àquela parede, a qual possui uma pequena janela da cozinha. Também as chaminés já existiam, tendo sido requalificadas mantendo-se as de origem.
Vamos ter brevemente disponível a nossa capela, que também mantém os traços existentes, como o altar. Foi muito bom termos conseguido aproveitar estes elementos que já existiam e enquadrá-los na perfeição agora neste hotel.
"Na decoração, quisemos puxar por algum requinte e adotar um estilo mais contemporâneo para criar este ambiente de realeza no palácio"
A identidade histórica e cultural do Palácio São Silvestre também foi reforçada pela decoração de interiores. De que forma?
Na decoração, quisemos puxar por algum requinte e adotar um estilo mais contemporâneo para criar este ambiente de realeza no palácio. E é este ambiente que as pessoas sentem quando cá vêm, é isso que procuram, sofisticação, e sentirem-se reis e rainhas por um dia.
É essa a experiência de alojamento de luxo que pretendem dar aos vossos hóspedes?
Nós pretendemos dar uma experiência completa a todas as pessoas que nos visitam, desde logo ao nível do alojamento. Temos várias tipologias de quartos e suítes que permitem isso mesmo: temos desde os quartos nobres que se enquadram na ala nobre do hotel (que já existia) até aos quartos ‘Deluxe’, que têm uma decoração um pouco mais moderna e que estão enquadrados na ala nova ala.
Temos ainda as nossas suítes, onde a decoração representa diferentes ambientes e histórias antigas. Por exemplo, temos a suíte da Condessa, onde recriamos o quarto da condessa, para que quem lá fique se sinta uma condessa, uma rainha, uma pessoa especial por um dia. Na suíte Francisco e Antónia, toda a decoração está em volta deste ambiente, deste glamour, deste amor vivido entre os dois. A suíte João de Ruão, é a nossa melhor suíte, que tem um jacuzzi enorme, um teto de pedra original muito bonito e uma decoração inspirada no famoso arquiteto-escultor, que quisemos homenagear, até porque é autor do retábulo da Virgem e do Menino que aqui existia. Esta suíte inclui na sua decoração uma imagem desse retábulo, sendo que o original está hoje no Museu Machado de Castro. Todos estes elementos conferem uma vivência única a nível de experiência enquanto alojamento.
"Temos uma vinha, que permite ter uma experiência de vindima"
Fale-nos dos espaços de lazer e bem-estar que oferecem no palácio.
Pretendemos aliar à experiência do alojamento, também a gastronomia e o bem-estar. Temos o nosso restaurante, o “Palativm”, no qual o chef Telmo Jegundo cria pratos que pretendem recriar as iguarias do passado, mas com um nova roupagem e apresentação. Além disso, temos a nossa ‘Sanvs Clinic’, uma clínica de bem-estar, estética e emagrecimento, com equipamentos de alta tecnologia, onde os hóspedes podem fazer um conjunto de tratamentos e sair daqui rejuvenescidos.
Além disso, temos também a nossa piscina exterior (quer para adultos, quer para crianças), um campo de padel, um campo de ténis…. Temos uma vinha, que permite ter uma experiência de vindima aqui, sendo que nós fazemos a vindima e a produção de vinho. Ou seja, as pessoas que vêm para cá conseguem desfrutar não só da qualidade do nosso serviço e do bem receber, mas também de todos estes serviços adicionais e complementares, além dos espaços exteriores.
O que ainda falta fazer no Palácio de São Silvestre? O que estão a planear para o futuro?
Naturalmente, quem nos visita desde 2019 está à espera de inovações e é isso que queremos oferecer. Estamos sempre à procura de melhorar a sua experiência, de superar, de surpreender. Então, no imediato, vamos ter aqui uma remodelação completa da nossa ‘Sala do Paço’, onde fazemos eventos de todo o tipo, como casamentos, batizados, jantares de grupo e também reuniões e congressos ao nível corporativo. Este ano fizemos obras de raiz também na nossa ‘Sanvs Clinic’. Vamos ainda fazer uma remodelação no restaurante e vamos construir de raiz o nosso SPA no curto-médio prazo.
"No verão trabalhamos mais com o mercado de lazer e no inverno trabalhamos mais com o mercado corporativo"
Como avaliam procura turística no palácio desde a sua abertura? Qual é o tempo médio de estadia? Em que intervalo de preços está o alojamento que oferecem?
Felizmente temos tido uma grande procura. Aliás, não temos sentido muita sazonalidade. No verão trabalhamos mais com o mercado de lazer e no inverno trabalhamos mais com o mercado corporativo. Felizmente, conseguem-se completar e tem funcionado muito bem, pelo que conseguimos ter uma taxa de ocupação bastante elevada todo o ano.
Neste momento, estamos um tempo médio de estadia de 1,7 noites, o que significa que os hóspedes ficam entre uma e duas noites. Temos preços que conseguem ir ao encontro de todas as necessidades, quer seja em época alta, quer seja em época baixa. Temos preços que começam nos 60 euros por noite, conseguindo atrair empresas. Depois, em época alta, as tarifas são um pouco superiores e aí já estamos na faixa dos 150 euros. Existe aqui esta diferenciação, pelo tipo de mercado e de procura que existe.
Quem é que mais vos procura no verão?
No verão temos um mercado de lazer, procurado não só por casais, mas também por famílias com filhos. Não somos o chamado turismo de massas. Como só temos 41 quartos, permitimos que as pessoas efetivamente descansem. Apostamos muito também no mercado familiar, uma vez que além das piscinas para adultos e crianças, também temos o nosso parque infantil no exterior e um ‘kids club’ no interior do hotel. Esta oferta ajuda a atrair casais com filhos, que sentem aqui o conforto de usufruir de uma vila descansados, aprovando as férias sem pressas, o que é muito importante. Sentimos que é isso que as famílias procuram. Portanto, querem fugir um bocadinho daquele turismo de massas que se vive no verão e acabam por vir para aqui. Além disso, conseguem ir à praia, visitar o Portugal dos Pequenitos, fazer visitas culturais a Coimbra, Montemor-o-Velho, Figueira da Foz… Estamos muito bem localizados, o que permitem que a experiência seja completa mesmo durante o verão.
"Existe uma crise, mas não para o turismo de luxo"
Quais são os principais desafios que destaca para o turismo de luxo em Coimbra?
Quando iniciámos o projeto, em 2019, estava a correr muito bem. Mas depois veio a Covid-19, o que acabou por abalar o projeto. Felizmente conseguimos reerguer-nos, reinventamo-nos e viemos com mais força. Apesar de ter sido uma caminhada um pouco trabalhosa, o trabalho neste momento começa a dar bastantes frutos. Sentimos que este turismo de luxo regressa, está em grande força. É um nicho que nos procura e que nos satisfaz, que reconhece o valor que agregamos a cada experiência. Portanto, acho que está a correr muito bem. Ou seja, existe uma crise, mas não para o turismo de luxo propriamente dito.
O grupo Louro Internacional tem mais hotéis em Coimbra ou noutras localizações?
O grupo Louro Internacional agrega aqui um conjunto de empresas bastante distintas nas suas áreas de atuação. Além do hotel Palácio São Silvestre, o grupo adquiriu a Quinta da Pintora em Cantanhede em 2023, tendo aberto em 2024, enquanto uma quinta de eventos completamente remodelada com capacidade até 490 pessoas. Além desta parte da hotelaria e de restauração, o grupo tem outras áreas empresariais, nomeadamente a Globalkiln, que é uma empresa de refratários com grande expressão a nível nacional e internacional. Na verdade, a empresa Louro & Fajardo é a detetora do edifício do hotel, trabalhando mais com a parte da construção civil, bem como com a venda de edifícios e casas.
"Consideramos que nos tornamos uma mais-valia, que agregámos valor aqui à própria vila de São Silvestre"
A conversão de antigos palácios em hotéis é tendência em Portugal? Porquê? Que vantagens traz para as economias locais?
Acho que efetivamente é tendência, e ainda bem. Porque senão o que é que faríamos a tantos espaços que já foram habitados e que já foram tão importantes para a história do país? Portanto, ainda bem que assim é, sendo que reabilitar os espaços é uma oportunidade para os tornar mais bonitos. Quando esta quinta estava ao abandono, as pessoas não vinham até São Silvestre, porque era um espaço triste, feio, abandonado. E, neste momento, consideramos que nos tornamos uma mais-valia, que agregámos valor aqui à própria vila de São Silvestre e todos ganhamos com isto.
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