C.A.S.A.: quando a solidariedade se transforma em ação no terreno

Trabalhadores pobres, famílias monoparentais, idosos ou sem-abrigo estão no foco desta instituição que ajuda na habitação, e muito mais.
distribuição de comida pela C.A.SA.
C.A.SA. Madeira

Em Portugal, falar de pobreza e exclusão social continua a ser falar de uma realidade que muitas vezes permanece invisível. É precisamente nesse espaço, entre as dificuldades que não se veem e as histórias que raramente chegam às notícias, que atua a C.A.S.A. Centro de Apoio ao Sem Abrigo. A instituição tem como missão algo aparentemente simples, mas profundamente transformador: colocar em prática o “bom coração” e a bondade através de ações concretas que devolvam dignidade a quem mais precisa. E dar respostas na área da habitação surge, atualmente, como uma das prioridades: não só para situações de sem-abrigo, mas cada vez mais para famílias que têm trabalho ou idosos com pensões, mas que não conseguem suportar todos os gastos.

À frente da organização está Sílvia Ferreira, coordenadora da C.A.S.A. Madeira. Ao idealista/news explica que o objetivo da instituição vai muito além de responder à falta de bens essenciais. “Não falamos apenas de carência material. Muitas vezes estamos perante situações de exclusão social profunda”. Na prática, isso significa apoiar pessoas no acesso a direitos fundamentais como alimentação, alojamento, saúde, apoio psicológico ou educação, além da habitação. 

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Qual é hoje o principal papel do C.A.S.A. na sociedade portuguesa?

distribuição de comida pela C.A.SA.
C.A.SA. Madeira

Segundo a responsável, o trabalho da instituição assenta, sobretudo, na promoção da dignidade humana. A sua missão passa por garantir que ninguém fica para trás, dando prioridade a pessoas em situação de sem-abrigo ou famílias em risco social. Em paralelo com a resposta imediata a necessidades básicas, a C.A.S.A procura também criar condições para que cada pessoa possa recuperar autonomia e reconstruir o seu projeto de vida.

No terreno, isto traduz-se num trabalho diário feito por equipas técnicas e voluntários que procuram oferecer um acolhimento humanizado, sem julgamentos. O respeito pela história de vida de cada pessoa é, garante a porta-voz, considerado essencial para construir uma relação de confiança e iniciar um processo de reintegração social.

Como funciona a distribuição de alimentos e quem recebe apoio?

Um dos pilares da atuação da C.A.S.A. continua a ser o apoio alimentar. Atualmente, a instituição acompanha mais de 280 famílias, o que corresponde a cerca de 640 pessoas, através da entrega regular de cabazes alimentares. Os alimentos chegam, na sua grande maioria, através de doações, excedentes de superfícies comerciais e parcerias com empresas, numa lógica que também ajuda a combater o desperdício alimentar.

A seleção das famílias não é feita de forma aleatória. Cada situação passa por um diagnóstico social realizado por assistentes sociais, que avaliam fatores: 

  • rendimento do agregado,
  • presença de crianças ou idosos,
  • situações de crise súbita, como desemprego ou risco de despejo. 

Apesar disso, garantem que quando surgem situações urgentes, a resposta pode ser imediata, mesmo que o agregado que necessita apoio ainda não esteja integrado no programa regular de apoio.

voluntários da C.A.SA.
C.A.SA. Madeira

Co-Abrigo, projeto de habitação partilhada para ajudar a recuperar autonomia e estabilidade

Nos últimos anos, a instituição tem procurado desenvolver projetos que vão mais longe do que a resposta de emergência. Um dos exemplos mais relevantes é o projeto Co-Abrigo, um modelo de habitação partilhada criado para ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade a recuperar a autonomia e a estabilidade.

Neste espaço, os residentes vivem num ambiente semelhante ao de uma estrutura familiar e são incentivados a gerir o quotidiano, as despesas e a organização da casa. O projeto tem ainda uma particularidade importante: permite que os residentes mantenham os seus animais de companhia, algo que pode ser determinante para o bem-estar emocional de muitas pessoas.

O impacto positivo desta iniciativa levou também ao desenvolvimento de um novo projeto na Madalena do Mar, que pretende cruzar habitação com atividades culturais e artísticas. Teatro, pintura ou música passam a ser ferramentas de inclusão social e de recuperação da autoestima.

Quem são hoje as pessoas que mais procuram ajuda?

O perfil de quem bate à porta da instituição tem mudado de forma significativa. Se antes o apoio estava mais associado a pessoas em situação de sem-abrigo, hoje cresce o número de famílias que, apesar de terem trabalho, não conseguem suportar o custo de vida.

Entre os casos mais frequentes estão os chamados trabalhadores pobres, pessoas com emprego, mas cujo salário é insuficiente para pagar renda, alimentação e despesas básicas. Também são comuns as famílias monoparentais e os idosos com pensões baixas, que enfrentam dificuldades crescentes para acompanhar o aumento do custo de vida.

Outro fenómeno preocupante identificado pela instituição é o aumento do consumo de drogas sintéticas entre pessoas mais jovens, nomeadamente substâncias como o bloom, que têm provocado uma deterioração física e mental muito rápida e contribuído para situações de rutura familiar na Região Autónoma da Madeira. 

A crise da habitação está a agravar as situações de vulnerabilidade?

Para a C.A.S.A., o acesso à habitação tornou-se hoje um dos principais fatores de exclusão social. Em muitos casos, a renda ou a prestação da casa representa mais de metade do rendimento mensal de uma família. Quando isso acontece, qualquer imprevisto pode colocar o agregado em risco de perder a habitação.

Perante estas situações, a instituição tenta intervir de várias formas: desde a mediação com senhorios até ao apoio alimentar. Ao garantir alimentação regular, por exemplo, muitas famílias conseguem libertar parte do orçamento para pagar a renda ou evitar um despejo.

Como pode a comunidade ajudar?

Grande parte do trabalho da instituição só é possível graças ao apoio da comunidade. As campanhas de recolha de alimentos continuam a ser uma das formas mais visíveis de participação, mas não são a única. Qualquer pessoa pode fazer donativos, colaborar como voluntário ou apoiar através de parcerias empresariais.

Atualmente, a C.A.S.A. conta com cerca de 95 voluntários, que asseguram tarefas essenciais como a recolha de alimentos, a organização de cabazes ou a distribuição de refeições. A rede de parcerias com empresas e instituições públicas também desempenha um papel fundamental para garantir a sustentabilidade da missão.

Uma mensagem sobre solidariedade

distribuição de comida pela C.A.SA.
C.A.SA. Madeira

Para Sílvia Ferreira, cada pessoa apoiada pela instituição está a travar uma luta diária para recuperar a sua identidade e dignidade. Por isso, a solidariedade não deve ser vista como um gesto isolado, mas como um compromisso coletivo.

No fundo, a mensagem é simples: quando uma comunidade decide envolver-se e apoiar quem mais precisa, não está apenas a ajudar indivíduos em dificuldade, está também a construir uma sociedade mais justa, mais humana e mais consciente das desigualdades que ainda persistem.

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