As famílias vão continuar a comprar casas em Portugal ao longo de 2026. Mas a subida do investimento em habitação vai abrandar – e muito – face ao ano passado, antecipa o Banco de Portugal (BdP). Este travão é explicado, do lado da oferta, pela escassez de casas e elevados custos da construção. Também o abrandamento da procura previsto terá impacto, uma vez que as famílias deverão ter menos poder de compra e rendimento disponível devido à potencial subida da inflação gerada pela guerra no Irão. Por outro lado, o contexto de incerteza vai incentivar a poupança.
O Boletim Económico de março do BdP estima que o investimento privado em habitação – dado pelo indicador económico Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) – deverá desacelerar muito nos próximos anos. “A FBCF privada em habitação deverá crescer 2,6%, em média, em 2026–28, após aumentos fortes em 2024–25 (5,6%, em média)”, prevê o regulador.
Isto quer dizer que as famílias vão continuar a investir em casas, mas prevê-se um grande travão ao seu crescimento. Mas porquê? “Do lado da oferta, persistem obstáculos relacionados com os prazos de licenciamento morosos, os custos de construção elevados e a escassez de mão de obra”, assinala o supervisor.
Algumas destas questões que tocam a construção de casas poderão vir a ser melhoradas com a entrada em vigor do pacote fiscal do Governo, que trará a redução do IVA para 6% e simplificação dos licenciamentos, por exemplo. Por outro lado, o custo da construção de casas poderá aumentar ainda mais no país, caso o conflito no Médio Oriente se prolongue (por via do preços dos materiais), e poderá até colocar empreendimentos em 'standby', tal como antecipam especialistas ao idealista/news.
Procura de habitação afetada por menor subida dos rendimentos
Também na procura de habitação estão previstas alterações. “O impulso associado à procura acumulada por satisfazer nos últimos anos será contrabalançado pelo abrandamento do rendimento disponível e da população, e pelo aumento dos custos de financiamento [a Euribor e swaps estão a subir desde o início do conflito podendo ter impacto já nos créditos habitação novos e existentes em abril]”, antecipa ainda o regulador liderado por Álvaro Santos Pereira.
Aqui também entra o impacto da guerra no Irão nos bolsos das famílias, que gerou um choque energético global e fortes aumentos nos preços dos combustíveis em Portugal. “O agravamento das tensões geopolíticas e a subida temporária da inflação em 2026 [para 2,8%] deverão ter um impacto negativo sobre o poder de compra e implicar uma deterioração da confiança dos consumidores”, prevê o BdP.
É por isso que estima que o rendimento disponível real deverá crescer, em média, 1,5% em 2026 (menos que em 2025 quando foi de 3,4%), “num contexto de desaceleração do emprego e dos salários reais por trabalhador, e de ausência de medidas adicionais de apoio ao rendimento das famílias”, lê-se no o boletim divulgado esta quarta-feira, dia 25 de março. Para já, as famílias contam com desconto de imposto no preço dos combustíveis, mas o Governo admite avançar com novos apoios para atenuar as consequências do atual conflito caso se justifique.
Mas há um indicador que vai sair beneficiado deste contexto incerto. “A taxa de poupança deverá permanecer acima da média pré-pandemia ao longo do horizonte (11,7%, em média, em 2026-28, face a 9,3% no período 2000–19)”, indica o banco central. Este comportamento vai refletir múltiplos fatores, entre os quais o nível atual das taxas de juro, que sustenta incentivos ao aforro (...) e a elevada incerteza — acentuada pelos desenvolvimentos geopolíticos recentes — que incita a poupança por motivos de precaução. Para algumas famílias, a poupança poderá estar a ser potenciada pela intenção de comprar casa, num quadro de deterioração da acessibilidade à habitação”, acrescenta.
Se o conflito no Médio Oriente se prolongar ou intensificar, o BdP admite que poderá haver “novas subidas de preços das matérias-primas, aumentar a incerteza global e a volatilidade dos mercados financeiros e gerar disrupções nas cadeias de abastecimento. “Neste cenário, a confiança dos agentes económicos deteriora-se, podendo levar ao adiamento ou cancelamento de decisões de investimento, ao aumento da poupança por motivos de precaução e à exigência de prémios de risco mais elevados, reduzindo o preço dos ativos e aumentando os custos de financiamento”, conclui.
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