Todas as quintas‑feiras o idealista/news vai à procura das casas mais deslumbrantes que te fazem sonhar mas, desta vez, não há piscinas infinitas nem penthouses com vista para o mar. Hoje a viagem é até Santo Tirso, no distrito do Porto, onde há silêncio, luz e pedra.
Voltada para a paisagem do Minho, a Casa da Encosta mostra como uma moradia pode nascer quase em sussurro, deixando que seja o terreno a ditar o desenho. Projetada pelo Atelier Ricardo Azevedo, esta casa integra a lista de nomeadas para o Prémio Obra do Ano (Building of the Year) 2026 da ArchDaily, como uma das obras residenciais mais significativas do ano.
A Casa da Encosta é, antes de mais, uma resposta direta à geografia do lugar. Implantada num terreno inclinado, não tenta impor uma forma à paisagem: deixa‑se moldar por ela. A topografia não é obstáculo, é matriz de projeto. O volume assenta de forma linear, térrea, pousado levemente sobre o solo, acompanhando o declive suave em direção à paisagem do Minho.
Aqui, a luz dita o ritmo dos dias. Entra devagar, rasando o mármore do chão, aquecendo a madeira, atravessando as cortinas antes de chegar aos espaços interiores. É com este tempo lento e silencioso que começa um dia nesta casa de Santo Tirso.
A relação com a encosta define toda a lógica espacial. O volume fragmenta‑se em plataformas que seguem o declive natural, criando uma sequência de espaços interligados que se desdobram de forma orgânica. Esta estratégia reduz o impacto da construção no terreno e, ao mesmo tempo, permite que cada espaço tenha um enquadramento visual próprio sobre a paisagem envolvente.
Chegamos antes de entrar. O acesso à casa faz‑se de forma gradual, quase coreografada: um percurso com ritmo próprio, uma cobertura que acolhe e orienta, uma oliveira que marca o limiar entre o exterior que é de todos e o interior que passa a ser apenas de quem lá vive.
A casa começa a revelar‑se em camadas, alternando momentos de compressão e abertura. Este jogo prolonga‑se no interior, onde as zonas sociais se abrem generosamente ao exterior, enquanto os espaços privados se resguardam, garantindo intimidade.
Nesta propriedade, a sala é um convite a ficar. O jardim entra pelo vidro, a luz da tarde instala‑se e ninguém parece ter pressa de sair. O corredor funciona como um relógio natural e a escada de madeira não é um simples elemento funcional.
Os quartos mantêm a distância certa do mundo: procuram a paisagem, mas sem se exporem em demasia, guardando a intimidade de quem ali vive.
A construção assenta numa organização simples e em materiais ainda mais simples, usados com rigor e intenção. A volumetria procura o sol e a melhor exposição, seguindo uma lógica racional e funcional, estruturada por circulações horizontais que ligam áreas sociais, zonas de descanso e espaços de lazer ou apoio.
A casa abre‑se ao exterior através de um amplo relvado verde, criando sobreposições de percursos e superfícies. O vidro e o alumínio surgem como elementos de leveza e clareza, enquanto o betão e as superfícies pintadas funcionam como suporte e estrutura, ao serviço de uma forma de habitar calma e familiar.
O betão aparente aparece como elemento estruturante e expressivo, dando solidez e continuidade aos volumes e ecoando a natureza mineral do terreno. A pedra natural, usada em muros e planos exteriores, reforça a sensação de que a casa emerge da própria encosta.
Em contraste, a madeira traz calor e escala doméstica, presente em pavimentos, revestimentos e carpintarias, suavizando a rigidez dos materiais mais pesados.
No interior, superfícies em reboco pintado de tons neutros ampliam a luz natural e criam um pano de fundo sereno para o quotidiano, onde a vida – e não a arquitetura – é protagonista.
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