Os créditos habitação em Portugal vão continuar a ficar mais caros ao longo de 2026, perante o contexto internacional incerto marcado pela guerra no Médio Oriente, a qual tem escalado nas últimas semanas. É isso mesmo que preveem os analistas de mercado, projetando subidas das taxas Euribor até ao final do ano. Por isso, quem tem um empréstimo habitação - ou vai contratar um - deve preparar-se para pagar prestações da casa mais elevadas. O cenário só deverá mudar em 2027, quando se preveem descidas das taxas Euribor.
No início de julho, a Euribor a 12 meses estava a cair muito em termos diários. Mas o recente fracasso das negociações de paz entre os EUA e o Irão para pôr fim ao conflito no Médio Oriente provocou mais uma escalada tensões e incerteza nos mercados financeiros, levando o indicador a atingir esta quinta-feira (dia 23 de julho) um novo máximo desde outubro de 2024 (2,947%). Agora, a média provisória de julho da Euribor a 12 meses está em 2,809%, o nível mais alto desde setembro de 2024 (a média mensal de junho foi de 2,798%, tendo descido ligeiramente).
A mesma trajetória diária foi observada na Euribor a 6 meses – a mais utilizada em Portugal nos contratos a taxa variável. Isto é, no início de julho desceu muito e voltou a subir quando as tensões no Golfo Pérsico dispararam. Agora, a Euribor a 6 meses apresenta uma média mensal provisória em torno de 2,6%, valor semelhante à registada em junho (2,596%). Mas o mês ainda não acabou.
Esta renovada incerteza em torno do conflito no Médio Oriente levou o BCE a agir com cautela, mantendo os juros diretores inalterados na reunião desta quinta-feira. Até porque precisa de avaliar o impacto dos novos aumentos dos preços da energia na inflação e ainda como o aperto dos juros decidido em junho está a ser transmitido à economia europeia. "A incerteza continua a ser elevada e o impacto inflacionista total do choque energético ainda não se fez sentir", indicou o Conselho do BCE em comunicado, acreditando estar "bem posicionado para navegar a incerteza provocada pelo conflito".
A manutenção dos juros do BCE em julho já era amplamente esperada pelos analistas de mercado, pelo que “não se preveem mudanças significativas [nas taxas Euribor] durante o verão”, até porque os “bancos já reviram os juros em alta”, analisa Miguel Cabrita, responsável pelo idealista/créditohabitação em Portugal. Mas avisa que “os mutuários com créditos habitação a taxa variável — assim como aqueles com contratos a taxa mista cujo período fixo está prestes a terminar — vão ver suas prestações mensais aumentar devido à diferença nas taxas em relação ao ano passado”.
Euribor em alta até ao final do ano – 2027 trará alívio
O que os analistas também já antecipam é que haverá um novo aumento dos juros do BCE em setembro, na ordem dos 25 pontos base, para travar a inflação e devolvê-la à meta de 2% no médio prazo. Se se confirmar, a taxa dos depósitos ficaria em 2,5% e voltaria a influenciar em alta a Euribor.
Nesse contexto, os analistas do Bankinter reviram em alta as suas projeções, prevendo agora que a Euribor a 12 meses vá oscilar entre 2,65% e 2,75% durante o resto do ano e cair para 2,55%-2,65% em 2027. Portanto, o banco prevê uma queda na taxa de juro dos empréstimos habitação só dentro de um ano e meio. Também a espanhola Fundação das Caixas Económicas (Funcas) atualizou recentemente suas previsões (em baixa), apontando para uma média anual da Euribor a 12 meses de 2,5% este ano e 2,4% em 2027.
Em ambos os casos, os níveis previstos para a Euribor em 2026 vão impedir que haja qualquer redução das prestações da casa nos créditos habitação a taxa variável, uma vez que a média anual para o prazo mais longo foi fixada em 2,22% em 2025, ou seja, 0,3 pontos percentuais abaixo do cenário mais otimista para este ano. Ao que tudo indica, só haverá reduções da Euribor em 2027, embora dependa da evolução do conflito no Médio Oriente.
Quanto podem subir as prestações da casa nos novos empréstimos da casa?
Com novas subidas da Euribor à vista até ao final do ano, o idealista/créditohabitação preparou um conjunto de simulações para perceber como é que as potenciais flutuações deste indicador podem impactar as carteiras das famílias que estão a pensar contratar um novo crédito habitação nos próximos meses.
Nestes cálculos foi considerado um empréstimo habitação de 150.000 euros, com prazo de 30 anos, spread de 0,7% e Euribor a 6 meses, que é atualmente a taxa mais a utilizada em Portugal nos novos contratos a taxa variável:
- se a Euribor a 6 meses subir dos atuais 2,596% (média mensal de junho) para 2,70%, as prestações mensais poderão passar de 656 euros para 665 euros (mais nove euros);
- e se a Euribor a 6 meses subir para 2,80%, as prestações da casa passariam a 673 euros, mais 17 euros face a quem contratou o crédito em julho de 2026 (que usa a taxa média mensal de junho).
- caso a Euribor a 6 meses suba para 2,90%, as prestações aumentariam para 681 euros, um acréscimo de 25 euros mensais face a um empréstimo assinado em julho.
Estas potenciais subidas da Euribor surgem numa altura em que o mercado de crédito habitação está mais exigente no país. Os bancos têm vindo a apertar os critérios de concessão de novos empréstimos da casa nos últimos meses e tudo indica que a tendência vai continuar no terceiro trimestre de 2026, segundo o mais recente Inquérito aos Bancos sobre o Mercado de Crédito divulgado pelo Banco de Portugal (BdP).
Isto pode ser explicado por chegar a 1 de agosto a nova recomendação macroprudencial do BdP, a qual vai reduzir o limite máximo da taxa de esforço de 50% para 45%, tornando mais difícil o acesso ao crédito habitação. Aliás, os mesmos dados do supervisor bancário notam que já há uma “ligeira redução” da procura por crédito habitação no país, perante a subida dos juros e altos preços das casas. Esta tendência também deverá continuar, pelo menos, até ao verão.
Quem quiser avançar com um crédito habitação neste contexto desafiante deve avaliar muito bem todas as opções de juros disponíveis, sendo que a mais utilizada no país continua a ser a taxa mista, que combina um período de juros fixos (geralmente curtos de 2, 3 ou 5 anos), seguindo-se de um período a taxa variável. Este tipo de taxa permite dar estabilidade e previsibilidade nas prestações da casa no curto prazo, numa altura em que incerteza é a palavra de ordem.
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