“O edifício do Muzeu foi pensado para a arte e vida pública”

José Carvalho Araújo, arquiteto responsável por desenhar o projeto do museu em Braga, em entrevista ao idealista/news.
Muzeu
José Carvalho Araújo, arquiteto do Muzeu

Longe da ideia de um espaço fechado sobre si próprio, o Muzeu foi desenhado para ser percorrido, habitado e descoberto, convidando quem o visita a entrar sem cerimónias e a construir a sua própria experiência. “Não procura reproduzir o passado nem competir com ele”, segundo explica o arquiteto responsável pelo projeto, José Carvalho Araújo, ao idealista/news. Neste quarteirão do centro histórico de Braga, tal como diz, a “arquitetura trabalha a “convivência entre permanência e transformação”. 

Mais do que um espaço para expor arte, o Muzeu – Pensamento e Arte Contemporânea dst, no centro de Braga, foi pensado como uma peça ativa da cidade, como “infraestrutura cultural aberta”. Trata-se de um espaço onde convivem fachadas preservadas, vestígios da muralha medieval e a vida quotidiana da vizinhança. 

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A luz, a simplicidade dos espaços, a relação com a envolvente urbana e a utilização de materiais como a telha de barro plana ajudaram a construir uma identidade própria, ao mesmo tempo discreta e reconhecível, capaz de acolher exposições, encontros e diferentes formas de programação cultural. O edifício foi concebido para ser acessível, aberto e disponível à transformação, de acordo com o arquiteto.

Nesta entrevista por escrito, José Carvalho Araújo explica as opções que moldaram o Muzeu, da integração do património existente à criação de novos espaços de encontro com a cidade. Uma reflexão sobre o papel da arquitetura na construção de um museu contemporâneo que pode ser, simultaneamente, lugar de arte, de pensamento e de vida pública.

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José Carvalho Araújo

O edifício como “primeira obra de arte”. O que é que queria que as pessoas sentissem ao entrar no Muzeu?

O edifício não é a primeira obra por ser mais importante do que as obras que recebe. É a primeira obra porque é o primeiro contacto que o visitante tem com o museu. Antes de encontrar qualquer exposição, a pessoa entra, orienta-se, percebe a luz, a escala, a matéria e o percurso. A arquitetura constrói essa primeira relação. No Muzeu interessava-nos que essa entrada não fosse intimidante.O edifício foi durante muitos anos um lugar associado à decisão e à autoridade. A transformação tinha de inverter essa condição. Queríamos que o visitante sentisse liberdade para entrar, percorrer, permanecer e descobrir o edifício ao seu próprio ritmo. Um edifício disponível para a arte, para o pensamento e para a vida pública.

Queríamos que o visitante sentisse liberdade para entrar, percorrer, permanecer e descobrir o edifício ao seu próprio ritmo.

Encontrou duas fachadas preexistentes e um troço da muralha medieval. Até que ponto essas “memórias” condicionaram ou inspiraram o desenho do Muzeu?

A intervenção constrói-se a partir daquilo que já existia. Não entendo essas pré-existências como obstáculos. Pelo contrário, procurámos tirar partido do significado desses elementos. O novo edifício desenvolve-se dentro dessa condição existente. A muralha, por exemplo, faz a transição entre a entrada e o espaço expositivo, enquanto que as fachadas preservam a memória do edifício. 

O projeto combina uma estética industrial com elementos muito poéticos e domésticos. Como procurou equilibrar essas duas dimensões?

O equilíbrio acontece através da simplicidade, da luz, da escala dos espaços e da relação entre a nova construção, a muralha e a cidade. O lado mais industrial surge da relação com o universo produtivo ligado ao mecenas e à coleção.

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Créditos: Gonçalo Lopes | idealista/news

O revestimento em telha de barro plana acaba por dar uma identidade muito própria ao edifício. Por que é que escolheu este material?

Antes da escolha do material existia a vontade de introduzir um novo volume capaz de estabelecer uma relação com as coberturas envolventes através da escala e da cor. A telha de barro plana surge como consequência dessa ideia, ajudando a integrar a nova intervenção na cidade e a reforçar o respeito pelas fachadas existentes. Este material é fundamental no enquadramento urbano para além de minimizar o impacto visto de cima. Não se limita à cobertura, mas também às empenas e aos pátios onde o volume é visível.

Há uma ideia muito forte de abertura do museu à cidade, nomeadamente através do auditório iluminado à noite. Que papel deve ter hoje um museu no espaço urbano?

Tem de participar na vida da cidade. O museu foi pensado como uma infraestrutura cultural aberta, capaz de receber diferentes formas de uso, encontro e programação. O auditório iluminado no topo do edifício representa precisamente essa relação recíproca com a cidade. É importante a luz que entra, mas também a que o museu devolve à cidade. O piso térreo foi pensado como um espaço que liga duas praças e cria uma terceira praça.

O museu foi pensado como uma infraestrutura cultural aberta, capaz de receber diferentes formas de uso, encontro e programação.

Referiu que não tentou desenhar o museu em função da coleção, mas sim da função de expor e criar dinâmica cultural. O que distingue um museu contemporâneo hoje em dia?

Disponibilidade, simplicidade e talvez capacidade de surpreender. Um museu contemporâneo distingue-se pela capacidade de permanecer disponível para transformação ao longo do tempo. No Muzeu procurámos criar espaços claros e simples, mas também capazes de surpreender pela sua dimensão quando se entra no edifício. Mais do que responder apenas a uma coleção específica, interessava-nos criar espaços capazes de acolher exposições, debates, performances, assembleias e programas ainda por inventar.

No Muzeu procurámos criar espaços claros e simples, mas também capazes de surpreender pela sua dimensão quando se entra no edifício. 

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Créditos: Gonçalo Lopes | idealista/news

Existe um pequeno pátio interior que revela as “entranhas” da cidade antiga e até os estendais das casas vizinhas. Por que é que era importante preservar essa relação quase íntima com o quotidiano?

A cidade real também faz parte do museu. Há toda uma vida à sua volta, com a vizinhança, os seus ritmos e as diferentes camadas urbanas presentes naquele quarteirão. O museu não termina nas suas paredes. Continua através das relações que estabelece com a cidade. São estas pequenas aproximações que se descobrem através de uma janela, de um pátio ou de um estendal.

O Muzeu parece afirmar-se como edifício contemporâneo sem apagar o passado do lugar. Como se trabalha esse equilíbrio entre intervenção nova e património?

A intervenção contemporânea assume o seu próprio tempo, mas reconhece a força histórica do edifício existente e da cidade onde se insere. O projeto não procura reproduzir o passado nem competir com ele. Como disse anteriormente, esse equilíbrio constrói-se através do respeito, mas sobretudo da simplicidade. A arquitetura trabalha precisamente nessa convivência entre permanência e transformação.

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