Mente e coração: o estúdio "barulhento e silencioso" da Casacor em São Paulo

Arquiteto Cyro Neto levou um espaço de 50m2 e uma pergunta difícil: de quanto é que uma casa precisa, afinal, para ser casa?
CYRO Arquitetura
Israel Gollino

O espaço mais pequeno e talvez o mais teimoso. É assim que se assume o estúdio Ruído Branco, 50 metros quadrados, com que a (CYRO) Arquitetura faz a sua estreia na 39.ª edição da CASACOR São Paulo, a maior mostra de arquitetura, design de interiores e paisagismo da América, que abriu ao público no dia 2 de junho.

A CASACOR São Paulo decorre em dois casarões históricos do Parque da Água Branca, na zona oeste da cidade. São cerca de 10.160 metros quadrados (m2) de área construída e perto de 70 ambientes assinados, todos obrigados a responder ao mesmo enunciado anual: "Mente e Coração", a ideia de pensar a casa como lugar de reencontro consigo.

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A pergunta que é a mais difícil de um evento sobre aquilo que ocupa os ambientes: afinal, o que é que se pode tirar? Cyro Neto usa o ruído branco, essa frequência contínua que abafa os sons em redor e devolve o foco, como método e não como decoração: planos limpos, luz indireta e vazios calculados para anular a saturação que vem de fora. "O espaço abdica da condição de objeto para se tornar estado. Um lugar onde a arquitetura se retrai para que a vida ocupe o centro", resume. Numa edição inteira dedicada à mente, ele escolheu desenhar o silêncio.

CYRO Arquitetura com Ruído Branco
Ruído Branco Israel Gollino

A estreia (e o que está em jogo)

Estrear na CASACOR São Paulo é uma marco importante. A mostra chega à 39.ª edição, repete pelo segundo ano consecutivo o Parque da Água Branca e divide a atenção entre nomes consagrados da arquitetura brasileira e estreantes que disputam, a metro quadrado, a memória de quem visita. O tema da edição "Mente e Coração" pede ambientes que acolham fragilidades e restaurem equilíbrios, e poucos enunciados encaixam tão bem numa proposta que parte da contenção. 

Em vez de competir pela quantidade de estímulos, o Ruído Branco de Cyro Neto aposta no contrário: ser o ambiente onde o visitante, depois de percorrer dezenas de cenários, finalmente baixa o ritmo. Uma aposta arriscada numa mostra que vive de impacto imediato ou a forma perfeita de chamar a atenção?

O "Ruído Branco como método de projeto

A metáfora que dá nome ao espaço é mais literal do que parece: o ruído branco é um som que preenche todas as frequências de forma constante, e é exatamente por preencher tudo que acaba por apagar os sobressaltos: o estímulo deixa de se destacar quando passa a ser fundo. Cyro Neto transporta esse princípio para o espaço. 

Ruído Branco
Ruído Branco Israel Gollino

Na prática, isso traduz-se em três decisões:

  • As paredes e o teto recebem uma camada de branco quase absoluto, que limpa o campo visual e multiplica a luz que entra. 

  • A iluminação é trabalhada de forma indireta, sem fontes que cravem a atenção num ponto. 

  • Os vazios, o pé-direito generoso deixado a respirar, fazem o trabalho que noutros projetos caberia ao mobiliário. 

O resultado pretende funcionar como um filtro sensorial, uma zona de silêncio montada de propósito contra a vida em permanente ligação ao mundo. 

Uma casa inteira em 50 metros

O exercício de síntese está todo na planta. Cyro Neto recusa tratar 50 metros quadrados como um estúdio acanhado e desenha-os como uma casa completa, com tudo aquilo a que uma vida obriga. Para o conseguir, secciona o espaço com dois volumes monolíticos de marcenaria em nogueira, dispostos de forma simétrica, que arrumam a casa em duas alas: a social e a íntima.

O Parque da Água Branca não é um cenário neutro. É um território de preservação histórica, com edifícios do início do século XX, e a (CYRO) Arquitetura decidiu não fingir que essa história não estava lá. Em vez de a apagar com acabamentos novos, o projeto deixa as marcas do edifício à mostra e usa-as como prova de autenticidade. O branco absoluto das superfícies não serve para encobrir o passado, serve para o fazer notar por contraste.

(CYRO)Arquitetura
Israel Gollino

A homenagem e o que fica quando se tira o resto

Há um detalhe que só revela o seu sentido a quem conhece a história da arquitetura brasileira. A alcatifa cor de caramelo que forra a plataforma da cama não é uma escolha apenas cromática: é uma citação. O tom remete para o pavimento da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, o edifício de Vilanova Artigas que é dos manifestos mais conhecidos do modernismo paulista. 

No final, o Ruído Branco devolve a pergunta com que começou. Se uma casa inteira cabe em 50 metros quadrados, e cabe sem aperto, então grande parte do que costumamos achar indispensável é, afinal, ruído. Cyro Neto não desenhou um espaço pequeno a fingir-se de grande. Desenhou um espaço que retira tudo o que não fizer falta até sobrar aquilo que importa, que no enunciado desta edição da CASACOR tem um nome simples: as relações entre quem ali vive.

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