O design não é produto final, mas um processo de escuta, de relação, de construção coletiva. Nesta visão atual, desenhar não é dar forma a uma solução técnica; é criar as condições para que uma comunidade se organize, respire e pense em conjunto.
Quando o design abandona a galeria e entra na praça, quando troca a autoria individual pela co-criação com quem habita o território, as suas ferramentas passam a ser o tempo, a permanência e o cuidado. E o resultado deixa de se medir em prémios ou publicações: mede-se nos parques redesenhados por crianças, nas bibliotecas comunitárias que continuam abertas, nas assembleias de bairro que não param. É uma forma de resistência silenciosa à lógica do descartável.
Uma bienal que recusa desaparecer
"Estamos aqui para provar que o tempo presente, quando cuidado coletivamente, cria infraestruturas emocionais e sociais que sobrevivem ao próprio evento". A afirmação de Magda Seifert, diretora executiva da Porto Design Biennale, é, sobretudo, um balanço mas também um manifesto. A quarta edição, "Time is Present: Designing the Common", com curadoria de Angela Rui e Matilde Losi, não se limitou a expor objetos ou a celebrar tendências. Decidiu, em vez disso, enraizar-se no território e deixar marcas que sobrevivam ao calendário do evento.
Numa época em que as bienais e os festivais se multiplicam a uma velocidade que, paradoxalmente, replica a mesma lógica consumista que dizem contestar, o Porto escolheu um caminho diferente. "Contrariamos a lógica do temporário que gasta recursos para depois deixar um vazio", resume Seifert. "Contrariamos a fadiga coletiva que nos faz acreditar que só conta o que é produtivo e vendável". A conclusão é simples, esta bienal recusa ser mais um evento de impacto imediato que evapora no dia seguinte ao encerramento.
"Hoje, o ato mais radical que o design pode fazer é criar infraestruturas emocionais e sociais que sobrevivam ao próprio evento"
“Não queremos voltar a bienais que acontecem dois meses e depois desaparecem. Queremos processos que continuem vivos e ativos, a andar sozinhos e de forma autónoma depois de nós”, sublinha a diretora executiva. "Hoje, o ato mais radical que o design pode fazer é criar infraestruturas emocionais e sociais que sobrevivam ao próprio evento".
Desenhar com as pessoas, não para as pessoas
Seifert reconhece que projetar o amanhã se tornou, em muitos contextos, uma forma confortável de adiar responsabilidades. "Projetar o futuro tornou-se, muitas vezes, uma forma de adiar a responsabilidade pelo agora", afirma. E recorre às palavras da curadora Angela Rui para reforçar a tese: "Se intuis este momento presente, estás em posição de ter um efeito genuíno na realidade que está perto de ti".
Um desses pontos de responsabilidade no presente já tem exemplos que já fazem parte da paisagem urbana do Porto e de Matosinhos. O caso mais emblemático é, talvez, o da Serpentina.
Trata-se de um movimento cívico local, promovido por Patrícia Costa e Maria João Macedo, que envolveu crianças e moradores na reimaginação do parque infantil do Largo Soares dos Reis, no Porto, transformando-o num espaço intergeracional.
O projeto, que começou antes da bienal, encontrou nela a plataforma que lhe faltava: hoje tem o aval do executivo municipal para se tornar realidade, com orçamento e parceiros definidos. "Quando as crianças dizem ‘este parque é nosso porque o desenhámos’, o espaço público deixa de ser abstrato e torna-se comum", observa Seifert.
Outro exemplo é a Comunoteca, um espaço de encontro e biblioteca comunitária que permanece aberto após o término da bienal, com os livros que foram lá deixados e com assembleias de moradores que continuam a acontecer.
Ou a Arena Viva, projeto de Paulo Moreira e ATA Atelier, que reimagina a praça de acesso à Casa do Design, em Matosinhos, convertendo-a num local de encontro e de atividades coletivas. Todos estes projetos nasceram sob a designação de Happisodes: iniciativas de co-design de longa duração, desenvolvidas em espaços públicos e pensadas para serem permanentes.
Na síntese de Seifert, o princípio é simples mas poderoso: "Designing the Common é parar de desenhar para as pessoas e começar a desenhar com elas, durante tempo suficiente para que a relação se torne numa infraestrutura viva". Pode não ser uma mudança global da cidade mas muda "a forma como algumas pessoas olham para o espaço público: deixaram de o ver como ‘do município’ e passaram a vê-lo como ‘nosso’. E isso é bonito e tem muito valor".
"Quando as crianças dizem ‘este parque é nosso porque o desenhámos’, o espaço público deixa de ser abstrato e torna-se comum"
Emoções como estrutura e resistência pela permanência
Uma das dimensões mais inesperadas desta bienal é o lugar central que atribui às emoções. Não como acessório estético ou estratégia de comunicação, mas como matéria estrutural do trabalho. Seifert é clara: "As emoções, aqui, não são ornamento: são estrutura". E acrescenta que a própria prática curatorial parte dessa premissa, recordando que "curar" (to curate) partilha a raiz etimológica com "cuidar". “Não é produção de conteúdo; é produção de relações”, resume.
Na Comunoteca e na Serpentina, essa lógica tornou-se evidente: as pessoas não participaram como visitantes passivos, vieram porque precisavam de um espaço para respirar, pensar e organizar-se. Assim como trabalhar fora do circuito institucional tradicional do design, com municípios, associações, cooperativas e movimentos de bairro. "O poder real está nas mãos das pessoas que ficam", afirma. Para Seifert, esta não é uma mera mudança de linguagem. "É a única forma de trabalhar num mundo esgotado", diz, citando Angela Rui. "E é político".
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