O melhor entretenimento de verão para uma criança pode ser o mais simples: uma macaca desenhada a giz, as escondidas até anoitecer ou os berlindes na terra, brincadeiras que enchem tardes inteiras sem custar um cêntimo. E há as noites longe das luzes da cidade, a ver pirilampos ou a chuva de estrelas sob o céu escuro de Alqueva. Antes de ligares o ecrã para ganhar dez minutos de sossego, talvez valha a pena começar por aqui.
Reduzir o tempo de ecrã dos miúdos nas férias não tem de ser uma guerra. Não se trata de proibir, mas de encher os dias com alternativas suficientemente boas para que o telemóvel deixe de ser a primeira escolha. Brincar ao ar livre e sem tecnologia melhora o sono, estimula a criatividade e aproxima a família, e um verão com menos ecrãs acaba por ser tempo melhor investido.
Como ocupar as crianças nas férias de verão?
O erro mais comum é passar de uns dias sem regra nenhuma para um plano rígido ao minuto. Nem uma coisa nem outra funcionam. O que resulta é uma rotina leve, com âncoras fixas e muito espaço livre pelo meio.
- Manhã ao ar livre: enquanto o sol ainda não aperta, parque, praia, bicicleta ou jogos no quintal.
- Tarde mais calma: nas horas de calor, atividades de interior e uma sesta para os mais pequenos.
- Fim de tarde de novo lá fora: para gastar a energia acumulada antes do jantar.
- Noite com um ritual simples: uma história, um jogo de tabuleiro, uma conversa.
- Envolve as crianças: deixa-as escolher uma atividade e aceita que nem todas as horas têm de estar preenchidas.
- O tédio faz parte do plano: é dele que costuma nascer a melhor brincadeira da tarde.
Para as semanas em que os pais trabalham e os filhos estão de férias, há ainda duas ajudas que não passam por ecrãs:
Os campos de férias, que muitas autarquias, clubes e associações organizam no verão, ocupam os dias com desporto, natureza e convívio e dão às crianças a companhia de outras da mesma idade.
As agendas culturais das câmaras municipais e das juntas de freguesia costumam encher-se de oficinas, contos, cinema ao ar livre e festas, quase sempre gratuitos. Vale a pena consultar o site da câmara do teu concelho antes de cada semana.
O que fazer com crianças sem usar ecrãs: jogos tradicionais
Os jogos com que os avós cresceram têm uma vantagem enorme: não precisam de bateria e funcionam em qualquer lado. Ensiná-los aos filhos tem ainda um bónus, porque as crianças adoram ouvir que a mãe ou o pai jogavam àquilo à idade delas. Alguns clássicos que continuam a resultar:
- Carica: desenha uma pista a giz no chão e cada jogador conduz a sua carica à meta com o impulso dos dedos sem sair das linhas.
- Macaca, apanhada e escondidas: só pedem um chão, um giz e vontade de correr.
- Jogo do lenço e jogo das cadeiras: perfeitos para grupos, gastam energia e provocam gargalhadas.
- Berlindes: um círculo desenhado a giz e a velha coleção da gaveta chegam para uma tarde inteira.
- Telefone estragado e cadáver esquisito: uma frase que se sussurra ao ouvido e vai mudando, ou uma história que cada um escreve num papel dobrado. O resultado acaba sempre em risada.
- Stop e jogo do galo: um papel e uma caneta bastam. Esconde um jogo do galo pela casa para a família o ir descobrindo ao longo da semana.
Ideias de brincadeiras ao ar livre
No verão, a natureza é o melhor parque infantil que existe, e a maioria das ideias não custa nada:
- Caça ao tesouro: esconde objetos e desenha um mapa com pistas. Ao ar livre, o tesouro pode ser encontrar folhas de formas invulgares, pedras ou flores.
- Jogos de água: balões de água, esponjas, um pulverizador ou uma piscina insuflável entre duas equipas transformam o quintal num campo de batalha refrescante.
- Desporto em família: uma bola, uma corrida de obstáculos improvisada ou um baloiço de corda bem preso a uma árvore robusta.
- Arte com elementos naturais: colagens e pequenas construções com paus, folhas, conchas e pedras apanhadas no passeio.
- Piquenique e leitura ao sol: uma refeição simples numa toalha estendida e um livro lido ao fim da tarde no parque ou no quintal.
- Céu de verão: ver pirilampos num sítio arborizado e pouco iluminado, ou deitar-se numa manta a apreciar as estrelas, sobretudo em agosto, quando surge a chuva de estrelas.
- Passeio de bicicleta: por uma ecopista, uma caminhada curta por um percurso de passadiços à beira-rio ou uma tarde a aprender a andar de patins ou de trotinete, sempre de capacete.
Atividades para crianças dentro de casa
Há horas do dia, entre o meio-dia e o meio da tarde, em que sair ao sol não é recomendável. São o momento ideal para atividades de interior que ocupam as mãos e a cabeça:
- Cozinhar em conjunto: amassar, mexer e decorar um bolo, ou fazer um bolo na caneca no micro-ondas em cinco minutos, junta diversão e lanche.
- Trabalhos manuais: plasticina caseira, pulseiras de linha, molduras para as fotografias preferidas, brinquedos feitos com rolos de papel.
- Faz de conta: montar uma cabana com lençóis e cadeiras, ensaiar uma peça de teatro ou um teatro de fantoches para mostrar à família ao jantar.
- Jogos de tabuleiro e cartas: dos clássicos de raciocínio às cartas, ocupam uma tarde inteira e juntam todas as idades.
- Escrever e ilustrar: inventar uma história, desenhar um retrato da família, ou escrever uma carta a sério, com envelope e selo, e metê-la no marco de correio. Poucas crianças já receberam uma.
- Caderno de memórias: onde a criança vai colando bilhetes, conchas e desenhos do que fez cada dia, e que no fim do verão se transforma numa recordação que vale mais do que centenas de fotografias no telemóvel.
- Ida à biblioteca municipal: no verão tem atividades e é gratuita, ou uma visita a uma livraria para escolher um livro com calma.
Mais autonomia, menos tecnologias
Entreter sem ecrãs é, muitas vezes, dar às crianças um papel e alguma autonomia. As melhores ideias não são atividades avulsas, mas projetos com princípio, meio e fim:
- Dar responsabilidades: tratar de um vaso ou de uma pequena horta na varanda, ver uma planta crescer dia após dia, ajudar a preparar o jantar.
- Projetos que duram vários dias: montar uma pequena feira ou uma venda de garagem com os objetos que já não se usam, envolvendo os miúdos desde a organização até à venda.
- Ajustar à idade: aos mais pequenos, jogos sensoriais com água e areia; a partir dos cinco anos, jogos de regras e faz de conta; dos nove ou dez em diante, desafios, desporto e construções mais elaboradas.
- Encarregar os mais velhos: deixar o filho mais crescido organizar uma tarde de brincadeiras para os irmãos mais novos costuma ser um sucesso.
Um plano simples para simplificar
- Combinar regras antes de começar: e não a meio de uma discussão. Definir uma janela do dia para o ecrã, por exemplo depois do almoço, quando está mais calor, tira à criança a ansiedade de estar sempre a pedir.
- Dar o exemplo: uma criança rodeada de adultos agarrados ao telemóvel vai querer o mesmo. Se os pais também pousam o aparelho nas refeições e nas brincadeiras, a mensagem passa sozinha.
- Lançar um desafio offline: escolher um dia, talvez de fim de semana, em que toda a família desliga os aparelhos de manhã à noite. É mais fácil quando há um jogo de tabuleiro ou uma tarefa à mão para os primeiros resmungos.
- Aceitar o tédio: uma criança que não sabe o que fazer durante meia hora acaba quase sempre por inventar a melhor brincadeira do dia.
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