O choque energético provado pela guerra no Irão ameaça provar uma nova escalada da inflação na Europa. E todo este cenário tem criado uma grande incerteza nos mercados financeiros, que já antecipam novas subidas das taxas diretoras por parte do Banco Central Europeu (BCE). Toda esta instabilidade está a mexer com as taxas Euribor, que dispararam para níveis históricos podendo mexer com as prestações da casa já a partir do próximo mês.
As taxas Euribor já estão a reagir à incerteza existente nos mercados financeiros gerada pela guerra no Irão, que provocou um choque energético global. Antes do conflito, as taxas continuavam a estabilizar pouco acima de 2%, porque na altura esperava-se que o BCE iria manter os seus juros diretores estáveis nos próximos meses. Mas logo depois do início dos ataques dos EUA e Israel contra o Irão (a 28 de fevereiro), o indexante começou a subir de forma acelerada.
Na terça-feira, dia 10 de março, a Euribor a 12 meses atingiu os 2,552%, um novo máximo desde janeiro de 2025. Trata-se de um dos maiores aumentos diários registados desde o final de 1998. Nesse mesmo dia, também a Euribor a 6 meses – a mais utilizada no créditos habitação a taxa variável em Portugal – e a Euribor a 3 meses avançaram para 2,295% e 2,138%, respetivamente.
Mas o clima de incerteza continua a fazer das suas, com os mercados financeiros a reagir a cada avanço ou recuo neste conflito. Um dia depois de terem disparado, as taxas Euribor desceram com força a três, a seis e a 12 meses esta quarta-feira, dia 11 de março, para 2,122%, 2,173% e 2,369%, respetivamente. O Presidente dos EUA, Donald Trump, tem reforçado que a guerra contra o Irão "está praticamente concluída", afirmando que vai terminar em “breve”. Mas Teerão já veio dizer que não é Trump que dita quando termina a guerra.
Acontece que as recentes subidas diárias nas taxas Euribor em março já deverão refletir-se nas prestações da casa no próximo mês, porque vão influenciar em alta a média mensal do indexante que é utilizado quer para calcular as taxas variáveis nos novos créditos habitação, quer para atualizar as prestações nos empréstimos existentes (caso a revisão seja em abril).
Até porque esta tendência de subida da Euribor poderá alongar-se durante todo o mês de março. "Tudo depende do prolongar e do agravar do conflito nas próximas semanas", afirma Nuno Rico, economista da Deco, indicando que as famílias se devem preparar para o impacto do aumento das taxas na prestação a pagar ao banco pelo crédito habitação.
Ainda assim, haverá diferenças no impacto consoante a data de renovação do contrato. No caso das famílias cujo contrato seja revisto em abril, é provável que já sintam impacto do ligeiro aumento das Euribor. Se, por exemplo, o contrato for a Euribor a 12 meses e tiver sido revisto em fevereiro só sentirão alterações em fevereiro de 2027.
Mas estas subidas da Euribor esperam-se ligeiras e não deverão impactar a concessão de crédito habitação no país. "O apetite dos bancos por crédito não mudou, pelo que enquanto não virmos indicadores a piorar, como o desemprego, teremos uma oferta de empréstimos habitação ampla e competitiva", considera Miguel Cabrita, responsável pelo idealista/créditohabitação em Portugal, sublinhando que o mercado tem capacidade para absorver um leve aumento de preços, dada a alta procura.
Euribor sobe porque BCE deverá subir juros mais cedo do que o esperado
Esta subida das taxas Euribor sentida nos últimos dias surge num momento em que os mercados financeiros passaram a antecipar um aumento dos juros do BCE mais cedo do que o esperado. Isto porque este é o mecanismo que o regulador europeu usa para evitar que a inflação na zona euro escale muito além da meta dos 2% por via dos preços da energia, os quais já estão a aumentar muito devido à paralisação do Estreito de Ormuz provocado pela guerra no Irão, por onde passa quase um quinto do petróleo e gás do mundo.
Para já, o BCE garante que está vigilante sobre os riscos inflacionistas e admite que tudo fará para que a inflação esteja controlada. “Não podemos baixar a guarda, pois o atual contexto geopolítico e macroeconómico cria riscos e aumenta a inflação”, afirmou Isabel Schnabel, membro da comissão executiva do BCE. E Christine Lagarde, presidente do supervisor europeu, já garantiu que fará “tudo o que for necessário para que a inflação esteja sob controlo e para que (…) os europeus não sofram aumentos da inflação do tipo daqueles que vimos nos anos de 2022 e 2023", desencadeados pela guerra na Ucrânia.
Questionada sobre um eventual aumento das taxas de juro no futuro, a presidente do BCE não respondeu, invocando a forte "incerteza" que persiste em relação à situação no Médio Oriente. Mas logo depois das declarações de Lagarde, Peter Kazimir, governador do banco central da Eslováquia e membro do BCE, deixou um aviso sobre a possibilidade de política monetária na zona euro ter de apertar por via da subida dos juros mais cedo do que o esperado, de forma a fazer face a uma possível subida da inflação à boleia do aumento dos custos da energia.
Mas quando poderá haver uma subida dos juros do BCE? "Uma reação do BCE está potencialmente mais perto do que muitas pessoas pensam", disse Peter Kazimir citado Bloomberg, afastando no entanto a ideia de uma subida das taxas na próxima reunião agendada para 19 de março. Também não quis especular se haverá mexidas nos juros do BCE em abril ou junho, reforçando apenas que o supervisor está numa “boa posição” e “preparado” para reagir se necessário.
Também os analistas de mercado estão a colocar de lado a hipótese de o BCE subir juros já na reunião de política monetária da próxima semana, devendo as taxas de juro diretoras ficar inalteradas nos atuais níveis. Mas é esperada uma subida das taxas até final do ano.
"Nesta altura os mercados já esperam uma subida pela parte do BCE até final do ano. Esperava-se um corte e agora espera-se uma subida, é completamente o inverso", disse Vítor Madeira, analista da XTB, explicando que é o resultado das consequências para a inflação da guerra no Médio Oriente.
Também o presidente da ActivTrades Europe, Ricardo Evangelista, não considera provável que "o BCE reaja imediatamente", mas nos próximos meses e consoante o desenrolar do conflito. Se não houver perspetivas de resolução do conflito no curto e médio prazo, “não surpreenderá que o banco central venha a subir as taxas de juro, com os mercados a anteciparem dois aumentos de 25 pontos base antes do final do ano", afirmou.
Na mesma linha, Miguel Cabrita acredita que ainda é cedo para falar de aumentos dos juros do BCE, embora admita que essa opção esteja a ser considerada. “A forte subida do preço do petróleo e do gás, se continuar ao longo do tempo, poderá levar a um aumento da inflação (tanto nos preços da energia como nos restantes produtos que dela necessitam para a sua produção ou transporte), e isto poderá traduzir-se num aumento dos juros por parte do BCE, embora também seja possível que a fragilidade da procura europeia contenha parcialmente este risco", explica.
“Uma prolongada alta nos preços da energia, juntamente com uma retoma da inflação, reacendeu naturalmente os receios de estagflação na Europa. O mercado agora espera que o BCE aumente as taxas de juro antes do final do ano", afirma a Edmond de Rothschild Asset Management. Por seu turno, a Ebury afirma que “os mercados de swaps já estão praticamente a precificar dois aumentos de 25 pontos-base na taxa de juro entre agora e o final do ano, em resposta a essa potencial dinâmica inflacionária".
*Com Lusa e Europa Press
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