Lagarde quer BCE na atual "boa posição" para responder a choques futuros. Mas crescimento económico está quase estagnado.
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Juros do BCE
Christine Lagarde, presidente do BCE Getty images

A cautela é palavra de ordem num contexto macroeconómico ainda desafiante. A inflação na zona euro parece estar controlada em torno de 2%. Mas o clima geopolítico ainda está pesado, o crescimento económico europeu está quase estagnado, afetado pelo choque das tarifas de Trump e incerteza política em França. Todos estes fatores levaram o Banco Central Europeu (BCE) a manter as suas taxas de juro diretoras inalteradas esta quinta-feira, dia 30 de outubro, pela terceira vez consecutiva. Novas reduções dos juros do BCE são esperadas apenas para 2026, apontam analistas.

Tal como já perspetivavam os especialistas de mercado, o regulador europeu liderado por Christine Lagarde decidiu manter os juros diretores inalterados na reunião de política monetária que decorreu esta quinta-feira, dia 30 de outubro, em Florença (Itália). Assim, os juros do BCE ficam nos atuais valores pela terceira vez consecutiva:

  • Taxa aplicada à facilidade permanente de depósitos fica em 2,00%;
  • Taxa de juro das principais operações de refinanciamento continua em 2,15%;
  • Taxa aplicável à facilidade permanente de cedência de liquidez situa-se em 2,40%.

Com esta decisão, a taxa de depósitos do BCE permanece no intervalo “neutro”, entre 1,75% e 2,25%, no qual nem restringe nem estimula demasiado a economia. E, note-se, que esta terceira manutenção dos juros, que mereceu “unanimidade absoluta” entre governadores, surge após um ciclo de reduções das taxas que durou mais de um ano.

Para o governador do Banco de Portugal (BdP), Álvaro Santos Pereira, "manter a taxa de juro neste momento é a decisão certa, porque é importante manter uma margem para prevenir eventuais choques no futuro”, bem como uma margem de reação. Na visão do antigo ministro da Economia, que assumiu o BdP no início deste mês,“a política monetária fez o que tinha de fazer para estar numa situação de estabilidade de preços”.

“O BCE parece seguir a sua abordagem de ‘esperar para ver’, considerando os sinais contraditórios de, por um lado, baixo crescimento e inflação controlada e, por outro, a incerteza de haver possíveis picos inflacionários no futuro decorrentes das tensões comerciais globais e dos altos níveis de emprego”, comenta Miguel Cabrita, responsável pelo idealista/créditohabitação em Portugal.

Porque é que o BCE está a manter os juros inalterados?

Ao que tudo indica, o BCE considera este o nível de juros adequado para responder a eventuais mudanças no contexto macroeconómico. "Nesta altura, estamos em boa posição e bem preparados para enfrentar choques futuros", disse Christine Lagarde em meados de outubro, durante a reunião anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Washington.

Na conferência de imprensa após a reunião, Lagarde voltou a frisar que "estamos num bom lugar de um ponto de vista da política monetária. É um lugar fixo? Não, mas vamos fazer o que for preciso para assegurar que ficamos num bom lugar”, afirmou.

Por um lado, a inflação na zona euro mantém-se estável, em torno de 2%, o objetivo do BCE. Embora tenha subido ligeiramente para 2,2% em setembro, devido ao custo dos bens alimentares, parece não haver sinais para alarme. De qualquer forma, Lagarde quer “garantir que [os preços] continuem a baixar, porque é importante”. Aliás, "a avaliação das perspetivas de inflação efetuada pelo Conselho do BCE mantém‑se, em geral, inalterada", revelam em comunicado divulgado após a reunião. Em concreto, estima-se que a inflação na zona euro se situe em 2,1% no final deste ano, 1,7% no final de 2026 e 1,9% em 2027.

Já em termos de crescimento económico, o quadro é menos animador. Os dados do Eurostat revelam que o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 0,2% no terceiro trimestre de 2025, estando ligeiramente acima do observado no trimestre anterior (0,1%). Ainda assim, Lagarde diz que não se "queixaria demasiado do crescimento", até porque estamos perante uma "conjuntura mundial difícil". Esta estagnação do crescimento económico na área euro pode ser explicada por vários fatores:

  • Choque das tarifas de Trump: que afeta os países que mais exportam produtos para os EUA, como destaque para a Irlanda (o PIB terá caído 0,1% neste período);
  • Incerteza política em França: que “sufoca a procura” e atrasa as decisões de investimento, alerta Michel Martinez, economista-chefe para a Europa do Société Générale;
  • Estagnação da economia alemã (um dos principais motores económicos, a par da França): “Os alemães começam a observar alguns sinais de recuperação, provavelmente semeados pelo enorme pacote fiscal em defesa e infraestruturas” promovido pelo Governo de Friedrich Merz, mas o estímulo alemão só deverá produzir efeitos concretos a partir de 2026, admite Diego Barnuevo, analista de mercado na Ebury.

Ainda assim, a economia da zona euro conta com a resiliência do mercado de trabalho, bem como com a solidez dos serviços e dos balanços no setor privado para sustentar a atividade nos próximos meses. As últimas previsões do BCE apontam para um crescimento do PIB de 1,2% em 2025, 1,0% em 2026 e 1,3% em 2027. "Contudo, as perspetivas ainda são incertas, em particular devido à continuação dos litígios comerciais e das tensões geopolíticas a nível mundial", revela o Conselho do BCE.

Afinal, a guerra da invasão russa na Ucrânia parece não ter fim à vista e “continua a ser uma fonte de grande incerteza”, considera a presidente do regulador europeu. Mas houve riscos que foram aliviados recentemente, desde o acordo comercial entre os EUA e União Europeia ao progresso nas relações entre Washington e Pequim, passando pelo recente cessar-fogo acordado no Médio Oriente.

Neste contexto, Lagarde reconheceu recentemente que a Europa tem um “modelo económico aberto que nos expõe a choques globais” e que permanece “incapaz de reduzir essa vulnerabilidade corrigindo o mercado interno e fortalecendo o crescimento doméstico”. A sua resistência às tempestades como a pandemia, crise energética ou a guerra deveu-se à “resiliência das suas políticas, suas instituições e seu compromisso de agir em conjunto”. Mas para o futuro é preciso “criatividade” para enfrentar os desafios, apelou a presidente do BCE.

Redução dos juros do BCE
Christine Lagarde, presidente do BCE, e Luis de Guindos, vice-presidente do BCE Getty images

Como será a evolução dos juros do BCE daqui para a frente?

Agora é hora de assumir uma posição prudente. E no futuro? Terá o BCE terminado com o ciclo de cortes dos juros ou estamos perante uma longa pausa? As opiniões dos analistas de mercado dividem-se. Mas há muitos a admitir que possa haver um novo corte dos juros em 2026.

Desde o regulador liderado por Lagarde não se vislumbram alterações no discurso. Uma vez mais, o BCE voltou a frisar que "seguirá uma abordagem dependente dos dados e reunião a reunião para decidir a orientação apropriada da política monetária", não se comprometendo previamente com uma trajetória de taxas específica, lê-se no comunicado.

Desde a Ebury Portugal dizem não ter encontrado "nada na conferência de imprensa de Lagarde que nos sugira que novos cortes dos juros estão a caminho". E os analistas do Bankinter dizem que “o ciclo de cortes nas taxas de juro chegou ao fim e não prevemos quaisquer novas reduções para o resto de 2025 ou para 2026”.

Mas "isso pode mudar no próximo ano, caso o estímulo fiscal na Alemanha não consiga proporcionar o impulso desejado ao crescimento e/ou as tarifas pesem mais sobre a economia do que o esperado. No entanto, a fasquia para cortes adicionais dos juros é agora extraordinariamente alta, o que deve contribuir para manter o euro bem apoiado ao longo de 2026", acrescenta a Ebury.

Na visão de Ulrike Kastens, economista-chefe da DWS, "o ciclo de queda das taxas do BCE não está necessariamente terminado". O 'status quo' monetário ainda poderia durar alguns meses antes de um movimento de queda esperado "em março de 2026" por Michel Martinez, quando a inflação deve "cair significativamente abaixo de 2%, impulsionada pela queda retardada dos preços da energia e pela força do euro". 

Os resultados do inquérito levado a cabo pela Bloomberg revelam que um terço dos inquiridos admite que possa haver mais um corte de juros do BCE em 2026. Mas também houve 17% a admitir a possibilidade de haver uma ou mais subidas das taxas, ou seja, um endurecimento da política monetária.

“O mercado monetário não antecipa qualquer redução na taxa de referência do BCE até à reunião de setembro de 2026. Ou melhor, quando muito, há uma probabilidade de 66% de uma única descida de 25 pontos-base no decorrer dos próximos 12 meses”, comenta Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, citado pelo Expresso.

Importa lembrar que os juros do BCE continuam num nível muito inferior em comparação com os juros da Reserva Federal norte-americana (Fed), embora tenha descido as taxas esta semana para um intervalo de 3,75% e 4%. E que a estabilidade dos juros na zona euro deverá contrastar com um alívio da política monetária dos EUA nos próximos meses, muito embora Jerome Powell tenha avisado que poderá não voltar a descer os juros em dezembro. Esta diferença entre os juros do BCE e da Fed tem acentuado a valorização do euro face ao dólar.

Juros do BCE a descer em 2026
Getty images

As próximas reuniões do BCE

Conselho do BCE reúne-se aproximadamente de seis em seis semanas. Este é o calendário das próximas reuniões de política monetária do guardião do euro, nas quais vai anunciar as suas decisões sobre as taxas de juro diretoras.

  • 18 de dezembro de 2025
  • 5 de fevereiro de 2026
  • 19 de março de 2026
  • 30 de abril de 2026
  • 11 de junho de 2026
  • 23 de julho de 2026
  • 10 de setembro de 2026
  • 29 de outubro de 2026
  • 17 de dezembro de 2026

*Com Lusa

*Notícia atualizada dia 31 de outubro, às 14h30, com declarações do governador do Banco de Portugal

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