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Bankinter vai investir "forte" na promoção da marca em Portugal e promete não despedir, nem fechar balcões do antigo Barclays

María Dolores Dancausa, CEO do Bankinter
Autor: Tânia Ferreira

A jogar na primeira liga da banca espanhola como um dos bancos mais rentáveis, o Bankinter - o ainda "ilustre desconhecido" em Portugal que comprou por 175 milhões de euros os negócios de banca de retalho e seguros da sucursal lusa do Barclays - está agora à espera de todas as autorizações legais e regulamentares para avançar com um forte plano de comunicação e promoção da marca para se tornar um banco reconhecido também pelos portugueses.

Vocacionado sobretudo para as empresas e banca privada, o banco espanhol quer dar trunfos também na banca comercial, nomeadamente no crédito à habitação, onde promete ser competitivo, mas ainda sem querer revelar a estratégia de "ataque" ao mercado luso.

As novidades em detalhe foram ontem prometidas para depois do closing da operação, pela CEO do banco. "Esperamos ter todas as licenças necessárias para operar em Portugal dentro de quatro a seis meses", declarou María Dolores Dancausa, em conferência de imprensa em Madrid, dando a conhecer que a operação com o Barclays começou a ser negociada em junho passado e que "este foram os primeiros ativos que o Bankinter estudou a sério para comprar em Portugal, depois de ter analisado outras oportunidades", mas "nunca uma tomada de capital noutro banco". (A La Caixa está vendedora da sua participação no BPI, por exemplo)

Qual a estratégia para crescer em Portugal?

Reiterando que neste caso "não está em causa uma fusão com outro banco, nem a aquisição de um banco em Portugal", mas sim a "compra de carteiras de retalho e seguros", a gestora admitiu que o "grande desafio desta operação vai ser o processo de integração", que estima vir a durar perto de um ano, após o closing. 

Mas deixou uma mensagem de serenidade para os trabalhadores do Barclays em Portugal. "Com excepção de pequenos ajustes, não vamos tocar no quadro de pessoal. Não pretendemos ganhar dinheiro com esta operação à custa do despedimento de pessoas, nem do fecho de balcões", declarou María Dolores Dancausa, frisando que "o que queremos é crescer com negócio".

O objetivo do Bankinter, no médio prazo, é conseguir elevar para "um mínimo de 10%" as atuais quotas de mercado que a divisão do Barclays tem em Portugal: 5% na banca privada e 6% na banca comercial. 

A liderança da gestão do negócio luso, de momento, vai continuar nas mãos de Carlos Brandão, de acordo com Dancausa. 

Porquê Portugal?

A profunda reestruturação que o setor financeiro português vive atualmente, num momento em que a economia nacional apresenta sinais de melhoria, foi a oportunidade perfeita que o Bankinter encontrou para dar o primeiro passo na aventura da internacionalização.

Com 50 anos de história, o banco espanhol quer usar as operações de banca de retalho e seguros que comprou ao Barclays em Portugal por 175 milhões de euros para dar um salto na rentabilidade. Apesar de ter um balanço muito pequeno em comparação com os grandes bancos em Espanha, o Bankinter é uma das instituições financeiras mais rentáveis ​​com um ROE (Return on Equity) de 10,58% em junho.

E a CEO destaca que "estes resultados foram conseguidos quando o setor financeiro espanhol estava em profunda reestruturação e com a agravante de o país estar numa verdadeira crise", o que significa "uma vantagem no momento de ir para Portugal, que equilibra com a nossa fragilidade que é falta de experiência no estrangeiro".

O que ganha o Bankinter com o Barclays Portugal?

O salto para o negócio bancário de Portugal vai somar 185 mil clientes ao Bankinter e incrementar em cerca de 5.000 milhões de euros, até 48.000 milhões a sua carteira de crédito. Os depósitos ganham 2.500 milhões de euros, chegando a um total de 35.061 milhões, o que significa que tendo em conta o rácio de transformação o banco terá 137 euros para dar crédito por cada 100 euros de depósitos. E o volume de ativos totais do banco vai passar para 63.000 milhões de euros, quando agora está nos 58 mil milhões. 

Por outro lado, "a compra vai criar valor para o acionista do Bankinter desde o primeiro momento", garante a sua administradora delegada. O banco calcula que vai extrair uma rentabilidade sobre o capital investido de 10%, sendo que a operação não vai exigir nenhum aumento de capital, nem diluir os acionistas.

Compra dará prémio às contas do Bankinter em 2016

Aliás, esta primeira aventura fora de portas vai mesmo trazer um prémio para as contas do banco espanhol no próximo ano. Depois de impostos, a compra dos negócios de banca do Barclays em Portugal vão representar um badwill (fundo de comércio negativo) de 120 milhões de euros, devido ao preço da compra que se transformam em lucros no exercício de 2016. Isto porque, o Bankinter pagou 100 milhões de euros por um ativo que está registado em mais de 250 milhões de euros, ou seja 0,4 vezes o valor de balanço.

Depois de um duro processo de reestruturação, que implicou um forte esmagamento de custos com despedimentos e encerramento de balcões, esta área de negócio do Barclays voltou aos lucros no primeiro semestre de 2015. Fechou o primeiro semestre do ano com resultados líquidos de 11,7 milhões de euros, após dois anos de prejuízos.

Pelo negócio de seguros do Barclays em Portugal, o Bankinter Seguros de Vida (sociedade paritária do banco com a seguradora Mafre), pagou 75 milhões de euros.