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A fórmula para atingir o "sucesso" no trabalho e nos negócios em tempos de pandemia

Carla Rebelo, CEO da Adecco em Portugal, explica em entrevista ao idealista/news quais são os grandes desafios do futuro. E o teletrabalho é só a ponta do icebergue.

Photo by Charles Deluvio on Unsplash
Photo by Charles Deluvio on Unsplash
Autores: Leonor Santos, Tânia Ferreira

Manter a confiança no novo mundo do trabalho será um dos grandes desafios do futuro. A flexibilidade e liderança de elevada inteligência emocional são outros. A pandemia veio mudar invariavelmente o mundo laboral, acelerando tendências e dando lugar a outras, com o teletrabalho a estar “nas bocas do mundo” e a marcar o passo neste novo ritmo de ser e estar. Mas não importa só o onde, importa sobretudo a forma: um trabalho orientado para resultados, que pode ser feito em casa e no escritório, num equilíbiro necessário das duas realidades. Carla Rebelo, CEO da Adecco em Portugal, uma das maiores empresas de recursos humanos à escala global, tem a certeza de que nada voltará a ser igual, e apresenta nesta entrevista ao idealista/news vários caminhos para o sucesso durante e no pós-crise.

O fim do contrato baseado em horas e semanas de 40 horas de trabalho está entre os principais retos dos próximos tempos. De acordo com a responsável, “existe uma clara tendência para o trabalho orientado para resultados, através do qual os contratos se baseiam na entrega em função das necessidades empresariais em vez de imporem o trabalho por número definido de horas”. O futuro irá pedir novas competências de liderança, mas sobretudo um “traço determinante de um gestor de sucesso”: a inteligência emocional.

Não existe uma só fórmula para o sucesso, existem várias, adequadas a cada empresa e negócio, desde já a começar pelas contratações. De acordo com a CEO da Adecco, “a forma de trabalhar terá de ser repensada pelas empresas de acordo com os seus modelos e especificidade de negócio podendo a aposta seguir no caminho de trabalho mais remoto e possivelmente uma mudança para semanas de trabalho mais curtas”, na senda da aceleração da transformação e inovação digital. Reconhece que, para tudo isto, “uma empresa irá provavelmente precisar de ajuda”, e que “uma forma de a obter é começar a contratar de forma inteligente, agora”, até porque “tudo irá evoluir”.

O teletrabalho abriu as portas a um universo mais lato e complexo que não se resume ao desempenho de tarefas a partir de casa, e cujas mais-valias vão bem mais além que a possibilidade de trabalhar no conforto do lar. Para Carla Rebelo, uma das maiores vantagens do trabalho à distância prende-se com a inclusão. “A Covid-19 abriu novas oportunidades e benefícios para grupos sociais que muitas vezes foram excluídos do local de trabalho. Pessoas com deficiência, pessoas responsáveis por cuidar de crianças e idosos, migrantes e refugiados, e pessoas com recursos financeiros limitados, todas enfrentaram dificuldades para aceder ao mercado de trabalho”, refere a responsável.

Mas, afinal, que mudanças (permanentes) trouxe esta crise sanitária para o mundo do trabalho? Fará o teletrabalho parte da solução? O que é que as empresas devem a começar a fazer desde já? A CEO da Adecco em Portugal dá resposta a esta e outras questões numa entrevista que agora reproduzímos na íntegra.

Carla Rebelo, CEO da Adecco em Portugal / Adecco
Carla Rebelo, CEO da Adecco em Portugal / Adecco

A pandemia trouxe uma nova realidade de trabalho. Quais são os novos desafios?

A pandemia coronavírus resultou em mudanças fundamentais de atitudes e expectativas e na forma como e onde se trabalha. A mudança súbita e dramática no panorama do local de trabalho acelerou tendências emergentes como o trabalho flexível, a liderança de elevada inteligência emocional (EQ), a requalificação, ao ponto de serem agora fundamentais para o sucesso organizacional.

Com a pandemia, as atitudes dos trabalhadores mudaram e as lacunas entre as expectativas da mão de obra e os processos do mercado de trabalho enraizados foram expostas. À medida que entramos na nova era do trabalho, agora é o momento de estabelecer melhores normas que permitam uma mão de obra holisticamente saudável, produtiva e inclusiva para o futuro. O mundo do trabalho está pronto para um novo modelo “híbrido” entre trabalho remoto e em escritórios que beneficiará também as empresas de uma maior flexibilidade.

Outro desafio será o fim do contrato baseado em horas e semanas de 40 horas de trabalho. Existe uma clara tendência para o trabalho orientado para resultados, através do qual os contratos se baseiam na entrega em função das necessidades empresariais em vez de imporem o trabalho por número definido de horas.

Outro desafio será o fim do contrato baseado em horas e semanas de 40 horas de trabalho. Existe uma clara tendência para o trabalho orientado para resultados

A pandemia também exigiu um novo conjunto de competências de liderança e aqui o desafio é que estas expectativas acelerem uma reinvenção do líder dos tempos modernos. A inteligência emocional surgiu claramente como o traço determinante do gestor de sucesso de hoje, mas o fosso de soft skills é evidente. Também, numa natureza semelhante ao trabalho flexível, os resultados demonstram um apetite universal pelo upskilling em massa. Um vasto leque de competências tem sido identificado como importante pela força de trabalho, incluindo a gestão remota do pessoal, soft skills e pensamento criativo.

Por último, diríamos que a importância de manter a confiança no novo mundo do trabalho será também um dos grandes desafios que a pandemia colocou em cima da mesa. As empresas aceitaram o desafio de apoiar as suas pessoas durante a crise e, consequentemente, a confiança nas empresas aumentou. 

O que é que as empresas devem continuar a fazer para adaptar-se (e continuar a potenciar os negócios)?

As empresas terão de se adaptar a novas formas de operar, comercializar, vender, e servir os clientes. No “novo normal” as interações contactless tornar-se-ão muito mais importantes. O comércio digital, os serviços remotos e a automatização ganharão terreno. As empresas terão de repensar, e não de ajustar, os seus modelos de negócio, terão de impulsionar a recuperação e aumentar as receitas.

A forma de trabalhar também terá de ser repensada pelas empresas de acordo com os seus modelos e especificidade de negócio podendo a aposta seguir no caminho de trabalho mais remoto e possivelmente uma mudança para semanas de trabalho mais curtas. A mudança pode significar também uma aceleração da transformação e inovação digital. E para tudo isto, uma empresa irá provavelmente precisar de ajuda. Uma forma de a obter é começar a contratar de forma inteligente, agora.

As empresas terão de repensar, e não de ajustar, os seus modelos de negócio, terão de impulsionar a recuperação e aumentar as receitas

A razão para contratar é transformar verdadeiramente a forma como uma empresa faz negócios a múltiplos níveis - o que prospera no futuro levará a uma necessidade de nova experiência, conhecimento, competências e discernimento. Tudo irá evoluir. Para ser bem-sucedida, uma empresa tem de ser, no sentido mais profundo, ágil e pronta a adaptar a sua abordagem. E não esquecer que o seu pessoal fará parte da mistura.

O teletrabalho é uma solução, com vantagens e desvantagens. Conseguem identificar algumas?

Uma das maiores vantagens do teletrabalho, na nossa perspetiva, prende-se com a inclusão. A Covid-19 abriu novas oportunidades e benefícios para grupos sociais que muitas vezes foram excluídos do local de trabalho. Pessoas com deficiência, pessoas responsáveis por cuidar de crianças e idosos, migrantes e refugiados, e pessoas com recursos financeiros limitados, todas enfrentaram dificuldades para aceder ao mercado de trabalho. Trabalhar em casa, o acesso remoto a conferências e até a consultas online com médicos, solicitadas por pessoas com deficiência há anos, hoje são um padrão.

A Covid-19 abriu novas oportunidades e benefícios para grupos sociais que muitas vezes foram excluídos do local de trabalho

Da mesma forma, pessoas com responsabilidades de cuidar de crianças ou dependentes muitas vezes não conseguem trabalhar em período integral, a menos que possam trabalhar remotamente. Aqueles com recursos financeiros limitados talvez não possam comprar o carro que precisariam para se deslocarem a um local de trabalho, mas poderiam trabalhar remotamente. Os migrantes e refugiados geralmente enfrentam barreiras linguísticas no seu novo país, mas estas podem ser mitigadas por ferramentas de colaboração, como software de e-mail e chat, que destacam a interação cara-a-cara.

Outra das grandes vantagens tem a ver com a formação. Trabalhar remotamente nas circunstâncias atuais também oferece uma oportunidade única para as pessoas desenvolverem as suas competências e melhorarem a sua empregabilidade. Como resultado da pandemia de Covid-19, mais e mais recursos educacionais foram colocados online, tornando a autoformação mais acessível e a formação online uma realidade.

E a terceira grande vantagem, é o maior equilíbrio entre vida pessoal e profissional. As pessoas na sua maioria, que ficaram a trabalhar neste regime ou hibrido, poderão, se organizadas de forma a resguardar o seu tempo familiar, usufruir de maior qualidade de vida, menos tempo em trânsito e reuniões no exterior, e mais tempo para melhor gerirem a sua vida pessoal e familiar.

Contudo, nem tudo podem ser mais-valias. A componente que hoje de alguma forma não perdemos, mas que mudou o seu formato, que foi adaptada prende-se com a socialização. O contacto físico necessário na solidificação e relações, e tão necessária para a integração a novos elementos nas equipas de trabalho. Há que precaver dessa ausência de contacto físico, para transformá-lo não em distanciamento social mas sim em distanciamento físico garantindo a socialização através de recursos maioritariamente digitais.

A Covid-19 abriu novas oportunidades e benefícios para grupos sociais que muitas vezes foram excluídos do local de trabalho

Que mudanças (permanentes) trouxe esta crise sanitária para o mundo do trabalho?

As empresas que florescerão num mundo pós-pandemia são aquelas com a força de trabalho mais resiliente. Embora a situação continue a evoluir diariamente, podemos apontar para três tendências e mudanças emergentes que a crise trouxe para o mundo do trabalho. O trabalho remoto está aqui para ficar. Enquanto as empresas se esforçam para manter a continuidade, “trabalhar em casa” está a tornar-se o novo normal e o trabalho remoto chegou para ficar. Isso levará a uma infinidade de alterações no local de trabalho, afetando o trabalho em equipa, a produtividade, a colaboração e a comunicação, o que nos forçará a fazer algumas perguntas sobre o quão bem estávamos a aproveitar a tecnologia virtual antes do ataque do coronavírus.

As pesquisas mostram que trabalhar virtualmente pode gerar melhorias de produtividade de até 43%, mas isso deve ser feito de maneira eficaz. Portanto, este é o momento de capacitar as pessoas para operar com mais eficiência num mundo mais virtual e alinhado às tendências do setor mencionadas anteriormente. Já estamos na era da revolução do reskilling e a pandemia apenas acelerará a necessidade de atualizar as competências digitais da nossa força de trabalho, em preparação para uma grande mudança na forma como as empresas operam. 

As pesquisas mostram que trabalhar virtualmente pode gerar melhorias de produtividade de até 43%, mas isso deve ser feito de maneira eficaz

As competências de liderança evoluirão. A coragem de qualquer líder é verdadeiramente testada numa crise. E este é um desafio raro. Já sabemos há algum tempo que há uma evolução das competências de liderança em curso, à medida que transformação e interrupção se tornam o novo normal. A pandemia está agora a ampliar a necessidade de um novo conjunto de competências e capacidades de liderança. No mundo pós-pandemia, onde o trabalho remoto se torna o novo normal, os líderes precisam de aprender a liderar remotamente, em vez de centralizar.

No mundo pós-pandemia, onde o trabalho remoto se torna o novo normal, os líderes precisam de aprender a liderar remotamente, em vez de centralizar

Os líderes precisarão de uma nova caixa de ferramentas para a liderança de uma força de trabalho remota. Alguns fundamentos organizacionais serão críticos para os líderes alinharem, motivarem e acompanharem de perto os projetos e o desempenho. Estes incluem: uma cultura forte; valores profundamente arraigados; excelentes capacidades de comunicação; e recursos, sistemas e processos abrangentes de geração de relatórios. E no lado das competências pessoais, os líderes que conseguirão conduzir as suas organizações pela mudança que aí vem, são aqueles que são ágeis, orientados para o exterior, com uma mentalidade disruptiva e que possuem habilidades de construção de relacionamentos que podem criar inclusão em diversas equipas e geografias.

A necessidade de um novo Contrato Social é maior do que nunca. A mudança no mercado de trabalho aumentou o número de trabalhadores flexíveis, mas a pandemia expôs a vulnerabilidade desses trabalhadores numa crise. É encorajador ver alguns governos a aplicar subsídios por doença a trabalhadores independentes, por exemplo, assim como empresas que estão a estender a proteção aos seus funcionários freelancers ou temporários. No entanto, essas medidas de emergência destacam algo que defendemos há algum tempo: precisamos de um novo contrato social para garantir que todos os trabalhadores, particularmente aqueles em diferentes formas de trabalho, tenham a rede de segurança social de que precisam. Com consideração e planeamento, empresas e indivíduos podem preparar-se para estar na frente da curva.