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Futuro dos escritórios? Vem aí um "modelo híbrido", de teletrabalho e funcionamento "normal"

Nuno Garcia, diretor-geral da GesConsult, sobre o futuro do segmento de escritórios em Portugal no pós-pandemia.

Nuno Garcia, diretor-geral da GesConsult / GesConsult
Nuno Garcia, diretor-geral da GesConsult / GesConsult

Pandemia e teletrabalho são palavras que andam de “mãos dadas” nos últimos tempos. E a culpa é da Covid-19, que levou a que muitas empresas ficassem com os respetivos escritórios desocupados – e os funcionários a trabalhar a partir de casa. Agora, num cenário pós-pandemia, no chamado “novo normal”, o que se pode esperar do futuro do segmento de escritórios? O que vai mudar? Em entrevista ao idealista/news, Nuno Garcia, diretor-geral da GesConsult, diz que “o teletrabalho generalizado mudou o paradigma da presença das pessoas nos escritórios”, uma tendência “que veio para ficar”.

O responsável considera, no entanto, que irá prevalecer no futuro “um modelo híbrido, de teletrabalho e funcionamento das equipas nos espaços das empresas”. “Se houve aspeto que a pandemia veio mostrar foi que é possível garantir a continuidade dos negócios através do trabalho remoto”, afirma o diretor-geral da GesConsult, empresa especialista em gestão e fiscalização de obras que foi fundada em 2014.   

Muitas empresas tiveram de fazer alterações nos respetivos escritórios, adequando os espaços de trabalho ao chamado “novo normal”. Que cuidados estão a ter as empresas, que preocupações têm?

Neste momento, os principais cuidados das empresas no regresso aos escritórios passam pela reorganização dos espaços, por novas regras de utilização das zonas comuns e pela disponibilização de desinfeção em todas as divisões e acessos, em complemento à utilização individual das máscaras de proteção. 

No contexto da reorganização dos espaços, a instalação de barreiras físicas entre os postos de trabalho é uma realidade, a par da criação de zonas de trabalho e de convívio mais amplas, que garantam o distanciamento recomendado entre as pessoas.   

"É de esperar que, no futuro próximo, os edifícios de escritórios se localizem em zonas centrais das cidades, de fácil acesso a pé, por bicicleta ou outras formas de mobilidade urbana que minimizem a utilização de transportes públicos"

Em termos de adaptações a funcionalidades que anteriormente exigiam manuseamento ou contacto e agora se evitam para minimizar riscos de propagação do vírus, aumentaram as instalações de sistemas integrados de gestão de acessos (como a abertura de portas com cartão magnético), cresceu a preferência pelas opções contactless (como as torneiras com sensor) e aumentou a preferência por soluções de ventilação com controlo remoto.

De uma maneira geral, os espaços com zonas exteriores, amplas e arejadas são hoje ainda mais valorizados.

A pandemia vai ter impacto, ou já está a ter impacto, na construção futura de edifícios de escritórios?

Sem dúvida que sim. A realidade tal como a conhecemos até março deste ano deixou, em larga medida, de existir, e embora acredite que os escritórios venham a manter-se necessários, precisam de ser repensados e adaptados.   

"A realidade tal como a conhecemos até março deste ano deixou, em larga medida, de existir, e embora acredite que os escritórios venham a manter-se necessários, precisam de ser repensados e adaptados"

Até aqui, existiu uma forte necessidade de construir escritórios, agora aumentou a procura de escritórios ajustados aos novos requisitos, com áreas mais reduzidas, para responder de forma mais eficiente à rotatividade das pessoas nos espaços. 

O que mudará, em termos práticos, na construção dos edifícios de escritórios?

É de esperar que, no futuro próximo, os edifícios de escritórios se localizem em zonas centrais das cidades, de fácil acesso a pé, por bicicleta ou outras formas de mobilidade urbana que minimizem a utilização de transportes públicos.

Outro aspeto relevante será o investimento em salas de reuniões equipadas com sistemas que permitam a realização de videochamadas com qualidade, uma prática que se institui nesta pandemia e que veio alterar muitos dos hábitos (e custos) de deslocação anteriores. 

O aumento das áreas dedicadas a zonas “sociais”, como as copas e os vestiários, vai igualmente fazer parte das alterações a que vamos assistir, acompanhando as orientações de distanciamento para maior segurança de todos.  

Os novos edifícios de escritórios terão também circuitos específicos de acesso e movimentação, que evitem contactos desnecessários e facilitem os fluxos de entradas e saídas dentro dos edifícios.

GesConsult
GesConsult

Serão os escritórios do futuro mais pequenos e preparados para receber menos funcionários, que passarão a estar mais em teletrabalho? Que exigências e custos implicarão estas mudanças?

O teletrabalho generalizado mudou, de facto, o paradigma da presença das pessoas nos escritórios e isso é algo que veio para ficar. Durante anos, os escritórios foram acomodando mais pessoas em espaços relativamente pequenos, em atmosferas colaborativas. Agora, observa-se o movimento inverso e, mesmo nos casos em que há um regresso faseado aos escritórios, é feito através da rotatividade dos postos, o que significa que as equipas nunca estão todas em conjunto nos espaços.

Esta realidade já está a exercer pressão sobre os gestores de imóveis, com as empresas a procurarem reduzir custos nos espaços que ficaram repentinamente desocupados. Mesmo fechados, os escritórios representam uma despesa significativa e isso é algo que vai ter de ser repensado pelos ‘players’ envolvidos.

Será fácil mudar o ‘chip’ das empresas para esta nova realidade? Serão as empresas capazes de lidar bem como este novo “modus operandi”?

Se houve aspeto que a pandemia veio mostrar foi que é possível garantir a continuidade dos negócios através do trabalho remoto. Para as empresas que já tinham as suas estruturas montadas na ‘cloud’, essa transição foi mais rápida e suave, mas mesmo para as que foram “obrigadas” a atualizar-se e a aderir à transformação digital, houve um esforço grande para não parar completamente. 

Diria que o ‘chip’ mudou automaticamente a partir do momento em que se percebeu que o isolamento social ia manter-se não durante semanas, mas durante meses, e que as habitações de milhões de pessoas teriam de substituir os espaços das empresas.

"Acredito que muitas empresas que estavam a ponderar mudar-se para Portugal ou abrir delegações no país mantenham os seus planos iniciais e, assim acontecendo, a centralidade dos edifícios e a facilidade de acesso através de alternativas de micromobilidade serão critérios relevantes para a sua fixação em determinadas zonas das cidades"  

De qualquer forma, há que convir que a nossa sala de estar não é o nosso posto de trabalho – o mobiliário e a iluminação não serão os mais adequados, por exemplo – e, nesse sentido, acredito que venha a prevalecer um modelo híbrido, de teletrabalho e funcionamento das equipas nos espaços das empresas.    

A procura de espaços/imóveis de escritórios vai sofrer alterações nos próximos tempos? As empresas irão procurar, por exemplo, instalações em localizações mais centrais para facilitar o acesso das pessoas/trabalhadores?

Sem dúvida que sim. Acredito que muitas empresas que estavam a ponderar mudar-se para Portugal ou abrir delegações no nosso país mantenham os seus planos iniciais e, assim acontecendo, a centralidade dos edifícios e a facilidade de acesso através de alternativas de micromobilidade serão critérios relevantes para a sua fixação em determinadas zonas das cidades.    

É possível encontrar pontos positivos no setor da construção – no segmento de escritórios e na construção em geral - neste contexto de pandemia?

Logo à partida, o facto da construção nunca ter parado a sua atividade, quando outros setores estratégicos – como o dos Serviços e de Hotelaria/Turismo – foram obrigados a fazê-lo quase na totalidade, parece-me um ponto extremamente positivo. Representando 15% do PIB nacional, o setor é um pilar histórico da economia e voltou a dar mostras de resiliência neste contexto adverso. 

Num âmbito mais restrito, ligado ao segmento dos escritórios, penso que também é positivo que estejam a dar-se tantas adaptações e que o mercado mostre a capacidade de adaptação necessária para continuar a fazer do nosso país um destino empresarial atrativo, competitivo e, acima de tudo, seguro.