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O que é o BIM e qual a sua importância (e como pode ser aplicado) na construção e gestão de imóveis

Trata-se de uma abordagem melhorada à conceção, construção, operação e manutenção, utilizando um modelo digital 3D único e normalizado para cada obra.

Alex wong on Unsplash
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Autor: Redação

A crescente implementação do Building Information Modelling (BIM) – Modelagem de Informação da Construção, em português – tem catalisado a necessidade de mudança ao nível da gestão das organizações, ativos e projetos na cadeia de valor da Arquitetura, Engenharia, Construção e Operação (AECO). Qual será a sua importância para o setor da construção e para a gestão de imóveis e como pode efetivamente ser aplicado? Explicamos-te tudo neste artigo, preparado para o idealista/news por Bruno de Carvalho Matos*, Board Member do RICS Portugal e engenheiro civil de profissão.

O BIM é fundamentalmente uma abordagem melhorada à conceção, construção, operação e manutenção, utilizando um modelo digital 3D único e normalizado para cada obra, nova ou antiga, que contém toda a informação criada ou reunida sobre essa obra num formato legível por todos os intervenientes ao longo do seu ciclo de vida. 

O que se pretende com o BIM? É, basicamente, melhorar a forma como os projetos são desenvolvidos e como os ativos são geridos, facilitando, para todas as partes interessadas, o acesso à informação correta, da entidade correta, na forma correta e no tempo correto. 

Bruno de Carvalho Matos, Board Member do RICS Portugal / Bruno de Carvalho Matos
Bruno de Carvalho Matos, Board Member do RICS Portugal / Bruno de Carvalho Matos

A utilização do BIM evolui ao longo do ciclo de vida do ativo. A fase de conceção está mais orientada para o desenvolvimento e coordenação de modelos, incluindo a sua análise através de simulações ‘what-if’ (‘e se’, em português). Nas fases de construção e exploração existe um maior foco na extração e utilização da informação, sendo que na primeira o BIM pode influenciar a tomada de decisão ao nível de processos construtivos, gestão de aprovisionamentos, planeamento de trabalhos temporários, gestão da qualidade, entre outros. 

A implementação BIM não significa necessariamente que as organizações tenham de desenvolver novos processos, ou seja, podem adaptar processos já existentes. Uma vez identificado onde esta abordagem se enquadra nos fluxos organizacionais, o maior foco deve ser nas pessoas, tecnologia e normalização.

O papel do gestor de projetos

Atualmente, os gestores de projeto tendem a assumir um papel limitado na implementação e utilização do BIM como parte do processo de desenvolvimento dos projetos de construção e infraestruturas. Para maximizar o potencial desta metodologia, requer-se uma maior proatividade e entendimento sobre as implicações e possibilidades que o BIM pode proporcionar ao ambiente construído.

Na prática, o gestor de projetos pode influenciar na forma como os processos são adaptados e nos requisitos necessários para facilitar a implementação BIM. Deverá, assim, participar na tomada de decisão desde cedo, capitalizar sobre a sua experiência em comunicação, coordenação e colaboração, e estar ciente das vantagens e desafios desta abordagem. De facto, a função integradora do gestor de projeto desmonstra que ele pode – e deve – assumir um papel relevante na liderança e ‘governance’ da gestão da informação.

A gestão BIM deve ser assegurada por uma entidade independente e respeitar os requisitos da ISO19650, a norma internacional para gerir a informação ao longo do ciclo de vida de um ativo construído utilizando BIM. Nesta norma encontramos a descrição do processo de gestão a seguir para cada fase de contratação deste tipo de serviços, ao longo do desenvolvimento dos projetos.

Riscos a evitar

A importância da coordenação de projetos é frequentemente reconhecida apenas quando algo de errado acontece, existindo a tendência de transferir erros de conceção, medição e outros para a fase de construção. Importa, por isso, referir que os gestores de projeto têm a oportunidade de mitigar estas ineficiências, reduzindo consequentemente potenciais conflitos, atrasos e custos acrescidos, por recurso à metodologia BIM. Não obstante, para que tal seja possível, devem ser previamente definidos os requisitos contratuais e incentivos financeiros mais adequados para promover a colaboração entre as equipas de conceção e construção. Com a definição destes requisitos e incentivos pretende-se que se evitem alguns riscos, como por exemplo:

  • Não cumprimento de requisitos BIM, levando à fragmentação de processos já definidos para as equipas de conceção e construção; outro risco será os próprios requisitos não estarem corretamente definidos;
  • Alterações resultantes da coordenação BIM não serem incorporadas nos documentos do projeto;
  • Coordenação BIM existente, mas a obra continuar a ser gerida e executada a partir de informação produzida com as metodologias e ferramentas tradicionais;
  • Os subempreiteiros em obra não utilizarem, ou utilizarem erradamente, os modelos BIM;
  • Coordenação BIM ocorrendo de forma desarticulada com os calendários das equipas de conceção ou construção - e.g. demasiado cedo quando o dimensionamento ainda está em curso ou demasiado tarde para suportar a produção de informação.

Gestão da mudança

Todas as organizações envolvidas no desenvolvimento de projetos de construção e infraestruturas devem considerar a implementação BIM ao nível institucional, e não apenas ao nível de um projeto ou disciplina – depois da definição de objetivos BIM de alto nível estes poderão então ser refletidos em objetivos BIM para os projetos. 

Os gestores de projeto podem assumir uma posição líder na gestão da mudança requerida para a implementação desta abordagem inovadora, alinhando a sua estratégia em três níveis chave: organização-ativo-projeto. É importante ter em conta que a mudança organizacional deverá iniciar-se com o apoio da gestão de topo, passando por iniciativas intra e inter-organizacionais, até atingir um estágio de melhoria contínua.

Desafios a ter em conta

Apesar do seu potencial, o BIM não é ainda a panaceia que a indústria tem vindo a procurar. A falta de normalização específica, a escassez de recursos humanos reunindo conhecimento e experiência combinada em BIM e na indústria da construção, a dificuldade em definir objetivos SMART (“specific, measurable, actionable, relevant and timely”) e a complexidade em realizar análises custo-benefício, recorrendo ao conceito de custo de oportunidade, baseadas em potenciais erros, omissões, incompatibilidades e outras ineficiências, são alguns dos desafios mais significativos, além da natural resistência humana.

*Bruno de Carvalho Matos MRICS é Eng Civil Sénior MSc PMP e MBA pela Católica | Nova