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“Nos centros muita da reabilitação tem passado pela destruição dos interiores dos edifícios antigos”

Vitor Cóias, primeiro engenheiro português a ser distinguido com a Medalha Richard H. Driehaus para a Preservação do Património, ao idealista/news.

Engenheiro Vitor Cóias / Vitor Cóias
Engenheiro Vitor Cóias / Vitor Cóias

“Nos centros e bairros históricos, em particular em Lisboa e no Porto, muita da reabilitação tem passado pela destruição dos interiores dos edifícios antigos, com perda de elementos com valor histórico-artístico”. Quem o diz é Vitor Cóias, o primeiro engenheiro português a ser distinguido com a Medalha Richard H. Driehaus para a Preservação do Património, que distingue profissionais e instituições que contribuem de forma significativa para a preservação do património, dando continuidade às tradições de construção e arquitetónicas na Península Ibérica. “O que se tem passado em Lisboa, no Porto e noutras cidades, não tem sido, em grande parte, uma verdadeira reabilitação, porque esta tem de envolver as pessoas, os moradores”, sustenta, em entrevista ao idealista/news.

Segundo o engenheiro, “ao que parece”, o setor da construção “não se está a dar mal”, com a pandemia da Covid-19. “Os promotores imobiliários não desarmam e o investimento em construção não parou”, aponta. Sobre o futuro do setor é perentório: “Do ponto de vista ambiental, não é possível continuar indefinidamente a construir ao ritmo a que se tem construído nas últimas décadas, artificializando mais e mais território”. 

Quanto à conquista da Medalha Richard H. Driehaus para a Preservação do Património – entregue no dia 19 de novembro de 2020 em Madrid (Espanha), na Real Academia de Bellas Artes de San Fernand, tratando-se de uma iniciativa da International Network for Traditional Building, Architecture & Urbanism (INTBAU) –, Vitor Cóias, 73 anos, considera que “não muda grande coisa” na sua vida. “Não é uma medalha de engenharia, é uma medalha que tanto pode ser atribuída a um engenheiro como a um arquiteto, a um empresário, a um estudioso, a um divulgador. A todos os que trabalham e pensam a proteção do património, a sustentabilidade e impacto ambiental, histórico, humano e cultural”, explica.

E deixa algumas mensagens a pensar no futuro: "É necessário reduzir drasticamente o volume de matérias-primas extraídas da natureza e dos entulhos e detritos produzidos. É necessário reduzir a energia consumida pelo setor e as emissões de gases de efeito de estufa do fabrico de cimento e de outros materiais de construção, e do próprio ambiente construído", avisa. Do ponto de vista cultural, defende o especialista, "é necessário reduzir o impacto negativo das novas construções sobre os centros históricos e bairros antigos das cidades, sobre as aldeias tradicionais e sobre a paisagem".

Reproduzimos agora a entrevista na íntegra.

Palácio de Mateus, em Vila Real / premiorafaelmanzano.com
Palácio de Mateus, em Vila Real / premiorafaelmanzano.com

Foi distinguido, recentemente, com a medalha Richard H. Driehaus para a preservação do património 2020. Que significado tem esta condecoração? 

Um conjunto de entidades credíveis viu em mim algum merecimento. Isso é bem-vindo. Mas considero que devo esta distinção ao trabalho de toda uma equipa de engenheiros, técnicos, encarregados e operários e outros profissionais que partilharam da mesma visão. Prolongar a vida útil das construções existentes, para evitar mais construção nova, e ajudar a conservar os edifícios e conjuntos que constituem património cultural, de modo a que possam ser usufruídos pelos vindouros.  

O facto de ser o primeiro português a ser condecorado com esta medalha é motivo de orgulho, presumo. Era um objetivo pessoal? Esperava vir a receber um dia esta distinção? Muda alguma coisa na sua vida, a nível pessoal e profissional? 

Não era um objetivo e também não muda grande coisa na minha vida. É claro que é bom recebermos mensagens de congratulações de pessoas e entidades que acham que a distinção é merecida. 

Esta distinção servirá, de alguma forma, para mostrar ao “mundo” da engenharia, mais uma vez, que Portugal é um país onde existem engenheiros e também arquitetos de classe mundial? Continua a ser importante passar esta mensagem? 

Esta medalha não é uma medalha de engenharia, é uma medalha que tanto pode ser atribuída a um engenheiro como a um arquiteto, a um empresário, a um estudioso, a um divulgador. A todos os que trabalham e pensam a proteção do património, a sustentabilidade e impacto ambiental, histórico, humano e cultural. 

"Quem perde o seu património cultural, material e imaterial, perde a sua identidade, o seu sentido de pertença. O património cultural é a outra face do património natural"

Fale-nos um pouco sobre a preservação do património. Que importância tem este tema? É um assunto que está a ter a devida atenção em Portugal?

O património cultural de um país ou de uma comunidade constitui a sua principal referência identitária, e, dentro desse património, a parte construída é das que têm a maior presença e perenidade. Por isso é que, infelizmente, em situações de conflito entre nações ou comunidades, tantas vezes se atenta contra o os seus monumentos e edifícios históricos. Quem perde o seu património cultural, material e imaterial, perde a sua identidade, o seu sentido de pertença. O património cultural é a outra face do património natural. Sem este, sem o ecossistema de que fazemos parte, a nossa existência física é impossível; sem aquele, sem o vasto conjunto de referências culturais interligadas, não nos podemos realizar plenamente como seres humanos. Precisamos tanto de um como do outro. Infelizmente, em Portugal, a importância do primeiro não conseguiu ainda o mesmo nível de perceção que a importância do segundo. 

Portugal, e em particular Lisboa, entrou na mira dos investidores estrangeiros nos últimos tempos, de pré-pandemia. E a cidade mudou muito na última década, tendo sido reabilitados muitos edifícios. Tem sido uma reabilitação “bem feita”? 

O que se tem passado em Lisboa, no Porto e noutras cidades, não tem sido, em grande parte, uma verdadeira reabilitação, porque esta tem de envolver as pessoas, os moradores. Só até 2017, Lisboa perdeu mais de 60 mil moradores em relação aos censos de 2011, e o Porto mais de 20 mil. É o contrário do que se diz nas respetivas estratégias de reabilitação urbana. Estas perdas foram, numa pequena parte, compensadas com novos moradores, na maioria estrangeiros. 

Com a aposta num modelo de crescimento baseado no turismo, no imobiliário e na construção, o nosso país diverge em relação à média da UE, por exemplo em criação de riqueza “per capita”, e estamos a ser sucessivamente ultrapassados por países que entraram para a UE depois de nós. 

"O que se tem passado em Lisboa, no Porto e noutras cidades, não tem sido, em grande parte, uma verdadeira reabilitação, porque esta tem de envolver as pessoas, os moradores"

Por outro lado, nos centros e bairros históricos, em particular em Lisboa e no Porto, muita da reabilitação tem passado pela destruição dos interiores dos edifícios antigos, com perda de elementos com valor histórico-artístico. Depois há a questão dos sismos, nomeadamente em Lisboa. A maneira como a CML se tem vindo a alhear do que se passa nos interiores dos edifícios é de uma grande irresponsabilidade. Além das perdas patrimoniais, a segurança das pessoas que vão viver e trabalhar nos edifícios reabilitados não pode ser garantida por um papel assinado por um engenheiro qualquer, que apenas tem de mostrar uma credencial da Ordem dos Engenheiros. Esta, por suas vez, passa-as aos milhares, sem aparentemente se preocupar em ir ver se aquilo que os engenheiros estão a garantir pode realmente ser garantido. Isto, além das “reabilitações”, sobretudo na zona das avenidas novas, em que são demolidas paredes interiores estruturais sem qualquer intervenção de um engenheiro.  

Edifício na Rua do Comércio, em Lisboa (antes e depois das obras de reabilitação) / premiorafaelmanzano.com
Edifício na Rua do Comércio, em Lisboa (antes e depois das obras de reabilitação) / premiorafaelmanzano.com

Julgo que é um grande defensor da necessidade de manutenção do sistema da gaiola pombalina na Baixa Pombalina. Considera que não se tem dado a devida importância a este sistema nas obras de reabilitação que se têm realizado em Lisboa?  

Como disse atrás, nos centros e bairros históricos, muita da reabilitação tem passado pela destruição dos interiores dos edifícios antigos. Quando isso acontece na Baixa Pombalina a perda é mais grave, porque se destrói a gaiola pombalina, um conceito estrutural desenvolvido pelos engenheiros setecentistas Eugénio dos Santos e Carlos Mardel, com o intuito de os novos edifícios do centro da cidade poderem resistir a um novo abalo sísmico. Isto é reconhecido internacionalmente nos meios académicos com uma das primeiras ocasiões, se não a primeira, em que deliberadamente se conceberam e construíram os edifícios com esse objetivo. Deitar fora as evidências desse esforço é, no mínimo, de uma grande irresponsabilidade.   

"(...) Nos centros e bairros históricos, em particular em Lisboa e no Porto, muita da reabilitação tem passado pela destruição dos interiores dos edifícios antigos, com perda de elementos com valor histórico-artístico"

A candidatura da Baixa Pombalina a património mundial da UNESCO esteve muito tempo em stand by e até agora, segundo sabemos, nunca lhe foi atribuída tal classificação. Considera que este processo já devia ter “saído do papel” há muito mais tempo? O que ganharia Lisboa, e o país, com esta classificação? 

Este é um processo que começou em 2001 num encontro no LNEC organizado pelo GECoRPA, com a presença de Vieira da Silva, secretário de Estado das Obras Públicas, e de João Soares, presidente da CML. No final foi aprovada uma moção no sentido da se promover a candidatura. A CML aceitou o repto e em 2004 conseguiu que a Baixa Pombalina fosse incluída na Lista Indicativa Nacional da Comissão Nacional da UNESCO. O dossier final de candidatura da Baixa Pombalina à Lista do Património Mundial foi concluído no ano seguinte. Em 2007, depois de alguns pequenos acertos, ficou pronto para ser enviado para Paris… mas não foi. Em 2008 a CML muda de mãos, e a candidatura nunca mais saiu da gaveta, apesar de, desde 2011, constar como um dos objetivos da Estratégia de Reabilitação Urbana de Lisboa 2011-2024… 

Que balanço faz da atividade da engenharia/construção em Portugal e que impacto está a ter a pandemia no setor? 

Ao que parece, o setor da construção não se está a dar mal com a pandemia. Os promotores imobiliários não desarmam e o investimento em construção não parou.

Como vê a cidade de Lisboa nos próximos dez anos? Ou melhor, como será Lisboa em termos de construção civil e/ou arquitetónicos em 2030? 

A postura com que o negócio imobiliário aborda os centros e bairros históricos não adivinha nada de bom... Espero, no entanto, que os movimentos de cidadãos consigam ser mais eficazes na luta por uma cidade inclusiva, diversificada, equilibrada social e economicamente e ambientalmente sustentável.

Que conselhos dá aos jovens que se estão a formar em engenharia? Que futuro lhes estará reservado? 

Espero que distinções como esta possam estimular os novos engenheiros a preocuparem-se com o impacto ambiental e cultural da construção nova. Do ponto de vista ambiental, não é possível continuar indefinidamente a construir ao ritmo a que se tem construído nas últimas décadas, artificializando mais e mais território. 

"Do ponto de vista ambiental, não é possível continuar indefinidamente a construir ao ritmo a que se tem construído nas últimas décadas"

É necessário reduzir drasticamente o volume de matérias-primas extraídas da natureza e dos entulhos e detritos produzidos. É necessário reduzir a energia consumida pelo setor e as emissões de gases de efeito de estufa do fabrico de cimento e de outros materiais de construção, e do próprio ambiente construído. Do ponto de vista cultural é necessário reduzir o impacto negativo das novas construções sobre os centros históricos e bairros antigos das cidades, sobre as aldeias tradicionais e sobre a paisagem.