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“Se a crise vier, cá estaremos para a gerir. O trabalho de casa temos vindo a fazê-lo bastante bem”

José Araújo, diretor de Crédito Especializado e Imobiliário do Millennium bcp, em entrevista ao idealista/news.

José Araújo, da Direção de Crédito Especializado e Imobiliário do Millennium bcp
José Araújo, da Direção de Crédito Especializado e Imobiliário do Millennium bcp

A carteira imobiliária do Millennium bcp está “muito mais saudável”, contando atualmente com menos de 3.000 imóveis, contra os 12.000 que já teve, revela ao idealista/news José Araújo, da Direção de Crédito Especializado e Imobiliário do banco. Segundo o responsável, “os ciclos económicos têm altos e baixos” e o BCP foi capaz de retirar ilações das crises que se verificaram nos últimos anos, estando agora melhor preparado para enfrentar outra eventual crise no setor. 

A experiência obtida com as últimas crises, nomeadamente com a “estadia” da Troika em Portugal, foi importante para o BCP “aprender” a lidar melhor com o negócio imobiliário?

As crises são sempre boas para as pessoas aprenderem. E só quem for “burro” não vê as coisas que foram mal feitas no passado, por todos nós e pelos bancos, obviamente. Sem dúvida que o passado diz-nos sempre o que é que podemos continuar a fazer e o que é que temos de alterar. Mas nós olhamos sempre também muito para o futuro, para as novas formas, neste caso, de mediação, para as novas formas de vender imóveis. Se fizéssemos um histórico ao longo destes nove anos [que estou nesta área do banco] da forma como vendemos os imóveis e dos canais que utilizámos fica bem representada essa evolução.

Disse-nos, em 2014, que gostaria que esta direção do BCP não existisse em 2017...

Em 2014 disse que gostaria que esta direção não existisse, o que posso dizer agora é que estamos “cada vez mais próximo disso poder vir a suceder”. O nosso objetivo é vender todos os imóveis que temos em carteira, embora a direção seja mais alargada: tem a unidade técnica do crédito especializado, da promoção imobiliária, tem as áreas que regularizam os imóveis, tem a área que estuda os projetos e vê podem ser melhorados, etc. É, portanto, uma direção um bocadinho mais vasta. 

"As crises são sempre boas para as pessoas aprenderem. E só quem for “burro” não vê as coisas que foram mal feitas no passado, por todos nós e pelos bancos, obviamente"

Agora não há dúvida de que em relação às vendas já sabemos que esta não é uma atividade normal da banca. Em jeito de brincadeira, foi dito no último encontro anual que tivemos, no início do ano, que o desejo era terminar com esta área. Estamos muito mais próximos, porque já tivemos em carteira 12.000 imóveis, já tivemos valores em carteira enormes e neste momento temos muito menos que metade, portanto estamos a fazer o trabalho de casa, como se costuma dizer, e a cumprir com os objetivos internos e externos.

As restrições ao crédito impostas pelo Banco de Portugal ajudam de alguma forma a “combater” ou atenuar o crédito malparado no setor?

Nós não chamamos restrições ao crédito. Encaramos o tema como regras prudenciais de financiamento ao mercado. As regras são claras, são aceites por todos e só protegem o comprador e o banco e obrigam a que não se façam os mesmos erros do passado. 

É evidente que o mercado atualmente apresenta um conjunto de pessoas e de operadores muito diferentes do que era há dez anos. Os promotores são mais profissionais, mas também são mais restritivos. Entendem melhor o risco, preparam melhor as promoções. Isso faz com que logo à partida o risco de quem financia possa ser inferior. 

"Todas as pessoas sabem que os ciclos económicos têm altos e baixos. Na área imobiliária, há muito tempo que se ouve dizer que vai entrar [em crise], mas nunca será, no meu ponto de vista, uma crise profunda"

Em relação ao cliente final, os bancos também têm regras de prudência, pelo menos o BCP tem, o que faz com que os Loan-to-Value (LTV) sejam completamente diferentes do que eram há uns anos, em que o banco financiava às vezes 110%, 120% do valor [do imóvel]. Chegámos à conclusão que, quando apareceu a crise, não havia cobertura para algumas situações, e isso dificultou mais a recuperação dos bancos. Neste momento isso não está em cima da mesa, as regras são muito claras para todos. 

Todas as pessoas sabem que os ciclos económicos têm altos e baixos. Na área imobiliária, há muito tempo que se ouve dizer que vai entrar [em crise], mas nunca será, no meu ponto de vista, uma crise profunda. Os preços podem estabilizar e poderá haver segmentos que perdem algum dinamismo, mas os bancos estão melhor preparados, a economia está melhor preparada e os particulares e promotores também, por isso se ela vier cá estaremos para a gerir. Será sempre mais um desafio, mas o trabalho de casa temos vindo a fazê-lo bastante bem.