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Imobiliário no mercado LGBTI+ continua em alta em Portugal em plena pandemia

Portugal mantém-se um destino atrativo para viver e investir, revela João Passos, consultor imobiliário e presidente da Variações, em entrevista ao idealista/news.

Imobiliário no mercado LGBTI+ continua em alta
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Autor: Leonor Santos

O mercado imobiliário LGBTI+ está a dar cartas em Portugal, mostrando-se resiliente à pandemia e aos confinamentos. Continuaram a fechar-se negócios de compra/venda e arrendamento – até mesmo à distância, com recurso a fotos, visitas virtuais e videochamada - com “muitos clientes nacionais e estrangeiros a quererem investir e/ou mudar de casa”, tal como explica João Passos, responsável pelo projeto ‘Lisboa Pride – homes for everyone’, e consultor imobiliário na Remax há vários anos, em entrevista ao idealista/news.

Com base nas tendências de mercado e efeitos da Covid-19 na atividade, o especialista confirma que a zona do Príncipe Real, em Lisboa, continua a ser a zona LGBTI+ por excelência, ainda que existam outras áreas em crescimento. O eixo Almirante Reis, especialmente a zona de Arroios, continua a ser muito procurado pela comunidade, ainda que, no último ano, se tenha verificado um especial interesse pela Margem Sul, nomeadamente Almada e Caparica. “A pouca distância de Lisboa e os fáceis acessos, os preços mais baixos e a proximidade das praias ajudam a explicar esta tendência”, analisa.

João Passos, também presidente da Variações, revela que o impacto da pandemia foi menor do que chegarem a “temer”. O ano de 2020, detalha, "foi de menos vendas e mais arrendamentos, mas muito dinâmico". E 2021, de resto, já se apresenta mesmo como “o melhor” da sua equipa.

Nas zonas mais inclusivas adianta, os preços de compra/venda “têm-se mantido relativamente estáveis”, nomeadamente em Lisboa. Na zona de Almada, por outro lado, tem-se assistido a um crescimento nos valores das transações. “Já os valores dos arrendamentos, depois de uma quebra acentuada em 2020, estão a recuperar, ainda de forma lenta”, indica. O responsável acredita que Lisboa, e Portugal, continuam muito apelativos enquanto destino para investir e viver. Prova disso, diz, é o “número de contactos por clientes estrangeiros que está ao nível dos números pré-pandemia”.

Nesta entrevista por escrito ao idealista/news, que agora reproduzimos na íntegra, o especialista analisa a evolução e crescimento das zonas LGBTI+ friendly, o comportamento dos preços, as diferenças entre clientes nacionais e estrangeiros, e faz um balanço do projeto ‘Lisboa Pride – homes for everyone’, a única marca no mercado imobiliário exclusivamente direcionada para o público LGBTI+.

Consultor imobiliário
Consultor imobiliário e presidente da Variações / João Passos

A zona do Príncipe Real, em Lisboa, continua a ser a zona LGBTI+ por excelência?

Sim, continua, no sentido em que os negócios mais emblemáticos destinados à comunidade continuam concentrados nessa zona. Infelizmente, devido à pandemia, muitos desses negócios ou estão encerrados ou com a sua atividade bastante reduzida, mas também não se assistiu (ainda) a uma transferência em grande escala para outra zona. Mas tenho assistido à abertura de negócios LGBTI+/friendly noutras áreas (Castelo, Arroios, Intendente, Caparica) que provam que a comunidade não está concentrada numa localização apenas.

As outras áreas circundantes, como Santa Catarina e Bairro Alto, eixo da Almirante Reis (Intendente, Bairro das Colónias, Chile) continuam a crescer enquanto zonas LGBTI+ friendly? Houve mudanças?

Sem dúvida que o eixo da Almirante Reis, e especialmente a zona de Arroios, continua muito procurado pela comunidade LGBTI+. A diversidade de espaços e culturas nesta zona tornam-se um fator atrativo para uma comunidade que em si só, já é tão distinta. Porém, no último ano, verificou-se um maior interesse pela Margem Sul, especialmente Almada e Caparica. A pouca distância a Lisboa e os fáceis acessos, os preços mais baixos e a proximidade das praias ajudam a explicar esta tendência.  

No último ano, verificou-se um maior interesse pela Margem Sul, especialmente Almada e Caparica.

Vamos já no segundo ano de pandemia...Como é que este contexto impactou a procura e o negócio?

Na realidade, o impacto foi menor do que chegámos a temer. No nosso negócio, 2020 foi um ano de menos vendas e mais arrendamentos, mas muito dinâmico. A comunidade LGBTI+ está, historicamente, mais habituada a viver situações de exceção, é muito resiliente, e adapta-se mais facilmente a situações novas. É isso que a torna tão forte. Prova disso é que 2021 está a ser o melhor da nossa equipa, com muitos clientes nacionais e estrangeiros a querer investir e/ou mudar de casa.

Comunidade LGBTI+
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Como é que os preços de compra/venda e arrendamento estão a evoluir nas zonas mais inclusivas?

Os preços de compra/venda têm-se mantido relativamente estáveis, em Lisboa. Noto no entanto que a zona de Almada tem tido um crescimento nos valores das transações. Os valores dos arrendamentos, depois de uma quebra acentuada em 2020, estão a recuperar, ainda de forma lenta.

Valores dos arrendamentos, depois de uma quebra acentuada em 2020, estão a recuperar

Os clientes portugueses procuram mais casas para comprar ou arrendar? E as tipologias?

Os nossos clientes nacionais têm, curiosamente, procurado comprar ao invés de arrendar. Aliás, a tendência tem sido a de sair do arrendamento para a propriedade da casa onde vivem. Taxas de juro historicamente baixas e acesso relativamente fácil ao crédito habitação, algum otimismo relativamente ao futuro, e a noção de que os preços muito provavelmente não irão descer, conjugados com a vontade de encontrar uma casa mais adaptada às atuais necessidades (home office, zona exterior), são as principais razões que motivam os clientes portugueses a comprar casa.

Clientes nacionais têm, curiosamente, procurado comprar ao invés de arrendar.

A necessidade de mais espaço tem feito com que a procura dos T2 tenha aumentado relativamente à dos T1, que são tipicamente as tipologias mais procuradas na compra e venda. Nos arrendamentos, e fruto do fenómeno do co-living, já se nota uma procura maior por tipologias T3 e T4.  

Mercado imobiliário LGBTI+
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E os estrangeiros? Continuam a ter contactos? A pandemia provocou quebras na procura (por causa do turismo) ou sentem que há cada vez mais pessoas com planos para vir morar para o país?

Temos, fruto de muitos anos a trabalhar o mercado internacional, muitos clientes estrangeiros. Claro que notámos, durante os períodos de confinamento, um certo compasso de espera, mas a realidade é que este mercado continua a representar uma grande fatia do nosso negócio. Chegámos a fechar vendas e arrendamentos apenas com recurso a fotos, visita virtual e vídeo, e até vídeochamada. Acreditamos que Lisboa, e Portugal, continuam muito apelativos enquanto destino para investir e viver, e o nosso número de contactos por clientes estrangeiros está ao nível dos números pré-pandemia.

Como está a correr o projeto da Lisboa Pride – Homes for everyone?

Está a correr muito bem. Cada vez mais a comunidade LGBTI+ identifica a nossa marca como uma mais valia no seu objetivo de compra/venda/arrendamento de casa. Para muitas pessoas da comunidade, a procura de casa torna-se um processo especialmente stressante, entre ter que esconder a sua realidade e o receio de não ser aceite do outro lado.

Para muitas pessoas da comunidade, a procura de casa torna-se um processo especialmente stressante, entre ter que esconder a sua realidade e o receio de não ser aceite do outro lado.

A nossa participação no processo ajuda a mitigar esses receios e a realidade é que não assistimos a situações de discriminação para com os nossos clientes. Por outro lado, continuámos a apoiar a comunidade da forma possível (por exemplo, patrocinámos os Prémios Arco-Íris promovidos pela ILGA), e ansiamos pelo regresso dos grandes eventos (como o Arraial Pride de Lisboa). Sermos a única marca no mercado imobiliário exclusivamente direcionada para o público LGBTI+ é um orgulho mas também uma grande responsabilidade.