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Arco-íris continua a brilhar: as tendências do mercado residencial LGBTI

Os efeitos da Covid-19 refletem-se, também, neste segmento de mercado. Padrões de procura estão a mudar: querem-se casas com mais espaço e proximidade do mar ou rio.

Photo by Jiroe on Unsplash
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Autor: Redação

Junho é o mês do orgulho. Assinala-se a defesa da igualdade e a liberdade na orientação sexual e identidade de género, ainda que este ano, por causa da Covid-19, as ruas não se pintem com as cores do arco-íris, como habitual. Os efeitos do surto e do confinamento refletem-se, também, no mercado imobiliário LGBTI, a nível dos padrões de procura e reavaliação das necessidades em termos de habitação. Lisboa e Porto continuam a ser os destinos preferidos para viver desta comunidade, destacando-se por ter alguns dos bairros mais inclusivos do país. Mas, afinal, quais são as tendências de mercado em tempos de pandemia? E quanto custa comprar ou arrendar casa nestas zonas arco-íris?

Em Lisboa, a zona do Príncipe Real continua a ser a zona LGBTI por excelência, e a concentrar a maior parte dos negócios vocacionados para a comunidade, segundo João Passos, consultor imobiliário na Remax e responsável pelo projeto “Lisboa Pride – homes for everyone”. Mas, e ainda segundo este profissional, o eixo Almirante Reis (Arroios, Penha de França), com zonas como o Mercado de Arroios/Alameda e Intendente, tem vindo a cimentar-se como alternativa ao Príncipe Real - que manteve preços altos e escassez de oferta -. Também Alcântara é cada vez mais uma opção (devido aos preços mais baixos, em comparação e à localização). Em paralelo, há novas zonas a ganharem destaque desde o rebentar da pandemia, como por exemplo a Charneca da Caparica, na Margem Sul do Tejo, face à proximidade à praia e da capital.

No Porto, o roteiro gay friendly identifica várias zonas e bairros tendência, nomeadamente o Bairro das Artes (Ruas de Cedofeita, Breiner, Torrinha, Bragas), Cordoaria, Leões, Passeio das Virtudes, e também Massarelos (Rio Douro), como sendo os locais mais procurados. Na experiência da LUXIMOS Christie's, segundo Sofia Barreto, Marketing and Communications Manager da imobiliária, quando falamos no mercado de luxo, a preferência vai claramente para zonas à beira do Rio Douro, que desde há vários anos se assume como foco de atração para estrangeiros. A responsável relembra, de resto, o programa gravado pela House Hunters Internacional (um dos mais famosos do mundo), em 2016, no Porto, que mostra como dois norte-americanos encontraram na Invicta a sua casa de sonho.

Comprar casa nas zonas mais LGBTI+ friendly de Lisboa e Porto

O idealista/news quis saber quanto custa comprar casa nas zonas arco-íris do país, em Lisboa e no Porto, comparando os períodos pré e pós-Covid-19, tendo como referência os preços médios por metro quadrado (m2) nos meses de fevereiro e maio deste ano, e respetiva variação.

Segundo os dados do idealista/data, a zona do Príncipe Real e circundantes (como Bairro Alto) continuam a ser as zonas mais caras para viver quando se quer ser proprietário. No Príncipe Real o preço médio de venda por m2 em fevereiro de 2020 rondava os 6.738 euros, e caiu em maio de 2020 para os 6.688,45 euros (numa variação de -0,74%) No Bairro Alto, os valores passaram de 6.323,75 euros por m2 em fevereiro, para os 6.172,54 euros por m2, em maio – uma quebra de -2,39%.

No eixo Almirante Reis, as zonas de Arroios, Penha de França e Anjos apresentam-se como soluções mais acessíveis para se viver na capital, se comparadas com o Príncipe Real e Bairro Alto. Comprar casa em Arroios custava 4.585,71 euros por m2 em fevereiro e, em maio, os valores caíram para 4.491,10 euros por m2, numa uma variação de -2,06%. Na Penha de França e Anjos, por outro lado, os preços subiram de fevereiro para maio: de 3.658,85 para 3.684,69 euros por m2 (+0,71%), e de 3.822,54 para 3.945,55 euros por m2 (+3,22%), respetivamente.

Em Alcântara, bairro de Lisboa perto do rio Tejo, os preços também subiram de fevereiro para maio, nomeadamente de 4.578,06 para 4.647,56 euros por m2 (+1,52%). A zona mais barata para a comunidade LGBTI comprar casa fica efetivamente na margem sul do Tejo. Na Charneca da Caparica, em Almada, o preço médio por m2 rondava os 1.821, 25 euros em fevereiro, tendo subido para os 1,876,99 euros por m2 em maio.

Mais a norte, na região do Porto, os preços subiram ligeiramente em todas as zonas consideradas mais inclusivas, comparando os meses de fevereiro e maio, ou seja, numa cenário de pré e pós-pandemia. Na Cedofeita o preço médio por m2 subiu de 3.298 euros em fevereiro, para 3.358,78 euros poe m2 em maio, e em Massarelos os valores passaram de 3.205,57 euros por m2 para 3.255,30 euros por m2. A zona do centro histórico continua a ser, de resto, a mais cara: o preço médio por m2 em fevereiro rondava os 4.456,27 euros e, em maio, subiu para os 4.546,46 euros por m2 (+2,02%).

Arrendar casa nas zonas mais LGBTI+ friendly de Lisboa e Porto

E quanto custa arrendar casa nas zonas mais inclusivas da capital e da Invicta? Mais uma vez, e comparando o cenário pré e pós-Covid-19, tendo como referência os preços médios por m2 em fevereiro e maio, registam-se diferentes variações, segundo os dados do idealista/data. Nas zonas mais caras de Lisboa para a comunidade LGBTI viver, nomeadamente no Príncipe Real e Bairro Alto, verificaram-se as quedas mais significativas: os preços caíram 8,3% no primeiro caso, e 17,58% no segundo, em termos de arrendamento.

No eixo Almirante Reis, em Arroios, o preço médio por m2 caiu de 15,73 euros em fevereiro para 15,02 euros em maio e, nos Anjos, de 16,67 euros para 14,44 euros por m2. Na Penha de França, por outro lado, houve um aumento de preços: em fevereiro o preço por m2 situava-se nos 13,91 euros e, em maio, subiu para os 16,12 euros.

Em Alcântara também se registaram subidas: o preço subiu de 14,15 euros por m2 para 15,04 euros por m2. Na Charneca da Caparica, a zona mais acessível para arrendar, neste conjunto, os preços rondavam os 9,32 por m2 em fevereiro e aumentaram para 9,89 euros por m2 em maio.

Na Porto, o comportamento das rendas também varia. No caso de Cedofeita, o preço médio por m2 desceu de 11,65 euros para 11,31. Sucedeu-se o mesmo em Massarelos (zona junto ao rio Douro), com os preços a cairem, em fevereiro, de 10,75 euros para 10,43 euros por m2. No centro histórico da cidade, por outro lado, o preço médio cresceu 10%: de 12,46 euros para 13,71 euros por m2.

As tendências e o impacto da Covid-19: “mais espaço mais luz, e zonas exteriores”

De acordo com João Passos, o preços de compra/venda nas zonas mais inclusivas da capital mostram-se “relativamente estáveis, com alguma tendência para os compradores fazerem ofertas claramente abaixo do valor pedido, mas com os proprietários a não quererem negociar muito”. As ofertas, explica o consultor imobiliário especializado neste segmento de mercado, "sobem até valores que não são significativamente abaixo dos praticados antes da pandemia”. Nas zonas turísticas, contudo, a “pressão é maior” porque “sendo um mercado que vive muito de compradores estrangeiros e investidores (nacionais ou não) – para o mercado de AL – a redução grande do turismo (e a limitação nas viagens) está a ter impactos, com algumas descidas de preço e menos pedidos de visita”.

No mercado de arrendamento, analisa, “houve uma transferência grande” de imóveis que estavam a ser explorados em regime de Alojamento Local, nomeadamente vários no Príncipe Real, para o mercado de longa duração. “Obviamente, com o aumento da oferta, os preços baixaram. Em média, diria uns 20% abaixo, comparando com igual período do ano passado”, aponta o consultor.

O responsável indica também que houve uma “descida acentuada da procura por estrangeiros, e descida muito menos acentuada da procura por nacionais/residentes”, mas destaca que na sua imobiliária foram “contactados por vários potenciais clientes estrangeiros, cujos planos são virem em 2021 para comprar”. João Passos sublinha, também, uma nova tendência, nomeadamente o facto de se verificar cada vez mais um aumento da procura de casas fora de Lisboa, até 45 min/1 hora de distância, com áreas exteriores, muitas vezes para residência principal.

“Tenho assistido a um maior interesse na compra, do que anteriormente. Penso que as pessoas procuram nesta fase alguma estabilidade, a segurança de um investimento seguro (a médio/longo prazo) como é o imobiliário e o facto dos bancos continuarem a emprestar dinheiro com taxas muito baixas. Claro que o facto de terem passado tanto tempo fechadas em casa obrigou a um reavaliar das necessidades em termos de habitação para muita gente. O desejo de todos os portugueses neste momento é mais espaço (muitos clientes precisam agora de ter uma área de trabalho em casa), mais luz, e zonas exteriores (boas varandas, terraços, pátios ou jardins)”, partilha com o idealista/news.

Sofia Barreto, da LUXIMOS Christie's, e no que diz respeito aos preços, acredita que o facto de o centro do Porto se encontrar muito inflacionado acabou por prejudicar este mercado (neste caso, de luxo), segundo a qual, nos próximos meses, vai assistir a uma correção em baixa. Confirma, de resto, tal como em Lisboa, que já é visível um aumento da oferta, especialmente de imóveis que se encontravam em AL, algo que também poderá dar origem, mais uma vez, a uma correção de valores.

Por sua vez, Paulo Sousa, gerente da agência ERA Porto Baixa, não conseguindo perspetivar a evolução de preços na generalidade dos segmentos de mercado, garante que, para já, os proprietários ainda estão a conseguir “aguentar” os valores, ainda que neste momento não haja procura, e que a que existe é para oferecer um valor abaixo do preço do que estava a ser pedido.