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A casa do futuro: “Valor emocional dos m2 dos espaços exteriores” fará a diferença

"Quando queremos relaxar, procuramos idealmente locais envoltos em paisagem natural. Essa tendência não é um acaso", refere o arquiteto Paulo Merlini.

Créditos: Paulo Merlini Architects
Créditos: Paulo Merlini Architects
Autor: Leonor Santos

A pandemia veio mudar o conceito de casa e colocar em evidência a “necessidade de contacto com o mundo natural”, segundo Paulo Merlini, fundador do atelier Paulo Merlini Architects. Em entrevista ao idealista/news, o arquiteto diz que o confinamento trouxe à tona esta “necessidade visceral por espaços ao ar livre”, dando impulso ao aumento da procura por este tipo de produto e ao “arranque de uma nova era”. Mas, afinal, quais os efeitos no mercado? Do lado dos promotores, percebeu-se, por exemplo, “que o valor emocional dos metros quadrados (m2) dos espaços exteriores, como jardins ou varandas, tem hoje uma outra expressão no momento da tomada de decisão”.

Paulo Merlini explica que, no decorrer deste último ano, sempre que foram abordados por um promotor, colocou-se ênfase nas questões dos espaços ao ar livre, e mesmo que “este não viesse munido dessa sensibilidade, demonstrava uma muito maior permissividade à ideia”. “Como qualquer sistema complexo, existe sempre um delay entre o momento que despoleta o mecanismo e o impacto final do mesmo. Sendo a construção um processo demorado, as decisões que estão a ser tomadas hoje em projeto, com o impacto da pandemia e do confinamento ainda muito presentes, aparecerão cristalizadas daqui a uns três a cinco anos”, acrescenta o responsável.

Para Paulo Merlini, este novo contexto provocará uma mudança “inevitável”, destacando-se a importância da arquitetura na forma como esta impacto o nosso bem-estar físico e emocional. Este gabinete de arquitetura segue, de resto, a filosofia criativa ‘Us is More’, baseada “na obrigação de adaptar o espaço aos nossos corpos e não o contrário”, e na importância do conhecimento do corpo humano, principalmente na resposta do cérebro humano aos estímulos exteriores. Mas, afinal, como é que isto se materializa em projeto?

“Tal como comprovado já por centenas de estudos, a presença de elementos vegetais relaxa o indivíduo. Isto foi, durante milhares de anos, uma adaptação biológica bastante favorável. Por norma, uma ida ao dentista é causa de alguma ansiedade, então, sabendo isso, aplicamos por toda a clínica, maioritariamente na sala de espera, elementos vegetais, de forma a alterar o nível de stress do indivíduo através de um processo milenar herdado pela nossa biologia”, refere o arquiteto, a título de exemplo. “Como este, existem milhares de outros exemplos e mecanismos que podemos ativar que trarão bem-estar ao indivíduo, ainda que de forma inconsciente”, acrescenta.

Sediado no Grande Porto, o atelier Paulo Merlini Architects foi recentemente capa de uma revista de renome internacional, a ‘Interior Design Magazine’ com o projeto de escritórios ‘E-Goi & Clavel’s Kitchen’, sendo também o autor da “Casa Rio” - uma obra destacada em várias revistas de arquitetura e design de interiores e que foi selecionada pela Bienal de Arquitetura em Veneza, para integrar a lista de alguns dos melhores projetos de arquitetura de todo o mundo.

Ao idealista/news, o fundador do gabinete falou sobre este e outros projetos, procurando refletir sobre o presente e futuro da construção e arquitetura, mas também sobre outros temas de atualidade, como a dicotomia cidade/campo e os seus efeitos.

Paulo Merlini, fundador do atelier Paulo Merlini Architects
Paulo Merlini, fundador do atelier Paulo Merlini Architects

Pode falar-nos um pouco (em traços gerais) sobre a história do Paulo Merlini Architects? Em que ano foi fundado, onde e por quem...

O nosso gabinete foi fundado por mim em finais de 2007, o ano em que se instalou a crise de sub-prime. Este acontecimento acabou por definir em grande medida as encomendas nesta primeira fase de atividade. Numa fase em que estas eram escassas, a maior parte dos projetos que nos chegavam ao gabinete eram de pequenas remodelações e serviços. No entanto, e sendo que o nosso foco é o de readaptar a arquitetura à biologia humana de forma a criar uma influência positiva no nosso bem-estar, hoje focamo-nos maioritariamente em projetos de grande escala, já que são estes que impactam o maior número de pessoas.

Olhando para trás, parece-nos interessante perceber que, independentemente da mudança de escala dos projetos a que nos dedicamos, as premissas que definiam a abordagem criativa no início do nosso processo, são as mesmas que usamos hoje.

A que tipo de projetos se dedicam?

Como referi acima, nos primeiros anos dedicamo-nos maioritariamente a projetos de interiores. Desenhamos clínicas dentárias, pastelarias, lojas de roupa, pequenas remodelações, restaurantes, entre outros do género. Com alguns desses projetos ganhamos os nossos primeiros prémios internacionais, o que naturalmente criou algum burburinho à volta do nosso trabalho e nos trouxe uma primeira vaga de reconhecimento. Com isso veio também uma das primeiras aprendizagens na vertente do negócio.

Abidjan Tower, Costa do Marfim / Paulo Merlini Architects
Abidjan Tower, Costa do Marfim / Paulo Merlini Architects

A projeção criada por essas obras, criou junto do público a falsa perceção de que nos dedicávamos exclusivamente à arquitetura de interiores. Isso não podia estar mais longe da verdade, já que a nossa formação é em arquitetura propriamente dita e não arquitetura de interiores. No entanto, e considerando que nos formamos no Porto, sentimos que aqui o curso nos prepara para todo o tipo de escalas, acredito inclusivamente que seja uma característica transversal a todos os cursos de arquitetura no nosso país, mas falo da escola do Porto porque é a que conheço.

Percebemos então que se não fossemos nós a definir o nosso mercado, seria o mercado que nos definiria a nós. Procedemos a algumas alterações internas, maioritariamente nos processos de comunicação e de abordagem ao mercado, e com essa mudança começamos a atingir novas escalas. Hoje focamo-nos maioritariamente no desenvolvimento de projetos de grande escala, numa dinâmica muito próxima aos promotores imobiliários.

Foram capa da Interior Design Magazine com o projeto de escritórios ‘E-Goi & Clavel’s Kitchen’. Qual a importância deste reconhecimento?

A Design Magazine é uma das revistas com maior reconhecimento internacional na nossa área, e com um processo de seleção bastante rigoroso. Fazer capa numa revista desta magnitude é obviamente um orgulho para nós. Gostamos de pensar que é uma confirmação de que a paixão que colocamos na execução das nossas peças extravasa para o exterior. A título pessoal é mais uma “palmadinha nas costas” que nos diz que estamos no caminho certo.

Que projeto é este (que fez a capa)? Nasceu na pandemia?

Trata-se da ampliação da nova sede da E-goi, uma empresa de marketing digital, e da Clavel's Kitchen, uma empresa de produção de conteúdos que se dedica exclusivamente a marcas do setor alimentar, ambas em franca ascensão. O projeto iniciou-se em 2018 e a obra ficou concluída em 2020, o que coincidiu com o início da pandemia. Isso fez com que só muito recentemente os clientes pudessem começar a usufruir verdadeiramente do espaço.

Paulo Merlini Architects
Paulo Merlini Architects

Em que é que se inspiraram para aquela “rampa escultórica”?

A rampa escultórica resultou da necessidade de interconectar os três pisos de forma fluída e natural, premissas que de resto se encontram presentes por todo o projeto, e pela vontade de criar uma peça icónica que caracterizasse todo o espaço e o munisse de uma identidade muito própria. A sua localização junto da fachada principal não foi inocente. Se por um lado cria um primeiro ponto de ligação entre o piso do rés-do-chão e o espaço da cantina, desenhada para que um dia possa vir a ser utilizada como restaurante aberto ao público, por outro funciona como um elemento que apela ao olhar curioso do transeunte que passa na rua, reforçando a identidade da empresa. 

A Casa Rio também tem sido destacada em várias revistas de arquitetura e design de interiores e foi selecionada pela Bienal de Arquitetura em Veneza, para integrar a lista de alguns dos melhores projetos de arquitetura de todo o mundo. Pode falar-nos um pouco sobre este projeto? E destacam algum outro?

Esse projeto foi a primeira casa desenhada pelo nosso gabinete. Trata-se de uma remodelação de uma casa antiga de lavoura cuja forma peculiar resulta não de um formalismo, mas antes do evidenciar das pré-existências que compunham a casa original. Ao desmontar os materiais pobres da fachada apercebemo-nos que a casa era composta na verdade por três pequenas casas, que foram sendo construídas ao longo do tempo pelo antigo proprietário. Esse crescimento gradual e orgânico é relativamente normal neste tipo de imóvel.

Decidimos aproveitar essa particularidade da pré-existência, potenciando-a com uma laje ajardinada que interconecta os três volumes. Desta forma garantimos luz natural em todos os espaços, que é aliás uma característica transversal a todos os nossos projetos, e criamos um jardim completamente privado para os quartos, localizados no piso superior.

Dizem que a vossa missão é “readaptar a arquitetura à biologia humana”, com base na filosofia ‘Us ir More’. Em que medida?

O nosso entendimento é de que o processo criativo se trata em última instância de um processo de raciocínio, assim sendo, parece-nos pouco lógico que a arquitetura se sustente não em factos, mas antes em mera intuição.

Partindo desse nosso entendimento, integramos no nosso processo criativo a perceção de que os nossos corpos são o produto de um processo de evolução resultante da relação sinérgica com o meio envolvente, que se manteve relativamente estável desde o surgimento do homo-sapiens há 200.000 anos. No entanto, em grande parte devido à revolução industrial, a realidade exterior sofreu uma reviravolta gigante. Com a descoberta do potencial energético proveniente de fontes como o carvão ou o petróleo, e a consequente revolução em áreas como a medicina, passamos de uma população mundial que nunca tinha ultrapassado 1 bilião de indivíduos para 8 biliões em pouco mais de 150 anos. Se compararmos esta escala temporal com um dia, a revolução industrial teria surgido apenas às 23h59. Durante todo o restante período os nossos corpos foram-se adaptando a uma realidade completamente distinta da atual.

Parque Urbano Gondomar / Paulo Merlini Architects
Parque Urbano Gondomar / Paulo Merlini Architects

Vivemos hoje “presos” em corpos desadaptados à realidade atual, um planeta completamente envolto em artefactos arquitetónicos que ignoram este legado biológico de milhares de anos.

"(...) integramos no nosso processo criativo a perceção de que os nossos corpos são o produto de um processo de evolução resultante da relação sinérgica com o meio envolvente (...)

Com o ‘Us Is More’ o que pretendemos dizer é que somos nós, os seres humanos, a peça mais importante do puzzle. É mais importante darmos relevância à nossa própria natureza, ao nosso legado biológico, do que às ideias, ou contraponto de ideias que se vão instalando e acumulando culturalmente, e que surgem na maior parte das vezes como um mero contraponto às ideologias do movimento arquitetónico anterior. Não queremos com isto dizer que não seja importante considerar o legado cultural, mas este é apenas a ponta do iceberg de uma realidade infinitamente maior. Criar espaços sem considerar os restantes 99% da nossa história neste planeta, em que vivemos numa realidade completamente distinta da atual, parece-nos uma forma muito redutora de olhar para a arquitetura.  

Urge a necessidade de integrar esta perceção no processo criativo dos arquitetos, de forma a conseguir uma arquitetura verdadeiramente universal.

Covet Town, Gondomar / Paulo Merlini Architects
Covet Town, Gondomar / Paulo Merlini Architects

Como é que a arquitetura impacta o nosso bem-estar físico e emocional?

No seguimento do raciocínio anterior, e respondendo à sua pergunta, a forma como o fazemos é integrando informação proveniente de outras áreas do conhecimento humano. A título de exemplo, tal como comprovado já por centenas de estudos, a presença de elementos vegetais relaxa o indivíduo. Isto foi, durante milhares de anos, uma adaptação biológica bastante favorável. Por norma, uma ida ao dentista é causa de alguma ansiedade, então, sabendo isso, aplicamos por toda a clínica, maioritariamente na sala de espera, elementos vegetais, de forma a alterar o nível de stress do indivíduo através de um processo milenar herdado pela nossa biologia.

Combatentes da Grande Guerra, Porto / Paulo Merlini Architects
Combatentes da Grande Guerra, Porto / Paulo Merlini Architects

Como este, existem milhares de outros exemplos e mecanismos que podemos ativar que trarão bem-estar ao indivíduo, ainda que de forma inconsciente. Gostamos de pensar as nossas obras como mecanismos de manipulação positiva.

A pandemia acabou por colocar ênfase nestas questões. A casa no centro de tudo, por exemplo. Este contexto vai mesmo “mudar” os conceitos de casa e de espaço público?

A pandemia veio acelerar uma perceção que se encontra no inconsciente coletivo desde sempre, e que tem a ver com esta necessidade do contacto com o mundo natural. Basta pensar que quando queremos relaxar, procuramos idealmente locais envoltos em paisagem natural. Essa tendência não é um acaso, mas antes uma necessidade de um mecanismo muito antigo integrado no nosso genoma.

A pandemia veio acelerar uma perceção que se encontra no inconsciente coletivo desde sempre, e que tem a ver com esta necessidade do contacto com o mundo natural

Na minha opinião, essa mudança é inevitável porque já se começam a cristalizar as suas bases. O mercado funciona como um relógio suíço, composto por engrenagens que se influenciam mutuamente. O confinamento trouxe à tona esta necessidade visceral por espaços ao ar livre, o que naturalmente aumentou a procura por esse tipo de produto. Os promotores, esses barómetros do mercado, ao sentirem essa procura perceberam que o valor emocional dos m2 dos espaços exteriores, como jardins ou varandas, tem hoje uma outra expressão no momento da tomada de decisão, o que naturalmente se expressará num valor de venda acrescido. No decorrer deste último ano, sempre que fomos abordados por um promotor, este referiu-nos essa vontade, e mesmo que não viesse munido dessa sensibilidade demonstrava uma muito maior permissividade à ideia.

Os promotores, esses barómetros do mercado, ao sentirem essa procura perceberam que o valor emocional dos m2 dos espaços exteriores, como jardins ou varandas, tem hoje uma outra expressão no momento da tomada de decisão

Resta referir que como em qualquer sistema complexo, existe sempre um delay entre o momento que despoleta o mecanismo e o impacto final do mesmo. Sendo a construção um processo demorado, as decisões que estão a ser tomadas hoje em projeto, com o impacto da pandemia e do confinamento ainda muito presentes, aparecerão cristalizadas daqui a uns três a cinco anos, e claro isto funcionará como um sistema de alavancagem mútuo, em que quem quer sobreviver terá de se adaptar. A perceção da importância dos espaços exteriores vive hoje o arranque de uma nova era.

Sentiram mudanças na procura ao nível dos projetos requisitados, por exemplo?

O meu discurso acima acerca da valorização dos promotores relativamente aos espaços exteriores advém exatamente desta perceção de mudança de paradigma que se expressou pela mudança de discurso dos nossos clientes.

Oporto Center Unilabs / Paulo Merlini Architects
Oporto Center Unilabs / Paulo Merlini Architects

Como é que perspetivam o futuro da arquitetura e da construção?

A perceção de mudança de paradigma não se sentiu apenas no discurso dos promotores. Durante a 2ª vaga da pandemia sentimos um claro aumento no pedido de propostas para projetos de casas com espaços exteriores. A maior parte desses clientes não avançaram com este seu desejo porque lá está, foi uma vontade motivada por um impulso emocional, o verdadeiro motivador das nossas ações, mas depois do processo emocional, segue-se o racional que bloqueia ou nos faz avançar para a decisão final. Este mecanismo neuronal é hoje reconhecido e comprovado pelos estudos de imagiologia realizado em áreas como a neurociência.

No caso do promotor, este parte, ou deverá partir sempre, de decisões racionais e não emocionais. O que faz com que as vontades se concretizem, e é a concretização de vontades que muda o mundo e não o mero desejo de fazer acontecer.  

Há quem fale num êxodo urbano para o campo devido à pandemia e há quem diga que o fim da vida nas cidades é um mito. Como perspetivam toda esta problemática?

Claramente que o fim da vida nas cidades é um mito. Que poderá existir um pequeno êxodo urbano, com isso poderei concordar, mas será algo pontual no tempo. Sempre entendi que a melhor forma de “adivinhar” o futuro é observando o passado. E se observarmos a história apercebemo-nos que essa fuga da cidade para o campo, e vice-versa, tem-se vindo a repetir vezes sem conta ao longo da história, não só por conta das pandemias mas também por vários outros fenómenos. A revolução industrial é apenas um dos exemplos históricos representativos desse fenómeno, no meio de dezenas de outros que poderia enumerar. A promessa de melhores condições de vida e até de enriquecimento levou a uma deslocação em massa do campo para a cidade sobre a “promessa” de melhores condições de vida, e a posterior fuga para o campo pela falta de condições de salubridade criadas são um exemplo disso.

Claramente que o fim da vida nas cidades é um mito. Que poderá existir um pequeno êxodo urbano, com isso poderei concordar, mas será algo pontual no tempo.

Este fenómeno recorrente dá-nos uma resposta clara de que o fim das cidades é efetivamente um mito. Devo acrescentar ao raciocínio que independentemente destes fenómenos serem recorrentes, eles devem ser sempre analisados à luz da realidade presente. E a realidade de hoje não é a mesma de há 100 anos, ou mesmo de há 50 anos atrás. Vivemos hoje num mundo completamente interconectado através da internet, e essa realidade permite hoje novas variantes que não seriam possíveis até então. Atualmente é possível adquirir uma casa no campo e trabalhar a partir de lá, garantindo a mesma capacidade de resposta. Assim, parece-me que o que irá acontecer é uma fusão muito mais diluída da dicotomia cidade/campo.

Se juntarmos a perceção atual forçada pelo fenómeno do confinamento por parte dos decisores das empresas, de que trabalhar a partir de casa não significa necessariamente uma redução na qualidade do trabalho, com a perceção por parte dos promotores relativamente à relevância e potencial comercial da criação de espaços exteriores dignos, e a preocupação generalizada com as questões de sustentabilidade, teremos cidades mais verdes e áreas rurais mais urbanizadas, o que resultará numa realidade envolvente mais homogénea.