A crise na habitação em Portugal tem vindo a gerar uma preocupação cada vez maior e acompanhamento por parte deste Governo e dos especialistas do setor, bem como da própria Comissão Europeia e de outras entidades internacionais. Apesar do elevado preço das casas, da falta de oferta e das dificuldades acrescidas na compra de casa para muitas famílias a viver no país, os principais bancos antecipam que o crédito habitação continuará “forte” ao longo de 2026, apoiado pela estabilidade das taxas de juro. As expetativas do setor financeiro são reforçadas pela decisão recente do Banco Central Europeu (BCE) de manter inalteradas as taxas diretoras (que servem de referência à Euribor), a par do elevado nível de emprego.
Esta foi uma das análises partilhadas no painel "A Visão dos Bancos", realizado esta quinta-feira, 5 de fevereiro, durante o evento Observatório Imobiliário da Century 21, na Meo Arena, em Lisboa. No debate, nenhum dos banqueiros presentes antecipou uma quebra da procura no próximo ano. Pelo contrário, a sua visão convergiu na ideia de que o crédito habitação vai continuar bem forte ao longo de 2026, mesmo num contexto de preços elevados e falta de casas.
“O crédito habitação vai manter-se com muita procura em 2026”, afirmou Miguel Bello de Carvalho, administrador do Santander, destacando a escassez de oferta, a estabilidade das taxas de juro e a manutenção dos incentivos como fatores determinantes. Também Diogo Louro, administrador do BPI, partilhou uma visão positiva para este ano, sublinhando que o mercado deverá continuar “muito, muito dinâmico”. Os níveis de emprego historicamente elevados são fundamentais para sustentar a procura por crédito habitação, aponta.
O administrador da Caixa Geral de Depósitos (CGD), Luís Pereira Coutinho, antecipa também uma procura por crédito habitação sustentada, com algum crescimento face a 2025. Mas deixou um alerta: o banco público continuará a afastar-se do crédito especulativo, privilegiando famílias, jovens e a melhoria das condições habitacionais. “A Caixa vai continuar a não financiar crédito especulativo, comprar hoje para vender amanhã”, declarou, acrescentando que o foco do banco do Estado permanecerá nos empréstimos para a compra de habitação própria permanente e na reabilitação do parque habitacional.
O CEO do BCP partilha o mesmo otimismo para 2026, mas introduz uma nota de maior prudência. Miguel Maia afastou a ideia de um "um sobreaquecimento de 35% no preço das casas" em Portugal, admitindo, ainda assim, que possa ocorrer um ajustamento dos preços em alguns segmentos da habitação destinados às famílias de maior rendimento. "Esse ajustamento dificilmente ocorrerá já em 2026 porque há desfasamento entre a oferta e procura, mas existirá num prazo de três a cinco anos em alguns segmentos", comentou no evento.
Uma parte do debate centrou-se, também, no impacto das medidas dirigidas aos jovens, nomeadamente a garantia pública e os incentivos fiscais – isenção do Imposto Municipal sobre as Transmissões Onerosas de Imóveis (IMT) e do Imposto do Selo (IS). Os gestores bancários foram consensuais em considerar que estas medidas facilitaram a entrada de jovens no mercado, mas não resolveram o problema estrutural da habitação.
“Se alguém pensou que estas medidas iam resolver o problema da habitação em Portugal, está completamente equivocado”, afirmou Miguel Maya, defendendo que o principal mérito foi permitir que jovens sem poupança suficiente conseguissem comprar a primeira casa. A verdade é que, nos últimos anos, a forte subida dos preços das casas acabou por absorver grande parte das poupanças resultantes da isenção de impostos, como o IMT e o Imposto do Selo, limitando o impacto real desses benefícios no esforço financeiro dos mais jovens.
BCE volta a manter juros – mas haverá impacto na Euribor?
A estabilização da Euribor pouco acima de 2% é um dos fatores que ajudam a sustentar a elevada procura por crédito habitação no nosso país, que atingiu um novo máximo em 2025 com 23,3 mil milhões de euros emprestados.
E esta estabilidade da Euribor tem sido alimentada pelo Banco Central Europeu (BCE), que voltou a manter as suas taxas de juro diretoras inalteradas pela quinta reunião consecutiva, numa posição que considera “boa” para enfrentar choques futuros. A decisão, tomada esta quinta-feira, dia 5 de fevereiro, reflete a estabilidade da inflação na zona euro perto da meta de 2% e a resiliência da economia europeia.
Para os consumidores em Portugal, esta estabilidade dos juros do BCE deverá manter a Euribor pouco acima de 2%. E as atuais perspetivas de evolução do indexante apontam também para uma ligeira oscilação em torno de 2% ao longo de 2026, mas sem sinais para alarme. Isto apesar de já ter surgido no mercado da hipótese de o BCE ter de cortar os juros caso a inflação desça abaixo da meta de 2% devido à alta valorização do euro face ao dólar.
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