O ruído deixou de ser um incómodo pontual para se afirmar como um dos principais fatores de desgaste no quotidiano dos portugueses, sobretudo em contexto urbano. Entre o trânsito constante, a atividade comercial, as obras e a proximidade entre habitações, a exposição sonora tornou-se contínua e, cada vez mais, invisivelmente prejudicial. Mais do que uma questão de conforto, trata-se de um problema estrutural com impacto direto na saúde, na produtividade e na qualidade de vida.
“Grande parte do parque habitacional português, sobretudo o edificado antes do ano 2000, revela fragilidades ao nível do isolamento acústico. Durante décadas, a regulamentação privilegiou outras dimensões construtivas, deixando lacunas no desempenho sonoro”, explica Miguel Maia, Diretor Técnico da Soprema. Segundo o especialista, “divisórias leves, ausência de desacoplamento estrutural e pontes acústicas facilitam a propagação do ruído, especialmente o de impacto, como passos ou o arrastar de mobiliário, uma das principais causas de conflito entre vizinhos”.
Num país onde o ruído é cada vez mais apontado como fonte de stress diário, a necessidade de repensar o conforto acústico ganha uma nova urgência. Já não se trata apenas de reduzir sons indesejados, mas de garantir condições reais de descanso, concentração e bem-estar dentro de casa.
“Mais do que um incómodo, o ruído é hoje um fator estrutural de desgaste com impacto direto na saúde e na qualidade de vida.”
De que forma o isolamento acústico influencia, de forma direta, o conforto e a qualidade de vida no interior de um imóvel?
O isolamento acústico influencia diretamente o conforto e a qualidade de vida ao reduzir a exposição ao ruído indesejado no interior da habitação. Um bom desempenho acústico permite melhorar significativamente a qualidade do sono, evitando interrupções mesmo quando não há um despertar consciente. Contribui também para a redução do stress e da irritação associados à exposição contínua ao ruído, promovendo um maior bem-estar geral. Para além disso, melhora a concentração e a produtividade, sendo particularmente relevante em contextos de teletrabalho ou estudo, e facilita a comunicação dentro da própria habitação. A exposição prolongada ao ruído pode ter impactos fisiológicos e cognitivos, pelo que o isolamento acústico se assume como um fator essencial para a saúde e equilíbrio das pessoas.
“Um bom isolamento acústico não melhora apenas o conforto — protege a saúde, o descanso e a capacidade de concentração.”
Quais são hoje as principais lacunas acústicas mais comuns no parque habitacional português e que impacto têm no dia a dia dos ocupantes?
As principais lacunas acústicas no parque habitacional português resultam sobretudo da antiguidade de grande parte dos edifícios, em particular os construídos antes do ano 2002, altura em que é aprovado o Regulamento dos Requisitos Acústicos dos Edifícios, que regula a vertente do conforto acústico no âmbito do regime da edificação, contribuindo para a melhoria da qualidade do ambiente acústico e para o bem-estar e saúde das populações, passando o seu cumprimento a ser uma obrigação legal.
A utilização generalizada de divisórias leves, sem massa suficiente, aliada à ausência de soluções de desacoplamento entre elementos construtivos, compromete o desempenho acústico. Acresce ainda a presença frequente de pontes acústicas, como lajes, pilares ou tubagens contínuas, que facilitam a propagação do som. Estas deficiências traduzem-se numa transmissão significativa de ruído entre frações e a partir do exterior, originando perturbações constantes como passos, conversas ou música, diminuindo a privacidade e contribuindo para níveis elevados de stress e desconforto no quotidiano dos ocupantes.
Que tipos de ruído tendem a ser mais difíceis de mitigar e porquê?
O ruído de impacto é, de forma geral, o mais difícil de mitigar. Este tipo de ruído, que inclui sons como passos ou o arrastar de móveis, propaga-se através da estrutura sólida do edifício, nomeadamente pelas lajes e paredes quando construídas solidariamente, sob a forma de vibrações.
Ao contrário do ruído aéreo, não se limita à transmissão pelo ar, o que torna a sua atenuação mais complexa e dependente de soluções específicas, como a aplicação de pisos flutuantes e materiais elásticos que absorvam essas vibrações. Já o ruído aéreo, como vozes ou o ruído da rádio e televisão, apesar de também relevante, é mais facilmente controlado através do aumento da massa das divisórias e da introdução de materiais absorventes.
Garantir silêncio dentro de casa não é apenas conforto, é uma medida de saúde, bem-estar e produtividade.
Que soluções construtivas considera mais pertinentes para melhorar o desempenho acústico em novas construções e em projetos de reabilitação?
As soluções construtivas mais eficazes para melhorar o desempenho acústico assentam essencialmente nos princípios da massa e do desacoplamento entre elementos construtivos, bloqueando a possibilidade do ruído se propagar entre elementos adjacentes.
Em novas construções e reabilitações, destaca-se a utilização de pisos flutuantes com mantas de isolamento de impacto, que reduzem significativamente a transmissão de vibrações entre pisos. As paredes duplas em gesso cartonado, com preenchimento em lã mineral, permitem aumentar o isolamento ao ruído aéreo, enquanto os tetos falsos desacoplados, também com materiais absorventes, contribuem para melhorar o desempenho global.
A substituição ou melhoria de caixilharias com vidro multicamada e com classes de permeabilidade ao ar melhores é igualmente fundamental no controlo do ruído exterior. Adicionalmente, o recurso a membranas acústicas viscoelásticas permite amortecer vibrações e limitar a propagação sonora. Em contexto de reabilitação, são particularmente relevantes as soluções de sobreposição, como tetos falsos ou reforço de paredes, que permitem melhorias sem necessidade de intervenções estruturais profundas.
“O défice de isolamento acústico continua a ser uma das principais origens de conflito e desconforto dentro das habitações.”
Em que fase de um projeto imobiliário deve o tema do isolamento acústico ser considerado para garantir os melhores resultados?
O tema do isolamento acústico deve ser considerado desde a fase inicial de projeto. É nesta etapa que é possível integrar de forma eficaz soluções de desacoplamento estrutural e definir corretamente os sistemas construtivos a adotar, integrando e compatibilizando todos os elementos construtivos.
A consideração precoce deste fator evita a necessidade de intervenções posteriores, que tendem a ser mais complexas, dispendiosas e menos eficazes. Além disso, garante que o edifício cumpre os requisitos legais desde o início, assegurando um desempenho acústico adequado e consistente.
De que forma é que um bom desempenho acústico pode influenciar a valorização de um imóvel no mercado atual?
A valorização de um imóvel com bom desempenho acústico transcende o bem-estar imediato, convertendo-se num argumento de venda robusto e diferenciador num mercado cada vez mais exigente. Em termos práticos, a apresentação de um relatório de ensaios acústicos que comprove o cumprimento (ou superação) dos índices exigidos pelo RRAE (Regulamento dos Requisitos Acústicos dos Edifícios) funciona como um “selo de garantia” de construção invisível, mas valioso.
Esta evidência técnica minimiza o risco de litígios pós-venda por ruídos de vizinhança ou de equipamentos, assegurando ao investidor ou cliente final que a privacidade e o silêncio — particularmente relevante em contextos urbanos — estão contratualmente garantidos. Imóveis com bom isolamento acústico tendem a diferenciar-se no mercado e a ser mais procurados, contribuindo para a sua valorização.
Porque é que o isolamento acústico continua a ser menos valorizado do que a eficiência energética, e o que poderia ser feito para equilibrar esta perceção?
O isolamento acústico continua a ser menos valorizado do que a eficiência energética devido a vários fatores. Existe uma maior sensibilização pública e institucional para as questões energéticas, impulsionada por incentivos financeiros e pela obrigatoriedade de certificação energética, o que não acontece de forma equivalente no domínio acústico. Para além disso, as soluções acústicas são frequentemente mais complexas e implicam custos e intervenções que nem sempre são visíveis ou imediatamente valorizadas.
A certificação acústica do imóvel concluído é voluntária, o que, associado a alguma falta de regulação nos materiais usados como isolamento acústico e a uma fiscalização insuficiente da implementação do projeto, contribui para esta desvalorização.
Para equilibrar esta perceção, seria importante criar incentivos financeiros específicos para a reabilitação acústica, integrar o desempenho acústico em sistemas de certificação obrigatórios, reforçar a fiscalização das obras e promover uma maior sensibilização e formação dos profissionais do setor.
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