A 61.ª edição da Casa Decor 2026 abre portas na casa‑palácio oitocentista do Marqués de los Vélez e conde de Niebla, no Barrio de las Letras, em Madrid, pouco antes de o edifício ser convertido num hotel de luxo. Ali reúnem‑se 47 espaços criados por 240 profissionais, onde interiorismo, arquitetura e artesanato se cruzam para ditar as tendências do momento.
A Casa Decor está hoje assinalada como uma das paragens obrigatórias do calendário cultural e criativo de Madrid. Durante seis semanas, o evento transforma um edifício icónico da cidade numa montra única de design de interiores, aberta ao público para mostrar as últimas novidades do setor.
O idealista/news conversou com a diretora‑geral da Casa Decor – cargo que ocupa há quase uma década –, Alicia García Cabrera, que nos traça o retrato atual do interiorismo, a evolução da procura por serviços profissionais, os estilos mais pedidos e as tendências que começam já a desenhar o futuro deste mercado.
Alicia, como descreverias o momento que o setor do interiorismo está a viver atualmente em Espanha?
O setor do interiorismo está a atravessar uma fase muito saudável e otimista. Há hoje uma maior consciência de que contar com profissionais melhora a qualidade de vida, da mesma forma que recorremos a outros especialistas, como advogados ou dentistas. Percebe‑se melhor a importância de otimizar os espaços e de melhorar a relação com o ambiente doméstico.
Além disso, o acesso a estes serviços já não está limitado ao segmento de luxo. Existem soluções para diferentes orçamentos e, cada vez mais, as pessoas recorrem a profissionais mesmo para intervenções pequenas, como melhorar uma cozinha ou aumentar a capacidade de arrumação. Aliás, em casas mais pequenas, o papel do decorador de interiores torna‑se ainda mais relevante para tirar o máximo partido de cada metro quadrado.
Nesta edição vemos soluções inovadoras como superfícies 3D, materiais reciclados e tecnológicos. Que papel estão a desempenhar as novas tecnologias no desenvolvimento de projetos de interiorismo?
A tecnologia tem hoje um papel fundamental no interiorismo. Praticamente nenhum atelier trabalha já sem recorrer a ferramentas de inteligência artificial para potenciar a criatividade e tornar os processos mais eficientes. Estamos num momento de mudança profunda, em que estas tecnologias estão a transformar a profissão: permitem gerar ‘renders’ de alta qualidade, facilitar a comunicação de ideias e fazer apresentações mais claras e apelativas. Chegam mesmo a ajudar a visualizar conceitos de forma mais comercial e compreensível para o cliente.
Ao mesmo tempo, é preciso refletir sobre o impacto deste avanço no setor. A chave passa por diferenciar‑se através do valor humano: a criatividade, a intuição, a capacidade de questionar, a experiência e aquilo a que se chama “pensar com as mãos”.
Essa dimensão não automatizável continua a ser essencial. Nesse sentido, o verdadeiro luxo no interiorismo reside na personalização e em contar com profissionais capazes de ir além daquilo que qualquer pessoa consegue gerar com uma ferramenta digital. Enquanto a tecnologia traz apoio e eficiência, o olhar global, a visão de conjunto e a tomada de decisões continuam, pelo menos por agora, a depender do profissional.
Casa Decor não só nos mostra interiorismo, como inspira utilizadores, dá visibilidade aos profissionais e liga todos os intervenientes. O número de pessoas que contratam serviços de interiorismo aumentou nos últimos anos? A que é que achas que isso se deve?
A procura por decoradores de interiores aumentou no contexto atual, em grande medida graças à proliferação de canais de divulgação. Hoje, redes sociais, sites e meios de comunicação aproximam o interiorismo de um público muito mais vasto, gerando interesse, inspiração e também alguma educação em torno do bom gosto e do design.
Na Casa Decor percebe‑se muito bem esta dinâmica. Durante o período de portas abertas, a experiência presencial ganha destaque, permitindo ao visitante contactar diretamente com os espaços e as propostas. Durante a semana, predomina um perfil mais profissional – prescritores e especialistas do setor que vêm à procura de inspiração e novas aplicações –, enquanto ao fim de semana o público é mais generalista, incluindo o cliente final.
Este equilíbrio entre o lado profissional e o lado de divulgação, aliado ao alcance dos canais digitais, cria um efeito multiplicador. O chamado “efeito Casa Decor” é contagioso: depois da visita, muitas pessoas sentem vontade de transformar a sua própria casa, o que contribui diretamente para o aumento da procura de serviços de interiorismo.
Que perfil de cliente recorre hoje com mais frequência a um decorador de interiores?
O perfil é bastante diversificado. Nas grandes cidades, como Madrid – e em particular por ser capital – há uma forte presença de clientes internacionais que compram segundas ou terceiras residências. Estas cidades entraram em força no mercado global e atraem um público já habituado a trabalhar com profissionais de interiorismo.
Em paralelo, existe também uma classe média que recorre a estes serviços para projetos mais pontuais, como renovar a cozinha ou remodelar as casas de banho, procurando aconselhamento para melhorar a casa de forma funcional e esteticamente mais cuidada.
Sempre foram pioneiros na sustentabilidade e, também nesta edição, sob o chapéu da campanha #CasaDecorSustentável, apostam na reutilização, eficiência energética e processos de baixo impacto ambiental. Que peso tem hoje a sustentabilidade nos projetos e o que procuram mais os clientes?
Em matéria de sustentabilidade ainda há muito caminho a percorrer. Apesar de os custos irem diminuindo à medida que certas soluções se tornam mais comuns, a verdade é que, hoje, a maioria das pessoas continua a colocar a estética à frente da funcionalidade e do desempenho ambiental.
A Casa Decor funciona como um acelerador destas questões: é uma plataforma de visibilidade e um contexto que empurra o setor para a frente, ajudando a que estas soluções se tornem naturais e consolidadas nos projetos do futuro.
Quanto a tendências e futuro: desde a primavera de 1992, quando a Casa Decor aterrou em Espanha, a exposição consolidou‑se como a plataforma de interiorismo mais importante do país e uma das mais relevantes da Europa. Que tendências achas que vão marcar o interiorismo nos próximos cinco ou dez anos?
As tendências são sempre influenciadas pelos fatores socioeconómicos. No início, predominavam os tons claros e os materiais que evocavam a natureza e o nosso lado mais primitivo. Agora começa a notar‑se uma viragem: surgem materiais mais escuros, uma estética mais intensa – quase “vulcânica” – e um maior protagonismo das texturas nas paredes, que ganham relevo e profundidade em vez de serem apenas um fundo neutro.
O que é que o visitante vai encontrar neste palacete maravilhoso? Que sensações pode esperar?
O visitante vai viver uma experiência completa, que vai muito para lá das tendências de decoração que vê dentro do palácio. O edifício, que durante anos funcionou como convento, convida naturalmente à introspeção e ao recolhimento. É um espaço que transmite paz e calma, uma atmosfera que acaba por ser profundamente contagiosa.
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