Poucas cidades em Espanha concentram tanta riqueza histórica e cultural como Granada. Herdeira de civilizações islâmica, cristã e judaica, é um mosaico de monumentos, tradições e paisagens únicas, onde jóias como a Alhambra convivem com bairros de forte identidade própria.
Na encosta que se ergue em frente ao complexo de palácios, jardins e fortalezas declarado Património Mundial da UNESCO, em 1984, há um bairro que foge a qualquer imagem convencional, mesmo tratando-se de uma cidade tão eclética. Falamos de Sacromonte.
Uma forma de vida única
O conjunto residencial formado por casas-covas escavadas na montanha, afirma-se como um dos pontos mais singulares do mundo. Berço da Zambra - uma forma única de flamenco com raízes mouriscas e ciganas - é um lugar onde a história se mistura com a vida quotidiana e onde a essência cultural da cidade andaluza encontra uma das suas expressões mais autênticas.
Passear pelo Sacromonte é descobrir uma forma de viver que parece suspensa entre a tradição e a adaptação ao presente. Dos seus miradouros avistam-se vistas deslumbrantes, com a Alhambra à frente e a Serra Nevada ao fundo.
À primeira vista, o bairro parece um conjunto de casas brancas dispersas pela encosta, mas o seu interior esconde algo único: muitas dessas habitações são grutas escavadas na rocha.
Estas casas-gruta não são um capricho, mas uma solução adaptada ao território. A sua origem remonta ao final do século XV, depois da conquista de Granada, quando populações marginalizadas, em particular comunidades ciganas, e fixaram nestas encostas e começaram a escavar as suas casas na montanha.
Com o tempo, este tipo de habitação tornou-se a identidade do bairro. Ainda hoje, muitas destas grutas continuam habitadas, enquanto outras foram transformadas em espaços culturais, tablados de flamenco, alojamentos ou pequenos museus.
Curiosamente, estas casas-gruta podem hoje ser classificadas como bioclimáticas: mantêm uma temperatura constante ao longo de todo o ano, o que as torna frescas no verão e quentes no inverno, permitindo encarar com conforto tanto o calor extremo como as temperaturas baixas.
Flamenco e lenda
O Sacromonte é também considerado um dos locais-chave no desenvolvimento do flamenco, sobretudo das chamadas zambras. Estes espetáculos, que se realizam tradicionalmente em grutas, têm raízes nas celebrações mouriscas e distinguem-se pela proximidade, intensidade e autenticidade. Ao contrário do que acontece nos grandes palcos, aqui o flamenco vive-se a poucos metros, quase como uma experiência íntima.
As zambras ajudaram a projetar a imagem do Sacromonte para lá de Granada, transformando-o numa referência cultural. Ainda hoje, muitas grutas continuam a acolher espetáculos, mantendo viva uma tradição que é parte essencial da identidade do bairro.
A esta dimensão cultural junta-se uma história carregada de simbolismo. No século XVI, a descoberta de relíquias e dos chamados “Livros plúmbeos” levou à construção da Abadia do Sacromonte, um complexo religioso que ainda se conserva. Embora mais tarde a autenticidade dessas descobertas tenha sido posta em causa, o episódio reforçou o carácter mítico do lugar.
Ao longo dos séculos, o bairro foi espaço de convivência entre culturas, mas também de marginalização e resistência. A comunidade cigana, em particular, desempenhou um papel fundamental na construção da sua identidade, trazendo tradições, música e uma forma de estar no mundo que ainda hoje se sente nas suas ruas.
Por tudo isto, o Sacromonte não é apenas um bairro: é um traço distintivo único que a mística Granada oferece. As suas grutas, a sua história e a sua cultura fazem dele um dos lugares mais singulares de Espanha.








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