Durante anos, bastava a arquitetura, localização e bons acabamentos para vender uma casa. Hoje, isso já não chega. O conforto acústico tornou-se um fator de valorização real e está a mudar a forma como promotores e construtores pensam as infraestruturas de um edifício, das tubagens à fachada. O silêncio, afinal, tem preço? Ao idealista/news, Cristiana Santos, gestora de produto da Fersil, explica que “o verdadeiro fator de diferenciação pode estar naquilo que não se vê. Ou, mais concretamente, naquilo que não se ouve”.
O conforto acústico apresenta-se, portanto, como um novo critério de valorização dos ativos imobiliários, segundo diz a responsável. E, com ele, soluções técnicas tradicionalmente invisíveis, como os sistemas de drenagem, “passam a influenciar diretamente a experiência do utilizador, a perceção de qualidade e, em última análise, o valor do ativo", partilha com o idealista/news.
Existe uma crescente procura por edifícios mais confortáveis, seguros e duráveis, tanto que nos segmentos residencial premium, hoteleiro e hospitalar, o desempenho técnico deixou de ser um requisito secundário para se tornar um fator de diferenciação. Em vários destes casos, diz, o conforto acústico deixou de ser um “nice to have” para passar a ser um critério deliberado de projeto e diferenciação.
“Num hotel, o silêncio nos quartos é parte da proposta de valor. Num hospital, está diretamente ligado ao bem-estar. Num empreendimento residencial premium, pode ser o detalhe que justifica a escolha - ou a rejeição - por parte do cliente final. Isto levanta uma questão que o setor não pode ignorar: quantos ativos continuam a ser concebidos com base em critérios visíveis, mas falham precisamente naquilo que mais impacta a experiência real de utilização?”, refere a gestora de produto da Fersil, empresa que produz sistemas de tubagem para construção. “O silêncio deixou de ser apenas um benefício adicional”, sublinha.
Quando é que começou a ficar claro para si que o silêncio, ou o conforto acústico, estava a ganhar relevância no setor imobiliário?
Essa mudança começou a tornar-se evidente à medida que o mercado passou a valorizar não apenas os aspetos visíveis de um edifício, mas também a qualidade da experiência de utilização. Hoje, sobretudo em segmentos como a habitação premium, a hotelaria e a saúde, o conforto acústico é cada vez mais entendido como um fator de bem-estar e de qualidade construtiva. O silêncio deixou de ser apenas um benefício adicional para passar a integrar os critérios de conceção de muitos projetos.
"O silêncio deixou de ser apenas um benefício adicional para passar a integrar os critérios de conceção de muitos projetos"
Porque é que, historicamente, o desempenho acústico foi subvalorizado face a critérios como localização, estética ou acabamentos?
Porque o setor esteve, durante muitos anos, muito focado naquilo que era imediatamente percetível pelo comprador ou utilizador. A localização, a arquitetura ou os acabamentos são elementos fáceis de comunicar e de valorizar comercialmente. Já o desempenho acústico resulta de soluções técnicas que permanecem invisíveis e cujo impacto só se sente durante a utilização do edifício. Felizmente, essa perspetiva está a mudar, à medida que se reconhece que a qualidade de um imóvel depende também do conforto que proporciona no dia a dia.
Em que segmentos do mercado - residencial premium, hotelaria ou saúde - sente que esta mudança está a acontecer de forma mais rápida?
Diria que nos três, embora por razões diferentes. Na hotelaria, o silêncio faz parte da própria experiência que o cliente espera encontrar. Na saúde, o conforto acústico está diretamente associado ao bem-estar e à recuperação dos utentes. Já na habitação premium, tornou-se um elemento diferenciador cada vez mais valorizado por compradores que procuram uma experiência de utilização superior. São segmentos onde existe uma maior sensibilidade para fatores que influenciam a qualidade de vida.
Que impacto concreto pode ter o conforto acústico na perceção de valor de um imóvel por parte do utilizador final?
Tem um impacto muito significativo. Um edifício pode apresentar uma excelente localização e acabamentos de elevada qualidade, mas se o utilizador estiver constantemente exposto a ruídos provenientes das infraestruturas técnicas ou das frações vizinhas, essa perceção de qualidade diminui. O conforto acústico influencia diretamente a satisfação, a valorização do imóvel e até à decisão de compra ou de permanência. Em mercados mais competitivos, pode mesmo traduzir-se numa vantagem ao nível do posicionamento e da velocidade de comercialização.
"O conforto acústico influencia diretamente a satisfação, a valorização do imóvel e até à decisão de compra ou de permanência"
Pode dar exemplos concretos de situações em que a falta de conforto acústico comprometeu a experiência num ativo imobiliário?
Existem situações bastante comuns. Num hotel, o ruído proveniente das redes de drenagem ou das instalações técnicas pode comprometer o descanso dos hóspedes e afetar a perceção global da estadia. Num hospital, esse tipo de ruído interfere com o conforto dos doentes e com o ambiente de recuperação. Também na habitação multifamiliar é frequente que sons provenientes das tubagens ou de outras infraestruturas técnicas gerem reclamações e diminuam a satisfação dos residentes, mesmo quando o edifício apresenta um elevado padrão construtivo.
Qual é o papel das soluções técnicas invisíveis, como sistemas de drenagem, na experiência de conforto dentro de um edifício?
É um papel muito mais importante do que muitas vezes se imagina. As infraestruturas prediais são responsáveis por garantir o funcionamento eficiente do edifício, mas também influenciam diretamente o conforto, a segurança e a durabilidade. No caso dos sistemas de drenagem, quando são concebidos para reduzir a propagação do ruído, contribuem para criar ambientes mais silenciosos e confortáveis. São soluções que não se veem, mas cujo impacto é sentido diariamente por quem utiliza o edifício.
"São soluções que não se veem, mas cujo impacto é sentido diariamente por quem utiliza o edifício"
Qual tem sido o papel da inovação industrial, nomeadamente em soluções como as desenvolvidas pela Fersil, nesta resposta às novas exigências do mercado?
A inovação industrial tem sido determinante para responder à evolução das exigências da construção. Hoje, as soluções já não são desenvolvidas apenas para cumprir uma função específica, mas para responder simultaneamente a desafios relacionados com o conforto acústico, a segurança contra incêndio, a resistência mecânica e química, a durabilidade e a sustentabilidade. É precisamente essa abordagem integrada que tem orientado o desenvolvimento de soluções como o Avantgarde Premium 3kkk insonorizado, permitindo acrescentar valor ao edifício através de infraestruturas tecnicamente mais evoluídas.
Até que ponto os promotores imobiliários já estão a integrar o conforto acústico como critério de diferenciação desde a fase de conceção?
Observamos uma tendência crescente nesse sentido, sobretudo, em projetos onde a diferenciação é um fator competitivo. Cada vez mais promotores e projetistas compreendem que decisões tomadas nas fases iniciais do projeto podem ter um impacto significativo na qualidade final do edifício. Ainda existe caminho a percorrer, mas é evidente que o conforto acústico está a ganhar espaço entre os critérios considerados desde a especificação das infraestruturas e não apenas como uma preocupação de última hora.
"O conforto acústico está a ganhar espaço entre os critérios considerados desde a especificação das infraestruturas"
Se projetarmos esta tendência para o futuro, o silêncio pode tornar-se um verdadeiro fator de valorização imobiliária comparável à localização ou à eficiência energética?
Acredito que sim. Talvez não substitua fatores estruturais como a localização, mas será cada vez mais um atributo diferenciador na valorização dos ativos imobiliários. À medida que os utilizadores se tornam mais exigentes relativamente à qualidade da experiência de utilização, aspetos como o conforto acústico, segurança contra incêndios, resistência química, a eficiência energética ou a qualidade do ar interior passam a ser entendidos como componentes essenciais do valor do edifício. O futuro da construção será cada vez menos definido apenas pelo que impressiona visualmente e cada vez mais pela forma como o edifício responde às necessidades reais de quem o utiliza.
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