Para travar a inflação na zona euro sem sufocar o crescimento económico, o Banco Central Europeu (BCE) prometeu que vai avançar com subidas das taxas de juro diretoras de “forma ponderada”. E está a cumprir. Na reunião desta quinta-feira, o regulador europeu decidiu deixar os juros diretores inalterados, adiando uma nova subida para dezembro, que é dada quase como certa pelos analistas de mercado. Até porque agora há um novo dado a ter em conta: o aumento dos juros da dívida pública está a encarecer o custo do financiamento na zona euro, tendo um efeito idêntico ao aperto da política monetária do BCE.
Na reunião de política monetária desta quinta-feira (dia 29 de outubro), BCE decidiu manter as taxas de juro inalteradas, depois de ter avançado com dois aumentos de 25 pontos base este ano (um em julho e outro em setembro) para travar a inflação na zona euro, que tem estado a subir impulsionada pelos preços da energia, os quais estão pressionados pela guerra no Médio Oriente.
Foi precisamente tendo por base "a incerteza que se acumula" e a "inflação subjacente praticamente inalterada" que os membros do guardião do euro decidiram, de forma unânime, manter as taxas diretoras inalteradas em outubro e aguardar por novos dados económicos até dezembro, comentou Christine Lagarde, presidente do BCE, no fim da reunião. "Uma abordagem comedida é apropriada nesta altura”, acrescentou. Mas, em comunicado, o Conselho do regulador europeu admitiu que "os preços dos produtos energéticos continuaram a subir, representando riscos em sentido ascendente para as perspetivas de inflação e em sentido descendente para as perspetivas de crescimento".
"Embora os efeitos do choque energético ainda não se tenham feito sentir por completo, a inflação subjacente permaneceu globalmente estável até à data e não se verifica uma resposta significativa dos salários nesta fase", acrescenta o regulador europeu, considerando que "permanece bem posicionado para navegar a atual incerteza elevada". E lembra que as condições de financiamento tornaram-se "mais restritivas" desde setembro,"o que provavelmente pesará sobre a inflação e o crescimento".
Esta manutenção das taxas de juro diretoras em outubro já havia sido sinalizada pela própria Largarde sublinhando que qualquer novo aperto monetário será realizado de "forma ponderada" e sem o imediatismo de ciclos anteriores. O objetivo desta abordagem gradual é trazer de volta a inflação na zona euro à meta de 2% (em setembro fixou-se em 3,8%) sem reprimir demasiado a atividade económica europeia. No entanto, Lagarde vai deixar a liderança do BCE antes de atingir esta meta, tendo anunciado esta quinta-feira que irá cessar funções em fevereiro de 2027, antecipando o fim do mandato que terminava em outubro.
Com esta decisão, as taxas diretoras do BCE ficam nos atuais níveis até, pelo menos, dia 17 de dezembro de 2026, data da próxima reunião:
- Taxa aplicada à facilidade permanente de depósitos fica em 2,5%. Esta taxa, que é a principal referência do regulador, permanece no limite superior da zona neutra, a qual nem estimula nem restringe a economia;
- Taxa de juro das principais operações de refinanciamento situa-se em 2,65%;
- Taxa aplicável à facilidade permanente de cedência de liquidez fixa-se em 2,9%.
“O BCE preferiu não se precipitar com um novo aumento das taxas de juro, apesar da forte pressão que a inflação tem exercido nos últimos meses, deixando para dezembro a decisão de elevar as taxas em mais 25 pontos base. Sem dúvida, os elevados níveis de dívida pública, somados às incertezas económicas e, certamente, aos próximos eventos políticos, fizeram pender a balança para o lado da prudência”, comenta Miguel Cabrita, responsável pelo idealista/créditohabitação em Portugal.
O regulador europeu pôde "dar-se ao luxo de ser paciente" em outubro, mas "sem mudar o rumo da política monetária", afirma Michael Krautzberger, diretor de Investimento Global (CIO) de Mercados Públicos, Allianz Global Investors (AllianzGI). E esta posição mais prudente surge devido a três fatores. Primeiro, o BCE começou a apertar a política monetária mais cedo neste ciclo. Segundo, "ainda existem poucos sinais de efeitos secundários da subida dos preços da energia", uma vez que a inflação subjacente na zona euro continua pouco acima de 2%. Terceiro, "a forte subida das taxas de juro das obrigações já está a restringir as condições financeiras", aponta o responsável da AllianzGI.
Assim, o BCE seguiu a mesma linha cautelosa assumida pela Reserva Federal (Fed) norte-americana, que decidiu manter as taxas no intervalo entre 3,75% e 4% esta semana — nível bem acima da zona euro. Embora a inflação no país continue elevada, a Fed quer agora avaliar o impacto no mercado do aumento dos juros decidido em setembro (a primeira subida em mais de três anos) e ainda se depara com a proximidade das eleições de meio de mandato, que representarão um teste de fogo para o Presidente dos EUA, Donald Trump. Esta posição prudente também foi assumida pelo banco central do Japão esta semana. E o supervisor da China já sinalizou também uma manutenção dos juros de referência.
Como o mercado obrigacionista está a fazer o trabalho do BCE
As obrigações soberanas emitidas pelos governos tendem a ser considerados investimentos de menor risco no mercado, uma vez que a probabilidade de um Estado entrar em incumprimento é historicamente baixa. Mas a incerteza também começou a pairar no mercado obrigacionista, levando os juros das dívidas soberanas a disparar em algumas das maiores economias do mundo.
Os juros das obrigações nos EUA, Reino Unido, França e Itália estão em máximos dos últimos anos, com os investidores a pedir maiores taxas de rentabilidade para financiar as dívidas públicas perante os riscos que veem no horizonte. A subida dos juros das dívidas soberanas reflete preocupações dos investidores com o aumento da inflação (pressionada pelos preços da energia), com o elevado nível de dívida pública e também com a capacidade de alguns governos controlar os défices.
Um dos casos mais preocupantes na Europa é o de França. A rendibilidade das obrigações francesas a 10 anos ultrapassou recentemente os 5%, um nível que não se registava há mais de 24 anos – a diferença face às obrigações alemãs a 10 anos, a dívida mais segura da zona euro, superou 170 pontos base. Os investidores estão a exigir uma compensação maior (ou prémio de risco) devido ao elevado nível da dívida pública francesa (119% do PIB), aos défices orçamentais persistentes (estimado para 5,4% em 2026), baixo crescimento económico (0,4% este ano) e à incerteza política sobre as eleições presidenciais em 2027, a par da recente agitação social marcada por violência nos protestos contra a subida do custo de vida.
Já foi colocada em cima da mesa a hipótese de o BCE comprar dívida pública a França para conter as tensões nos mercados e baixar os custos de financiamento. Mas Christine Lagarde tem desvalorizado a hipótese de avançar com um resgate, embora sem excluir totalmente, argumentando que "os meios para conter a subida dos juros da dívida francesa devem ser encontrados primeiro em França". Também o governador do Banco Central de França, Emmanuel Moulin, afirmou que "não estão reunidas as condições" para uma intervenção do BCE, lê-se no Euronews.
O aumento dos juros nas obrigações soberanas acaba por ter o mesmo impacto prático na economia que a subida dos juros diretores do BCE, porque ambos encarem o custo do dinheiro, reduzem a liquidez em circulação e travam o investimento. Ou seja, quando os investidores exigem rendimentos mais altos para emprestar dinheiro aos governos, esse movimento funciona como um "aperto monetário informal", replicando os efeitos de uma decisão oficial do BCE. Tudo isto acaba por elevar o custo dos financiamentos das empresas (de construção e imobiliário inclusive), assim como os juros no crédito habitação na Europa.
O aumento dos rendimentos das obrigações no mês de outubro já teve o mesmo impacto no crescimento e na inflação que um aumento adicional das taxas do BCE de 25 pontos base, com a alemã a chegar a ultrapassar os 3,6%, a francesa a atingir os 5%, a espanhola a atingir os 4,2% intradiários na sessão de 1 de outubro e a americana a ultrapassar os 5,3% no passado dia 5. Os juros das obrigações do Tesouro de Portugal a 10 anos situam-se atualmente em cerca de 3,9% (com variações recentes em torno de 3,88% a 3,94%), depois de ter atingido máximos de 2017 em setembro.
“O mercado obrigacionista assumiu o trabalho do BCE”, afirmou recentemente Carsten Brzeski, responsável global de macroeconomia do banco holandês ING, estimando que a pressão sobre o mercado obrigacionista em França “é mais próximo de uma subida de 50 pontos base”, cita a mesma publicação.
Subida dos juros do BCE é dada como certa para dezembro
O BCE vai enfrentar um difícil dilema na próxima reunião agendada para dia 17 de dezembro, a última de 2026. Com o mercado obrigacionista a encarecer o custo do dinheiro, o regulador europeu terá de avaliar bem se um novo aumento das taxas de juro diretoras vai ou não enfraquecer demasiado a procura e o crescimento económico na zona euro.
No comunicado divulgado após a reunião de política monetária desta quinta-feira, o Conselho do BCE voltou a não se comprometer com “uma trajetória de taxa específica”, reforçando que as decisões de política monetária são tomadas reunião em reunião tendo em conta novos dados macroeconómicos – em dezembro vão ser conhecidas novas projeções económicas, dando maior confiança para tomar decisões.
"O período entre reuniões será rico em informação nova”, acrescentou Lagarde, que exemplificou com as previsões do BCE, dados do PIB do terceiro trimestre e dados sobre o emprego. "É uma mina de informação e dados que iremos receber nas próximas semanas, e será particularmente relevante com a inflação subjacente”, apontou. Isto porque a inflação subjacente revela se os altos preços energéticos estão ou não a contagiar outros setores.
Embora o contexto seja complexo, os analistas acreditam que o supervisor bancário vai avançar com um novo aumento das taxas de juro de 25 pontos base em dezembro para conter as pressões inflacionistas na área euro que advêm, sobretudo, do aumento dos custos energéticos provocados pela guerra no Irão.
Um deles é a UBS que acredita que a taxa de juros dos depósitos vai subir para 2,75% em dezembro (+25 pontos), ultrapassando a zona neutra. Isto quer dizer que os juros do BCE passariam a restringir mais a economia europeia, que se tem revelado “mais forte do que o esperado” (cresceu 0,7% no segundo trimestre de 2026), segundo avalia o próprio regulador europeu. Também o responsável pelos intermediários de crédito do idealista Portugal acredita que o BCE adiou “para dezembro a decisão de elevar as taxas em mais 25 pontos base”.
Esta é a previsão para dezembro da maioria de analistas de política monetária consultados regularmente pelo guardião do euro, que antecipam ainda que o BCE vai manter a taxa dos depósitos em 2,75% até ao quarto trimestre de 2027. Na sua visão, a redução das taxas diretoras só deverá acontecer no primeiro trimestre de 2028. A perspetiva de Matthew Ryan, analista da Ebury, é semelhante: "Continuamos a contar com um aumento das taxas na próxima reunião, mas não estamos convencidos da necessidade de um aperto monetário adicional em 2027".
Mas há quem tenha uma visão mais agressiva. Há analistas de mercado a antecipar mais aumentos dos juros do BCE para travar a inflação na zona euro e conduzi-la à meta de 2%. O CEO do Banco Santander, Héctor Grisi, colocou em cima da mesa a hipótese de as taxas diretoras subirem “talvez um pouco acima de 3%" até meados de 2027, antes que comecem a cair no final do próximo ano. E o CEO da CaixaBank, Gonzalo Gortázar, admitiu mesmo a possibilidade de os juros do BCE alcançarem os 3,5% em 2027, prevendo já uma queda na procura de crédito habitação, por se tornar mais difícil arcar com os altos juros e preços das casas.
As próximas reuniões do BCE
O Conselho do BCE reúne-se aproximadamente de seis em seis semanas. Este é o calendário das próximas reuniões de política monetária do guardião do euro, nas quais vai anunciar as suas decisões sobre as taxas de juro diretoras:
- 17 de dezembro de 2026
- 4 de fevereiro de 2027
- 18 de março de 2027
- 29 de abril de 2027
- 10 de junho de 2027
- 22 de julho de 2027
*Com Lusa
*Notícia atualizada dia 30 de outubro, às 15h22, com mais informações sobre futuro da política monetária do BCE
Acompanha toda a informação imobiliária e os relatórios de dados mais atuais nas nossas newsletters diária e semanal. Também podes acompanhar o mercado imobiliário de luxo com a nossa newsletter mensal de luxo.
Fica a saber mais sobre o idealista/news.
Whatsapp idealista/news Portugal







Para poder comentar deves entrar na tua conta