Sempre com o desenho na base das ideias, o líder do atelier Adarq sente que trabalhar fora da Lisboa dá-lhe serenidade e foco.
Comentários: 0

André David, fundador do atelier Adarq, desenha ideias, processos, linguagens. É uma espécie de cruzamento entre o rigor técnico e a intuição artística, onde o desenho surge como ponto de partida, e foi sendo construído entre o mundo da construção civil e a vontade de pensar para além do desenho. Depois da formação técnica, seguiu para a Universidade Lusíada, onde completou a sua formação em arquitetura, consolidando uma visão sobre o papel do arquiteto como mediador entre desejos, contextos e responsabilidades.

Esta é também uma conversa sobre valores, nomeadamente sobre a necessidade da igualdade de género no protagonistas desta profissão. "No atual mandato da Ordem dos Arquitetos, uma das nossas prioridades é precisamente trabalhar no sentido da equidade de género. É verdade que pode haver ainda alguma diferença quantitativa entre homens e mulheres na profissão, mas acredito que o protagonismo feminino está cada vez mais presente. "

A prática do atelier Adarq não se limita à produção de obra – é também uma forma de intervenção sobre o território, sobre as cidades e sobre o quotidiano das pessoas. André David acredita que tem conseguido o equilíbrio entre funcionalidade, identidade e relação com o espaço. Assim será quando concretizar o sonho de projetar no Japão, e poder ir mais longe na sua vontade de compreender como outras culturas vivem e constroem.

desenho adarq
adarq

Quando é que percebeu que a arquitetura poderia ser o seu caminho?

Desde o ensino secundário que segui a vertente de artes e percebi, nessa altura, que o meu caminho passaria por aí. No entanto, achei que o curso de artes era demasiado genérico, por isso optei por uma escola técnico-profissional, onde me especializei em desenho de construção civil. Foi aí que entrei mais diretamente no mercado de trabalho, em gabinetes de projeto. Mas rapidamente percebi que não queria apenas fazer desenho técnico. Sentia necessidade de algo mais criativo e completo. Foi isso que me levou a ingressar na Universidade Lusíada, na Faculdade de Arquitetura e Artes, onde me formei em Arquitetura. Mas a vontade de desenhar e de criar já estava presente desde o início.

O desenho ajuda-nos a desbloquear ideias, a iniciar o processo com liberdade e, muitas vezes, permite-nos criar uma narrativa visual em torno dos conceitos que queremos explorar no papel.

O desenho continua a ter um papel importante no seu trabalho?

Sem dúvida. O desenho é, para mim, o ponto de partida do processo criativo. Funciona como uma metodologia de experimentação e, ao mesmo tempo, como uma forma de diálogo com as equipas – tanto com os elementos do atelier como com colegas de outros contextos. É um elemento intuitivo, mas também muito prático. O desenho ajuda-nos a desbloquear ideias, a iniciar o processo com liberdade e, muitas vezes, permite-nos criar uma narrativa visual em torno dos conceitos que queremos explorar no papel. É uma forma de dar corpo às primeiras intenções do projeto.

Mesmo com os avanços tecnológicos, como o 3D, o desenho à mão ainda faz sentido?

Faz todo o sentido. Aliás, muitas vezes é mais eficiente. Apesar de o 3D ter um enorme poder de sedução e ser fundamental para vender a ideia, para apresentar o “sonho”, o desenho à mão continua a ser muito útil no dia-a-dia. Um simples esquisso pode ser mais rápido e eficaz para comunicar uma ideia entre colegas. É uma linguagem interna que nos permite testar soluções de forma imediata. Claro que cada arquiteto tem a sua metodologia – há quem trabalhe só com maquetes, outros apenas com o computador – mas para nós, o desenho é uma ferramenta muito válida, prática e expressiva.

Biblioteca do Entroncamento
Biblioteca do Entroncamento adarq

Enquanto arquiteto e membro da Ordem, como vê hoje a presença das mulheres na liderança dos ateliers?

A visibilidade das mulheres na arquitetura tem vindo a crescer. No atual mandato da Ordem dos Arquitetos, uma das nossas prioridades é precisamente trabalhar no sentido da equidade de género. É verdade que pode haver ainda alguma diferença quantitativa entre homens e mulheres na profissão, mas acredito que o protagonismo feminino está cada vez mais presente. Há muitas mulheres à frente de ateliers e com trabalho reconhecido. É fundamental continuar a dar visibilidade a esse caminho e garantir igualdade de oportunidades no setor.

Além da questão da equidade, que outras urgências considera prioritárias para a profissão neste momento?

A questão dos honorários é, sem dúvida, uma das maiores preocupações da classe. É uma dor comum a todos os arquitetos. Temos feito um esforço para sensibilizar os colegas e estamos a trabalhar para encontrar soluções, mas sabemos que é um tema complexo. A legislação europeia de concorrência impede a existência de tabelas de preços vinculativas, o que dificulta a regulação. Acredito que devia haver uma maior sensibilidade, também do ponto de vista político, para compensar essas limitações legais e garantir uma remuneração mais justa e digna para os arquitetos.

A questão dos honorários é, sem dúvida, uma das maiores preocupações da classe. É uma dor comum a todos os arquitetos. 

É mais difícil afirmar um atelier fora dos grandes centros urbanos?

Sim, é um desafio. Abrir atelier no Entroncamento foi uma escolha deliberada, mas implicou algum esforço. Apesar de estar no centro do país, é considerado interior, e o mercado de trabalho ainda se concentra muito em Lisboa e no Porto. No entanto, encontrei aqui o que procurava: um espaço com serenidade, onde é possível trabalhar com mais concentração e qualidade. Lisboa tem um ritmo muito acelerado – o tempo parece correr mais depressa – e aqui conseguimos respirar e focar-nos nos projetos com mais profundidade.

Bairro do Boneco Entrocamento
Bairro do Boneco Entrocamento adarq

O seu trabalho tem uma linguagem muito reconhecível. Existe uma intenção de criar uma identidade visual própria?

É um orgulho ouvir que o trabalho transmite uma linguagem própria, mas essa não é uma meta intencional. Cada projeto é pensado em função do cliente, do lugar e do contexto. É claro que as metodologias que usamos e os conceitos que adotamos acabam por gerar um registo, talvez uma coerência que se reconhece, mas não trabalhamos com o objetivo de criar uma assinatura. Tentamos adaptar cada proposta às circunstâncias específicas e, a partir daí, talvez surja essa tal identidade, que está mais ligada à forma como abordamos a modernidade e a contemporaneidade.

E quando existe um orçamento ilimitado? Isso traz mais liberdade ou mais responsabilidade?

Um orçamento ilimitado é um cenário idealizado. Mas o mais importante, para nós, é encontrar o equilíbrio entre as expectativas do cliente e os recursos disponíveis. Não se trata de fazer muito com pouco ou pouco com muito – o essencial é ter consciência do que é possível fazer dentro do budget. Nós acompanhamos o cliente desde o início, explicando-lhe o que pode alcançar com os meios que tem. Um orçamento mais generoso permite pensar em materiais mais sustentáveis ou soluções de menor manutenção a longo prazo. Esses materiais podem ter um custo inicial mais elevado, mas acabam por compensar porque exigem menos intervenções futuras. É o velho ditado: o barato sai caro e o caro pode sair barato.

Que outras diferenças existem quando se trabalha com orçamentos maiores?

Projetos de segmento médio-alto ou alto permitem trabalhar com mais detalhe, com maior liberdade criativa e com soluções técnicas mais sofisticadas. No entanto, o grau de exigência legal é o mesmo, mesmo em habitação de custos controlados. Cumprimos sempre as mesmas normas. A questão da sustentabilidade, por exemplo, pode onerar a obra no início, mas é um investimento que traz retorno a longo prazo. Tentamos sempre usar materiais com baixa necessidade de manutenção e que resistam melhor ao tempo. É nessa lógica de equilíbrio entre investimento inicial e durabilidade que procuramos trabalhar.

Um orçamento ilimitado é um cenário idealizado. Mas o mais importante, para nós, é encontrar o equilíbrio entre as expectativas do cliente e os recursos disponíveis. Não se trata de fazer muito com pouco ou pouco com muito – o essencial é ter consciência do que é possível fazer dentro do budget. 

Qual é, para si, a grande diferença entre projetar uma moradia e um equipamento público como uma biblioteca?

Na habitação unifamiliar, a relação com o cliente é mais próxima. Há mais espaço para interpretar as suas expectativas e trabalhar de forma personalizada. Já num equipamento público, temos de cumprir normas, regulamentos e lidar com entidades externas que condicionam o projeto. Mesmo assim, há espaço para criatividade. A biblioteca que projetámos, por exemplo, foi um exercício muito interessante. Conseguiu fugir ao que era esperado, não só na geometria, mas também na funcionalidade. Era um programa diferente, que exigia mais do que o depósito de livros. E tivemos abertura para desenvolver o projeto com alguma liberdade, o que resultou num bom trabalho.

Moradia adarq
adarq adarq

Ao longo destes 15 anos de carreira, houve algum projeto que o tenha marcado especialmente?

É difícil destacar apenas um. Talvez o mais frustrante seja quando os projetos se prolongam demasiado no tempo. Por vezes, chegamos ao fim e percebemos que aquela não é já a ideia original que gostaríamos de ter concretizado. Isso acontece. Mas sinto que os últimos projetos que desenvolvemos conseguiram transmitir uma linha mais contemporânea, mais ligada à criação de identidade e também ao serviço público. A arquitetura tem esse papel de contribuir para a qualidade de vida nas cidades e nas comunidades.

E a fotografia? Qual é o seu papel no percurso da arquitetura?

A fotografia é fundamental. Ajuda-nos a registar momentos de luz, de vivência, de espacialidade. Valoriza a arquitetura e reforça a sua presença. Eu próprio apoio-me muitas vezes na fotografia enquanto ferramenta de memória e investigação. Gosto de olhar para imagens antigas ou de outras obras, que muitas vezes servem como referência ou ponto de partida para novos projetos. A boa fotografia não só documenta como também inspira.

E o que falta ainda fazer? Há algum sonho que gostasse de concretizar?

Não há um objetivo único, mas gostava de partilhar mais da arquitetura portuguesa pelo mundo. Tenho particular curiosidade pela arquitetura nipónica e pela forma como os japoneses abordam o espaço, a cultura, os materiais. Seria muito interessante poder desenvolver um projeto na zona oriental, talvez no Japão. Seria uma forma de mergulhar numa outra realidade arquitetónica e aprender com ela. Fascina-me essa forma de trabalhar e gostava de a explorar mais de perto.

 

Acompanha toda a informação imobiliária e os relatórios de dados mais atuais nas nossas newsletters diária e semanal. Também podes acompanhar o mercado imobiliário de luxo com a nossa newsletter mensal de luxo.

Ver comentários (0) / Comentar

Para poder comentar deves entrar na tua conta

Etiquetas