A designer de interiores e o gestor (e marido) Miguel Vieira da Rocha assumem em conjunto, há vinte anos, a Viterbo Interior Design.
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Apesar do projecto carregar o apelido e a história de Gracinha, hoje falar sobre a Viterbo Interior Design não é possível sem o managing partner Miguel Stucky Vieira da Rocha. São mulher e marido e uma equipa apaixonada - um pelo outro e pela missão de criar lugares verdadeiramente vividos, onde o design é emoção, memória e funcionalidade em partes iguais.

Com uma vida moldada pelo universo da criação artística, Gracinha Viterbo tornou-se uma das figuras mais marcantes do design de interiores. Estudou Arquitetura de Interiores na Central Saint Martins e na Chelsea College of Arts, Londres, e especializando-se ainda em Artes Decorativas na prestigiada Inchbald School of Design. Integrou a equipa da icónica designer sul-africana Kelly Hoppen antes de regressar a Portugal, em 2000, para trabalhar ao lado da mãe. Em 2008, assumiu a liderança criativa da Viterbo Interior Design com o marido Miguel. Gracinha conduz a narrativa estética, com o seu olhar sensível, quase cinematográfico. Miguel assegura o compasso e a estrutura, garantindo que os sonhos se traduzem em obra feita, sem ruído, sem sobressaltos, com a leveza que só o rigor permite.

Ao longo destes anos, a Viterbo Interior Design somou colaborações muito especiais, como a criação de papéis de parede com a De Gournay, parcerias com marcas como a Nespresso ou a Star Alliance. Mas Gracinha confessa um projeto de sonho que ainda gostava de fazer. A resposta transporta-nos para o universo de luxo e dos sonhos, num resumo do seu trabalho: um comboio. "Um projecto que juntasse movimento, paisagem, narrativa e experiência."

Patino
Patino Viterbo Interior Design
 

Na sua infância já sentia que este podia ser o seu caminho?

Muito cedo. Eu costumo dizer que nasci dentro deste mundo, literalmente desde a barriga. Lembro‑me de ser muito pequenina e de fazer jogos com revistas como a "House & Garden" ou a "AD Americana", que eram praticamente as únicas que existiam cá. Fazia comparações: o que era bonito, o que não era, o que funcionava esteticamente e o que não funcionava. Mais tarde, talvez com cerca de 10 anos, lembro‑me perfeitamente de estar a ler "A Fada Oriana" e de ficar completamente encantada com uma cena muito específica: um momento em que a Sofia de Mello Breyner escreve um diálogo entre móveis que não gostam da disposição em que estão. A cadeira a bater com o cotovelo no sofá, o sofá a refilar, os espelhos que já não conseguiam ver a bailarina. Lembro‑me de tudo, ao detalhe. E fiquei a pensar nisso durante anos. Até hoje penso que tenho de os deixar contentes, porque, quando não está lá ninguém, ninguém está a refilar.

Depois veio a fase do Ralph Lauren, que ainda hoje admiro muito. Lembro‑me de pedir um tecido de xadrez escuro, muito Ralph Lauren, e um dia acordar com toda a gente em casa a refilar porque eu tinha pregado o quarto inteiro com aquele tecido. E ficou assim durante anos.

Também tenho memórias muito fortes de brincar numa pedreira, como se fosse um parque infantil (hoje penso que não era nada seguro), de estar nos gabinetes de desenho, que na altura eram salas e salas cheias de desenhadores a pintar plantas à mão, de acompanhar mestres‑de‑obras, de ir aos armazéns dos empreiteiros. Fui exposta a todas as fases de uma obra, do primeiro risco até à entrega final. Tudo isso foi moldando, naturalmente, o meu percurso.

Lembro‑me perfeitamente de estar a ler "A Fada Oriana" e de ficar completamente encantada com uma cena muito específica: um momento em que a Sofia de Mello Breyner escreve um diálogo entre móveis que não gostam da disposição em que estão. A cadeira a bater com o cotovelo no sofá, o sofá a refilar, os espelhos que já não conseguiam ver a bailarina. E fiquei a pensar nisso durante anos. Até hoje penso que tenho de os deixar contentes, porque, quando não está lá ninguém, ninguém está a refilar.

O que é que envolve criar e desenhar um interior?

Envolve muita emoção. Da minha parte, pelo menos, é uma entrega total, eu entrego‑me a 300%. Antes de pensar na estética, no que quer que seja visualmente bonito, vem sempre a psicologia do momento que estamos a criar. Um espaço é um momento. E esse momento vai pertencer a outra pessoa. Não é nosso.
Eu costumo dizer que crio sem ego. E quando escolho pessoas para a nossa equipa, escolho pessoas que também não têm essa necessidade de ego. São artistas, muitas vezes quase sofrem a criar, mas aqui dentro não se sofre, isso é uma regra. Tem de haver paixão, mas uma paixão suave, natural. E a psicologia por detrás do momento que estamos a criar é, para mim, a base mais importante de qualquer projecto de interiores.

Pastéis de Belém
Viterbo Interior Design

Quando desenha um espaço, é sobre si ou sobre o cliente?

É totalmente sobre o cliente. Sobre a outra pessoa. É uma entrega absoluta. Nós estamos a criar uma história que pertence a outra pessoa e temos de a tornar real.
Cada projecto é uma grande conversa, uma conversa longa entre nós e o cliente. Em casas privadas, isto é ainda mais evidente. Não tem nada a ver com projectos públicos. Temos mesmo de conhecer quem está do outro lado. Quem entra pelo nosso escritório adentro não entra como profissional. Entra como ser humano. Quem é aquele director de banco quando chega a casa, tira os sapatos e relaxa? Quem é aquela mulher quando chega a casa? Quem é aquela presidente de um banco quando fecha a porta e está no seu espaço? Quem são estas pessoas dentro das suas casas? As paredes são delas. E nós estamos a criar para elas. Isso é o mais importante.

Cada projecto é uma grande conversa, uma conversa longa entre nós e o cliente.

Falam muitas vezes da casa como refúgio. O que significa isso?

Significa criar um lugar onde a pessoa pode ser verdadeiramente ela. Um lugar de autenticidade, de norte, de verdade e de conexão. Um espaço onde a pessoa se sente em casa, rodeada daquilo que adora: a arte que colecciona, a música que está a tocar, o perfume que está no ar. Nós podemos ajudar as pessoas a ligarem‑se ainda mais aos seus sentidos. Mas nunca somos protagonistas. Somos apenas uma ponte. Um médium para criar algo que não é nosso, mas que vai perdurar e que se vai intensificar da forma que a pessoa quiser ao longo do tempo.
Por isso é que eu digo tantas vezes: não existem tendências. Existem clientes. Existem referências de estilo. As pessoas têm memórias, histórias, vivências. E isso está sempre em crescimento.

Ivens
Viterbo Interior Design

Como lidam com o lado técnico de um processo que parece tão emocional?

É fundamental perceber que isto não é só sonho e tudo cor‑de‑rosa. Há um processo técnico muito exigente, profundamente profissionalizado. A nossa equipa é multidisciplinar e internacional. Temos pessoas de várias nacionalidades, especialistas em áreas muito específicas, todos altamente profissionalizados no seu talento. Criamos equipas personalizadas para cada projecto, porque não há um cliente igual, não há uma família igual, não há um lugar igual.

Gostamos de pensar nisso como uma orquestra: cada músico tem de tocar a sua parte da forma certa para que, no final, a música faça sentido para aquele cliente.
E é muito bonito, e gosto muito, em conjunto com o Miguel, de construir essas equipas que vão trabalhar naquele projecto específico. Tanto a parte mais emocional e psicológica como o lado técnico, iluminação, ar condicionado, engenharias, desenhos técnicos, tudo funciona por camadas. É uma teia. Uma orquestra que só no final toca música.

Trabalhar em casal e em família é um desafio?

Claro que é desafiante. Trabalhar em família tem sempre os seus altos e baixos. Mas existe um respeito profundo entre nós. Há espaço para discordar, para discutir ideias, para parar e ouvir melhor. E depois voltamos sempre ao essencial: o que é melhor para o projecto, para o cliente, para a equipa. Eu tenho um lado muito emocional e criativo. O Miguel tem um lado mais estruturado, mais racional. Ele traduz emoção em método, em organização, em gestão. Complementamo‑nos.
É uma parceria verdadeira. Às vezes é um bailado muito afinado, outras vezes é um debate mais intenso - mas é sempre uma parceria.

Viterbo Interior Design
Viterbo Interior Design

E para o Miguel, como é trabalhar em família, todos os dias?

Miguel Vieira da Rocha: É mais fácil do que parece. Cada um tem a sua função muito bem definida. Somos todos muito diferentes, mas respeitamo-nos muito.
É esse respeito que nos permite criar e trabalhar juntos. Temos imensas discussões técnicas e de ideias, mas isso faz parte do processo criativo.
O importante é saber separar: há o que é pessoal e há o que é profissional. E nós conseguimos fazer isso bem. A Gracinha tem um lado criativo fortíssimo, a minha irmã está mais na parte de arquitectura e eu estou mais virado para a gestão e para os clientes. É uma dinâmica rica.

Como é que consegue garantir essa ponte entre o mundo criativo e o cliente

Miguel Vieira da Rocha: Ouvir é essencial. Cada cliente tem uma história, um desejo, uma expectativa. E o meu papel é garantir que conseguimos traduzir tudo isso para um projecto exequível, dentro dos prazos e dos orçamentos definidos.
Somos muito exigentes, mas também somos muito transparentes.
Quando um cliente nos escolhe, sabe que tem ao lado uma equipa que o acompanha do início ao fim. Desde o primeiro esboço até à última almofada. Não é só design, é uma experiência completa.

De que forma o Miguel influencia o vosso trabalho no dia‑a‑dia?

O Miguel tem um papel absolutamente central, mesmo que muitas vezes invisível. Está nos bastidores a garantir que tudo corre bem, que há consistência, que o cliente se sente acompanhado e seguro. Quando me tornei mãe, o papel dele foi ainda mais determinante. Foi o Miguel que ajudou a estruturar tudo para que eu pudesse continuar a criar, a estar presente, sem estar sobrecarregada. Criámos juntos uma estrutura familiar e profissional que nos permitiu manter equilíbrio.
Muitas vezes é ele que diz: “Vamos parar e ouvir melhor”. E isso muda tudo num projecto.

Como definem vocês o luxo?

O luxo é uma coisa muito pessoal, cada pessoa tem a sua definição. Para nós, o luxo está no serviço. Num serviço completo, profissionalizado, onde damos respostas e soluções, e não levamos problemas ao cliente. O luxo é o cliente não sentir as dores de cabeça de um projecto, de uma logística, de uma obra. Nós estamos aqui para resolver. Para que o cliente tenha uma experiência inesquecível, do início ao fim. Desde o crescimento pessoal, descobrir partes de si que não conhecia, até ao lado estético, onde trabalhamos com artesãos, carpinteiros, serralheiros e especialistas que o cliente, sozinho, dificilmente encontraria. Depois há toda a logística: instalação, recepção, controlo de qualidade, execução ao mais alto nível. E no final, uma entrega suave. Uma chegada a casa com um impacto emocional ainda mais forte do que teria sido se tivesse passado por tudo sozinho. Isso, para nós, é luxo.

Há projectos que tenham sido marcantes ao longo do vosso percurso?

É um bocadinho cliché dizer isto, mas todos são. Todos têm algo especial.
Sinto‑me numa fase em que já poderia estar a preparar um segundo livro, porque estou muito consciente da sorte que temos e da naturalidade com que certas pessoas vêm ter connosco. Costumo dizer (e é verdade) "we have the coolest clients". Temos clientes do mundo inteiro, com estilos e histórias completamente diferentes. 

Desde uma casa com 10 mil metros quadrados em Bangkok, que é praticamente um quarteirão inteiro, até um estúdio de 70 metros quadrados em Lisboa.
Não é o tamanho que importa. São as pessoas. As suas histórias. Coleccionadores de arte, profissionais do mundo financeiro, da hotelaria, da restauração. Pessoas exigentes, que respeitam o nosso trabalho e confiam a 100%.

A Cabana Sass, no Algarve, foi um projecto maravilhoso, um grupo de restauração do Mónaco. Os Pastéis de Belém são outro exemplo muito especial, um verdadeiro ícone nacional, e vamos agora avançar para a segunda fase. Em todos eles há uma troca muito bonita: nós damos, mas aprendemos imenso.

Viterbo Interior Design
Viterbo Interior Design

O que diferencia a Viterbo de outros ateliers?

Miguel Vieira da Rocha: A capacidade de adaptação. Não temos um estilo único que impomos. Temos é uma forma de trabalhar- escutamos, desenhamos, propomos, adaptamos, voltamos a desenhar. Estamos preparados para fazer projectos contemporâneos, clássicos, minimalistas ou cheios de história. E a Gracinha tem uma capacidade extraordinária de captar a essência do cliente. O nosso desafio é depois transformar essa essência num projecto exequível, bonito e funcional.

O que é mais desafiante neste sector?

Miguel Vieira da Rocha:  Gerir expectativas. Há muitas imagens, muitas ideias, muita inspiração nas redes sociais, mas nem tudo é aplicável, viável ou até desejável. Às vezes o que o cliente quer não é o que ele precisa. O nosso trabalho é mostrar o caminho, explicar as opções e apresentar soluções. E depois há o lado logístico: fornecedores, prazos, obras, equipas. Isso é um mundo à parte. Mas é aí que o meu papel é essencial - garantir que tudo corre bem, sem sobressaltos.

E o que é mais gratificante?

Miguel Vieira da Rocha:  Ver a cara dos clientes quando entram na casa pela primeira vez depois da obra concluída. É mágico. Aquela emoção, aquele brilho nos olhos. Sabemos que fizemos parte de algo muito importante. E isso paga tudo.

Há algum sonho ou projecto que ainda gostassem de concretizar?

Gracinha Viterbo: Sim. Um comboio. Os comboios estão agora muito ligados à hotelaria de luxo, como os projectos da Belmond , e acho que seria um desafio lindíssimo para a Viterbo. Um projecto que juntasse movimento, paisagem, narrativa e experiência. Seria extraordinário.

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