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Certificação sísmica dos edifícios está a ser preparada e ficará pronta até final do ano

Aníbal Guimarães da Costa, presidente da SPES

Imagem de Bruno Martins

Aníbal Guimarães da Costa, presidente da Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica (SPES) – entidade que foi criada em 1973 e está sediada no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) –, não tem dúvidas: “Muitas vezes gasta-se muito mais dinheiro numa banheira de hidromassagem do que a fazer um reforço na estrutura do edifício quando este está a ser alvo de obras de reabilitação". 

Para corrigir situações como estas, para o especialista é urgente regulamentar a obrigatoriedade de haver uma certificação sísmica dos edifícios, estando a ser preparado um documento nesse sentido. “Vamos tentar fazer um documento que possa servir como decreto lei. A nossa intenção é que seja obrigatório. Não só obrigatória a verificação do projeto, como também a certificação da obra”, diz em entrevista ao idealista/news. 

A comunidade cientifica tem alertado para a possibilidade de voltar a haver um novo grande sismo em Lisboa, como o de 1755. Concorda?

A comunidade científica tem noção de que haverá, de certeza, um novo sismo em Lisboa. Temos sismos de mil cento e pouco até 1300, 1500, 1700 e é natural que possa acontecer um novo sismo no século XXI. Não sabemos é quando. Devemos estar preparados. Essa é uma das preocupações da SPES. 

"Um dos assuntos que está premente no programa deste mandato é a certificação sísmica dos edifícios existentes, porque a regulamentação que existe é sobretudo virada para as construções novas"

O que está a ser feito?

Um dos assuntos que está premente no programa deste mandato é a certificação sísmica dos edifícios existentes, porque a regulamentação que existe é essencialmente virada para as construções novas. Quando falamos no edificado português, onde já há um milhão e tal de fogos a mais, devemos preocupar-nos com o edificado existente. E há muito trabalho a desenvolver. Estamos a fazer esse trabalho, que compete a nós, é um trabalho técnico. Depois de termos esse trabalho desenvolvido vamos apresentá-lo aos órgãos de poder. Ao mesmo tempo vamos tentar fazer manuais de aplicação para divulgar as metodologias de aplicação dessa certificação e também dotar os técnicos de competência para fazer a certificação.

A reabilitação está na ordem do dia. É o momento crucial para apostar na certificação sísmica dos edifícios?  

É um momento essencial por vários razões. Muitas vezes, medidas relativamente simples numa obra que está a ser executada não têm praticamente custo, mas melhoram muito o comportamento sísmico dos edifícios.

"Quando substituímos pavimentos de madeira, que são leves, por estruturas de betão armado estamos a agravar muito a vulnerabilidade sísmica"

Por outro lado, ao nível da reabilitação urbana, é preciso ter muita atenção ao que se anda a fazer. Quando substituímos pavimentos de madeira por lajes de betão armado estamos a agravar muito a vulnerabilidade sísmica do edificado. O que mata as pessoas não são os sismos, são os edifícios. E o que mata nos edifícios são essencialmente as lajes de betão armado. 

A madeira é o melhor material que existe em termos de construção. Quando substituímos pavimentos de madeira, que são leves, por estruturas de betão armado estamos a agravar muito a vulnerabilidade sísmica. Em Lisboa estamos a substituir as gaiolas pombalinas, que é um dos maiores patrimónios mundiais da construção antissísmica. Foram inventadas por portugueses, é uma construção de referência, e dentro de alguns anos será uma imagem virtual.

A reabilitação não passa por aí. O que notamos é que normalmente os técnicos fogem para a zona de conforto,onde as pessoas se sentem melhor a projetar. Como nas escolas só se ensina betão armado, acaba por se fazer reabilitação com soluções de betão armado que não são compatíveis com as construções existentes. 

Quando é que a certificação sísmica poderá ser uma realidade?

O nosso trabalho de casa é no fundo desenvolver ferramentas que permitam fazer essa certificação sísmica. Não é um trabalho fácil, estamos mais ou menos a meio, mas é um trabalho que consideramos essencial, ou seja, desenvolver uma ferramenta, uma metodologia, que permita que os técnicos possam avaliar a vulnerabilidade sísmica do edificado existente. Temos de perceber qual é a resistência que o edifício apresenta e depois tentar melhorar.

"Contamos ter até final do ano esse documento preparado. Depois iremos fazer chegar esse documento aos órgãos competentes, para que o possam por em prática"

Contamos ter até final do ano esse documento preparado, esse documento mais o manual de aplicação. E depois iremos fazer chegar esse documento aos órgãos competentes, para que o possam por em prática. E iremos tentar com esse manual de aplicação dar formação aos técnicos para poderem usar essa ferramenta no dia a dia. Com isso daremos um passo à frente.   

Terá, então, de haver depois uma decisão governamental?

Vamos tentar fazer um documento que possa servir como decreto lei. A nossa intenção é que seja obrigatório. Não só a verificação do projeto, como também a certificação da obra.

O poder político está a dar relevância a este tema?

Este é um problema extremamente grave, que pode representar um prejuízo económico para o país muito elevado. Temos de fazer o nosso papel, que é tentar sensibilizar e fazer perceber que muitas vezes com medidas relativamente simples se pode melhorar muito o complemento sísmico dos edifícios e, no fundo, sensibilizar os políticos. Noto que estes têm receio de por alguns decretos lei cá fora, porque acham que isso vai travar o desenvolvimento da Economia no setor da construção civil. Não tenho essa perceção, porque penso que a maior parte das medidas são simples de implementar, não vulneram muito a construção dos edifícios. Falamos de 2% ou 3%, o que não representa nada, muitas vezes gastam muito mais dinheiro numa banheira de hidromassagem do que a fazer um reforço na estrutura do edifício quando se está a intervir.