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"Não vislumbramos uma alteração profunda na procura do mercado do crédito à habitação"

Autores: @Frederico Gonçalves, César Passinhas (colaborador do idealista news)

Ainda que de forma mais moderada, os bancos continuam a manter aberta a porta do crédito à habitação. E com o cenário atual de taxas de juro negativas são muitos os portugueses que optam por pedir dinheiro emprestado ao banco para comprar casa, uma decisão que muitas vezes é mais económica que arrendar casa. Em entrevista ao idealista/news, Vítor Pereira, membro da comissão executiva do Bankinter, faz um balanço da curta atividade do banco espanhol em solo nacional, onde diz estar "muito safisfeito", e analisa o futuro do mercado do crédito à habitação em Portugal.

Que balanço faz da atividade do Bankinter em Portugal?

Nós olhamos para estes três anos de atividade recentemente comemorados com um grau de satisfação alto, corroborado pela adesão que os clientes, quer particulares, quer empresa, têm feito àquilo que é a nossa proposta, àquilo que é a nossa capacidade de os servir.

Temos crescido mês após mês, trimestre após trimestre, com cada vez mais clientes, cada vez mais volume de negócios. E em última análise essa é a comprovação da adesão e da capacidade que o banco tem tido de satisfazer os clientes, e portanto de ter mais negócio.

Relativamente ao crédito à habitação, é uma peça fundamental da nossa estratégia. Quando chegámos ao mercado português, em 2016, dissemos que o propósito era muito claro, apoiar as empresas e também as famílias nos seus projetos. E a habitação é um projeto. Fizemos um trajeto muito positivo, fomos capazes logo no arranque, em 2016, de fechar o ano em torno dos 3% de quota de mercado de produção, o que para um banco recém-chegado não deixou de ser um marco muito interessante. E temos feito esse trajeto ao longo dos últimos dois anos. Fechámos o ano de 2018 com mais um recorde na atividade no crédito à habitação.

"Nós temos crescido de ano para ano. Superámos em 2018 a barreira dos 500 milhões de euros de nova produção de crédito à habitação, tendo correspondido a cerca de 5,7% de quota de mercado (...). Este trimestre já estaremos com uma quota acima dos 6%" 

Diria que em síntese temos indicadores muito positivos que nos animam, temos muita responsabilidade, mas estamos muito positivos em relação à nossa performance.

Falou em números recorde em 2018…

Nós temos crescido de ano para ano. Superámos em 2018 a barreira dos 500 milhões de euros de nova produção de crédito à habitação, tendo correspondido a cerca de 5,7% de quota de mercado. É um valor significativo, em comparação com a dimensão do banco, e que demonstra a capacidade e adesão que em última análise temos sido capazes de obter junto dos clientes, com a validade da nossa proposta e com as condições que a nossa proposta encerra. Este trimestre já estaremos com uma quota acima dos 6%, continuamos a crescer no negócio do crédito à habitação. 

O Bankinter tem os spreads mínimos mais baixos do mercado. É “por aqui” que passa a estratégia do negócio do crédito à habitação?

Olhamos para o processo de crédito à habitação e percebemos que tem de ser trabalhado para entregar uma verdadeira experiência junto do consumidor. É um processo complexo, é uma decisão estruturante para a vida financeira das famílias e, por consequência, há vários aspetos que têm de ser ponderados, que não só o preço, É um fator fundamental, mas não é o único.

O que fizemos foi olhar em várias dimensões, desde o serviço, capacitar as nossas equipas com conhecimento sobre o produto, que permitam no contacto direto com os clientes prestar toda a assistência e o esclarecimento necessários à boa tomada de decisão. Revimos o processo, agilizando-o, simplificando-o, e hoje temos um tempo recorde de realização de uma escritura.

"A proposta de crédito à habitação tem associados três produtos complementares que são intrínsecos à própria natureza do crédito: um seguro de vida, um seguro de imóvel e uma fonte de rendimentos"

Demos também enfase à capacidade de dar uma resposta rápida ao cliente, sobretudo no contexto do mercado imobiliário. É um fator fundamental, ter a certeza que o banco me apoia e em que condições me apoia. Hoje, maioritariamente, respondemos em menos de 24 horas aos clientes.  

Trabalhamos a dimensão também de marketing, ou seja, uma comunicação muito direta, muito transparente do produto, que não tem letras pequenas. A proposta de crédito à habitação tem associados três produtos complementares que são intrínsecos à própria natureza do crédito: um seguro de vida, um seguro de imóvel e uma fonte de rendimentos.

Do ponto de vista do preço, o que fizemos foi uma estrutura simples, que permita a um cliente saber diretamente a que condições poderá aceder, privilegiando as operações e o perfil de clientes com maior capacidade de autofinanciamento, com uma relação entre o valor do financiamento versus o valor da avaliação mais baixo, e isto traduzido num spread mais baixo, mais competitivo. Trabalhamos várias componentes para garantir que a proposta faz sentido para o cliente.

O Bankinter tem em vigor uma taxa promocional fixa. O futuro passa pelas taxas fixas em detrimento das variáveis? 

A taxa promocional fixa, que recentemente lançámos, foi para três horizontes temporais, dois, cinco e 10 anos, e veio completar o leque de oferta de taxas de juro do crédito à habitação do Bankinter. Hoje temos três modalidades. A mais conhecida é um spread indexado a uma Euribor de referência, e o cliente aqui assume totalmente o risco de variação da taxa de juro, tínhamos já uma situação intermédia, que permite a fixação de uma taxa para um determinado horizonte temporal, que era escolhida no dia da fixação da escritura.

Esta vertente que lançámos agora de taxa fixa promocional vem facilitar, tornar mais tangível este conceito para o cliente. Em termos práticos o que pretendemos é demonstrar ao cliente que tem em cima da mesa duas opções: ou assumo enquanto consumidor o risco de taxa de juro ou elimino total ou parcialmente o risco de taxa de juro.

"É seguro dizermos que o contexto que vivemos em termos de Europa, de taxas de juro negativas muito baixas, não se irá eternizar no tempo"

Achamos que faz sentido, sobretudo no atual contexto de taxas de juro baixas, apresentar as soluções de taxa fixa ao cliente, e quisemos alargar a nossa oferta com a introdução deste conceito de taxa de juro fixa promocional.

Considera que as taxas de juro vão aumentar em breve?

Nós não estudámos nos manuais financeiros e de economia um contexto de taxas de juro negativas, e ainda por cima há tantos anos. A nossa visão sobre o tema demonstra que há uma expetativa que durante 2019 e pelo menos parte de 2020 as condições de base que levam à justificação desse contexto de taxas de juro baixo manter-se-ão, nomeadamente o contexto de desaceleração do crescimento da economia europeia, dai a necessidade de continuar a existir estímulos para que a economia possa continuar a responder. 

[Mas] Sabemos que elas naturalmente subirão. É seguro dizermos que o contexto que vivemos em termos de Europa, de taxas de juro negativas muito baixas, não se irá eternizar no tempo.

O que distingue o Bankinter dos outros bancos?

O Bankinter não é um banco só de crédito à habitação, servimos clientes particulares em todas as dimensões. Temos [por exemplo] a conta ordenado, que é há dois anos consecutivos a melhor do mercado, com 5% de remuneração no primeiro ano e 2% no segundo – é a única conta ordenado do mercado que remunera e não tem custos –, e temos também as soluções do ponto de vista de gestão do património dos clientes, as suas soluções de investimento.

"Neste momento, tendo em conta as nossas estimativas, não estimamos impactos relativamente ao nosso plano de negócio para o crédito à habitação"

Mas o crédito à habitação é naturalmente muito visível para os consumidores. O que é que ele traduz? Traduz a capacidade, ou o desafio que assumimos de permanentemente olharmos para a proposta e percebermos onde a podemos melhorar.

O Governo aposta forte na dinamização do mercado de arrendamento, mas os portugueses preferem, culturalmente, comprar casa. Os bancos ganham por os portugueses preferirem ser proprietários?

Neste momento, tendo em conta as nossas estimativas, não estimamos impactos relativamente ao nosso plano de negócio para o crédito à habitação.  

A propriedade é uma dimensão muito forte, que o consumidor valoriza em primeira instância. Por outro lado, hoje em dia, e num contexto de taxas de juro anormalmente baixas, o consumidor faz essa arbitragem.

O consumidor, além dessa proximidade cultural ao tema da posse, faz a comparação direta entre o custo de aquisição, a prestação mensal do crédito acrescida dos restantes custos, com o custo do arrendamento. A decisão, no final do dia, acaba sempre por ser tomada. Neste momento, não vislumbramos uma alteração profunda naquilo que é o padrão de procura e o fluxo de procura do mercado de crédito à habitação.